Ônibus seguem cheios, mas Urbs contesta superlotação | Jornal Plural
8 nov 2020 - 22h07

Ônibus seguem cheios, mas Urbs contesta superlotação

Prefeitura de Curitiba não atende recomendações do TCE e se nega a divulgar pesquisa sobre Covid-19 nos coletivos

Mesmo com cenas de aglomerações se repetindo dia após dia, a Urbs, que gerencia o transporte público de Curitiba, contestou auditoria do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) que sugeriu providências para frear a superlotação nos ônibus e diminuir as chances de disseminação da Covid-19. Apesar de confirmar a réplica, a empresa não explicou os argumentos usados e disse que só irá se manifestar após novo parecer do TCE. Neste sábado (7), a cidade chegou a 55.432 confirmações e 1.521 mortes provocadas pelo coronavírus.

A Urbs ainda se recusou a compartilhar resultados de um levantamento que, segundo o próprio prefeito Rafael Greca (DEM), teria mostrado que os ônibus da Capital não seriam fator de transmissão na cidade. O primeiro pedido de acesso à pesquisa foi feito pelo Plural no dia 29 de setembro, cerca de uma semana antes do parecer emitido pelo Tribunal de Contas.  

As recomendações do TCE-PR foram homologadas no dia 7 de outubro pelo Pleno do órgão. Três dias depois – embasada no decreto que regulamentou serviços com base na bandeira amarela, menor nível de alerta estabelecido pelo município –, a lotação máxima nos ônibus da Capital passou de 50% para 70%. Ainda assim, empurra-empurra e aglomerações no transporte indicam que nem o novo teto vem sendo respeitado.

No início da noite de sexta-feira (6), a reportagem presenciou aglomerações em ônibus, desrespeito ao distanciamento e falta de fiscalização no Terminal do Portão e em uma estação-tubo adjacente, a Itajubá. No terminal, a plataforma de espera por onde passam os expressos Pinheirinho, Santa Cândida-Capão Raso e Circular Sul tinha usuários muito próximos e, nos cerca de vinte minutos que observamos o local, não houve nenhum tipo de advertência.

As constatações seguem em consonância com os registros feitos por analistas do TCE-PR cerca de um mês atrás e que sustentaram o processo de homologação de recomendações aberto pelo órgão.

Foto: TCE/PR
Foto: TCE/PR

Orientação e prazo

Depois de vistoriar presencialmente estações-tubo localizadas em diferentes pontos do município, o Tribunal deu o prazo de um mês para que a Urbs e a Prefeitura reforçassem protocolos de distanciamento, essenciais para evitar a transmissão do coronavírus. O órgão sugeriu que o horário de pico nos serviços da cidade fosse dissolvido para ajudar a evitar que muitas pessoas dependessem do transporte em um intervalo limitado de tempo. Mas nenhuma mudança foi efetuada.

Os dias para manifestação da empresa começaram a correr após a publicação do acórdão, em 14 de outubro. Segundo o Tribunal, ainda há tempo em aberto e, por isso, o trâmite segue dentro dos prazos estabelecidos. Como se trata de um processo de Homologação de Recomendações, sem força de determinação, o resultado final é orientativo e cabe ao notificado seguir ou não as propostas aprovadas pelos Conselheiros.

Ônibus da linha Circular-Sul com muita gente em pé e próximas umas das outras. Foto: Angieli Maros

Pesquisa não divulgada

A pesquisa que a Urbs se recusou a compartilhar com o Plural foi feita a partir do cruzamento entre dados dos cartões-transporte dos usuários e casos de Covid-19 registrados pela Secretaria Municipal da Saúde (SMS). O levantamento foi citado por Greca (DEM), que concorre à reeleição, em entrevista de campanha.  

“Temos uma pesquisa que mostra que os ônibus não foram fator de transmissão. 290 mil pessoas andam de ônibus todo dia, atualmente, em Curitiba. Normalmente andavam 800 mil, 1 milhão de pessoas. Mas na pesquisa, nos dias que eu fiz, só 70 pessoas que andaram de ônibus apareceram vítimas de Covid. Talvez o ônibus não seja o fator de infecção”, afirmou o prefeito em entrevista ao jornalista João Barbiero, de Ponta Grossa, no dia 21 de agosto.

Segundo a Urbs, os resultados da pesquisa não serão compartilhados, por enquanto, porque  “a Prefeitura optou por utilizar os dados internamente para balizar eventuais decisões pela Secretaria de Saúde e pelo Transporte Público”. Questionada se as conclusões já embasaram alguma decisão, a Urbs respondeu que “não especificamente”.

Segurança do usuário

A gestora do transporte também reiterou que, desde a chegada da pandemia, tomou uma série de medidas para evitar aglomerações e assegurar segurança dos usuários do transporte coletivo. As ações citadas incluem a lotação máxima dos veículos; controle de entrada nos ônibus, com ajuda do Exército nessa fiscalização; obrigatoriedade do uso da máscara; marcações nos terminais para distanciamento mínimo de 1,5 metro nas filas; higienização de veículos e equipamentos públicos; viagens com janelas abertas, e instalação de termômetros em terminais.

Segundo a empresa, atualmente o  número diário de passageiros ainda não chegou nem à metade do que era antes da pandemia. Mesmo assim, a Urbs garante que 80% da frota está circulando, sendo que nas linhas mais movimentadas e expressas 100% dos carros estão em circulação, e que o monitoramento das ações e do comportamento dos usuários é constante – contrariando as observações da reportagem e do TCE-PR.

Foto: TCE/PR

Sobre os horários de pico que concentram mais usuários, a Prefeitura citou decretos municipais específicos e disse que o Comitê de Supervisão e Monitoramento dos Impactos do Coronavírus, com base nas informações obtidas pelos agentes da Urbs, “analisa permanentemente o cenário, confronta dados, classifica indicadores e monitora os picos de movimento a fim de estabelecer a melhor estratégia a ser adotada”.

Ainda conforme a empresa, há agentes que controlam permanentemente o número de passageiros nos ônibus e que a fiscalização e os cuidados com usuários “estão sendo feitos em loco e através da colaboração das empresas de transporte coletivo”.

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3 comentários sobre “Ônibus seguem cheios, mas Urbs contesta superlotação

  1. O movimento de usuários do transporte público em Curitiba pode não ser o mesmo que o anterior a pandemia, mas que não chega a metade do que era, com certeza, é uma informação equivocada.

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