9 nov 2020 - 9h00

Em “Preocupações”, Ana Guadalupe segue fazendo do cotidiano poesia

Poeta, que também trabalha como tradutora, fala de amor, poesia, e das preocupações pelo prisma do banal

Se houve um poema mais fotografado e postado no meu Instagram desde o início da pandemia, este poema certamente foi “não haverá passeio”, que integra o livro “Preocupações”, de Ana Guadalupe. 

hoje não me convidaram para nenhum passeio
nem amanhã
nem amanhã

“Não haverá passeio”

Os versos estão no livro lançado, em novembro de 2019, pela Edições Macondo. Embora a publicação remonte há um ano, o livro estava pronto há três, e contempla poemas escritos por Guadalupe entre 2013 e 2017. “Para mim esse livro parece já bem antigo. Ele é novo, mas parece velho porque tem coisas que eu escrevi em 2014, 2015, 2016…”, comenta a poeta que tinha receio de que a obra talvez não dialogasse com o momento atual, uma vez que a pandemia começou meses após o lançamento.

“Mas as pessoas apontaram, e aí consegui de cabeça lembrar, alguns momentos em que tinha um clima mais de isolamento social, distanciamento social, em alguns poemas”, comenta em referência também aos versos de “no quarto escuro”, que fala sobre se ver trancada. No fim, a pandemia se tornou uma espécie de chave de leitura para o livro, que também faz da ida ao mercado, dos filhos da vizinha, do preço do aluguel, e do ônibus poesia.

A poeta e tradutora, Ana Guadalupe. Foto: Fernanda Vallois

Guadalupe tem esse olhar para o banal, algo que acredita vir, em certa medida, da leitura de autores e autoras contemporâneos dos quais gosta. Um olhar que a escritora define como mais doméstico, e menos interessado em grandes coisas. “Acho que é uma espécie de lugar que eu percebi que existia”, diz.

Afinal, quem é que pensaria em nomear um poema de “mal hálito” ao falar de um amor? Mas faz todo sentido dentro da proposta poética da autora. “São essas sensações que às vezes você vai falar de grandes experiências e até esquece essa coisa que é tão menor, e até sem graça, que não vale a pena falar, não sei. Mas acho que são situações que me interessam”, afirma.

Essas banalidades, que Guadalupe também descreve como uma espécie de “anti-beleza” e “anti-glamour”, a poeta retira do próprio cotidiano – uma mescla de experiências próprias com imagens que encontra por aí. Há mistura de discursos, frases de outras pessoas, vivências próprias, memórias. “Tento escrever de maneira um pouco mais aberta, assim, com menos lupa, para fazer aquilo parecer menos um relato da minha vida e mais uma reflexão”, diz.

Embora a poesia por si não seja uma expressão tão colada à realidade, Guadalupe reconhece que seus poemas podem soar pessoais. “Mas talvez tenha algo no tom que pareça mais autobiográfico. Uso muito primeira pessoa, acho que isso dá uma sensação mais de confissão, mesmo quando não é”, comenta.

Em meio ao trabalho de tradução que realiza, a poeta vai tentando arrumar tempo para escrever. Este ainda é seu trabalho principal: “Coloco uma energia muito diferente, mais assertiva, no trabalho que paga as contas, porque ele acaba sendo prioritário mesmo. E a poesia fica em outro lugar, de… uma outra caixa”, diz.

Apesar disso, já tem algumas ideias esboçadas na mente para um próximo livro – ainda que nada, por hora, lhe satisfaça. Mas como já diria os versos finais de “beijinho torto” – seu poema favorito em “Preocupações” -:

qualquer espera
já que toda espera é sonho é
vontade

Livro

“Preocupações”, de Ana Guadalupe. Edições Macondo, 84 páginas, R$ 38.

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