E depois do suicídio? | Jornal Plural
18 set 2020 - 13h07

E depois do suicídio?

Se alguém da sua família tirou a própria vida, aqui há informações que podem ajudar

Há sete anos, quando o meu irmão se matou, eu não sabia muita coisa sobre suicídio. Tinha as minhas referências, como todo mundo, mas eram bastante romantizadas. A biografia do Kurt Cobain que devorei com sombrio encantamento na adolescência; a belíssima Ofélia afogada entre as vitórias-régias em Hamlet, a famosa peça de Shakespeare; as teorias da conspiração em volta da morte de Marilyn Monroe: suicídio ou assassinato? Nada disso me preparou para a ligação que recebi naquele fim de noite – nem sequer para todos os dias que vieram depois.  

Se você chegou até aqui em busca de respostas sobre o destino do suicida, já vou logo dizendo que também não as tenho. Céu, inferno, umbral. Todos esses conceitos continuam bastante abstratos, mas adquiri outras convicções ao longo do caminho. A mais importante se baseia em dados: segundo o Ministério da Saúde, estudos com famílias, gêmeos e adotados indicam a existência de um componente genético na depressão. “Estima-se que esse componente represente 40% da suscetibilidade para desenvolvê-la”, informa o órgão. 

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), transtornos mentais estão presentes em 98% das pessoas que se suicidam, sendo a depressão o principal deles. Isso significa que 90% dos casos de suicídio poderiam ser evitados com tratamento adequado. 

O objetivo de trazer essas informações não é criar processos de culpa ou estabelecer um diagnóstico obrigatório de depressão. Cada história é uma história. O que eu quero dizer é que, assim como quem perde um familiar para o câncer precisa redobrar o cuidado com os exames preventivos, é importante que você zele pela sua saúde mental.

Para deixar isso tudo um pouco mais claro, conversei com uma especialista no assunto: a psicóloga Rita Sprea.

Após um suicídio, as pessoas próximas entram numa espiral de perguntas. A mais comum é: por quê?

O suicídio é multifatorial. Não existe uma única causa para isso, mas sim fatores de risco presentes na vida da pessoa e, às vezes, ausência de fatores de proteção. Fatores ambientais e genéticos influenciam nessa decisão da pessoa, que costuma estar com problemas psicológicos, como depressão, ansiedade; ter passado por algum trauma; ou ter algum transtorno, como bipolaridade, borderline, entre outros. O suicídio pode ser sim um sintoma da depressão, mas também pode ser sintoma de outros transtornos, como por exemplo, do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB). A pessoa também pode cometer suicídio sem ter um transtorno específico, mas estar passando por um sofrimento muito grande e ter problemas psicológicos.    

A depressão é hereditária? 

Não falamos que a depressão é hereditária num sentido de que filhos de um pai ou uma mãe com depressão com certeza terão o transtorno. Mas existem, sim, componentes genéticos que influenciam. Segundo o DSM-5, familiares de primeiro grau de indivíduos com transtorno depressivo maior têm risco duas a quatro vezes mais elevado de desenvolver a doença do que a população em geral. Precisamos utilizar essa informação ao nosso favor: se você sabe que alguém da sua família tem ou já teve depressão, é importante cuidar preventivamente da sua saúde mental, pois existe uma maior vulnerabilidade para desenvolver esse quadro.

Isso significa que, em uma situação de adversidade, como por exemplo o luto, uma pessoa que não tem predisposição genética tem chances menores de desenvolver uma depressão, e passa pelo processo natural de luto. Enquanto que, na mesma situação, uma pessoa que tem a predisposição genética para depressão, tem maiores chances de desenvolver depressão em decorrência dessa perda.

Isso é significativo quando olhamos para as pessoas em luto por familiares que cometeram suicídio, pois se a pessoa suicida tinha algum transtorno psicológico, existe chance do familiar ter também, e reagir de forma mais preocupante ao luto.

Ao mesmo tempo, não podemos desconsiderar a importância do ambiente no desenvolvimento e curso do transtorno.

É comum que outras pessoas da família apresentem ideações suicidas?

Sim, é possível. Primeiramente, pois essa pessoa também pode ter uma vulnerabilidade maior às adversidades da vida. Segundo, o luto que essas pessoas passam é mais intenso e duradouro, principalmente pela busca de uma causa, de um motivo. É como se elas não conseguissem seguir em frente, pois a pergunta de quem é o “culpado” está sempre ruminando em sua mente.

Porém, isso não acontece sempre. Não podemos adotar como regra que todo familiar de alguém que cometeu suicídio também irá apresentar ideações suicidas.

Como lidar com o suicídio de um familiar e minimizar o impacto negativo dessa morte?

Caso você esteja passando por um momento assim, entenda seu processo de luto, saiba que você vai sentir muitos sentimentos além da tristeza, como raiva, culpa e impotência.

Uma das principais coisas é não se culpar. É impossível controlar todas as ações de alguém, e o suicídio quase nunca acontece por uma única causa, são diversos fatores envolvidos. Mesmo com um familiar muito próximo (filho, irmão, pai, mãe), existe um limite até onde conseguimos interferir na vida do outro.

É importante que você busque e aceite ajuda, tanto pelo processo de luto quanto por uma depressão que pode surgir. Às vezes, você pode precisar de ajuda para fazer tarefas simples do dia a dia. Entenda que é por um período, que você está mais vulnerável, e que não tem nada de errado em precisar de ajuda. Mantenha uma rede de apoio por perto, pessoas que te fazem bem. Conversar com grupos de apoio e pessoas que já passaram por isso também pode ajudar.

Como em outros processos de luto, também é importante cuidar da sua saúde, como conseguir comer alguma coisa e descansar; principalmente cuidar da sua saúde mental, para que uma depressão não se desenvolva, e para que “acabar com tudo” não comece a se tornar uma opção para você também. Além disso, você pode estar mentalmente confuso, então, não tome grandes decisões nesse momento; passe pelo luto, não lute contra ele por meio de grandes atividades, pois não vivenciar o luto também não é saudável para a mente.

E por último, não tenha receio de contar a real causa da morte, isso pode auxiliar as outras pessoas a entenderem a sua situação, e respeitá-la. Ao mesmo tempo, perceba seu tempo, e como se sente confortável. Ao mesmo tempo que você não precisa ter medo de falar sobre o suicídio (e não continuar alimentando esse estigma), você não precisa se forçar a fazer algo que ainda não se sente preparado.

Então, ao passar por essa experiência, é preciso redobrar a atenção com a saúde mental?

Com certeza. Quando uma pessoa comete suicídio, todos os envolvidos em sua vida são afetados. Familiares, amigos e até conhecidos do trabalho são impactados pela notícia. É preciso vivenciar a dor, e passar pelos momentos do luto, porém, perceber se esse sofrimento não está afetando sua saúde mental de forma intensa. Caso isso aconteça, é importante buscar ajuda profissional.

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Um comentário sobre “E depois do suicídio?

  1. Jess, que relato importante! Obrigada por compartilhar e ir direto ao ponto. Na minha jornada “Depressão em primeira pessoa” que está sendo relatada aí mesmo no Plural detalho as minhas experiências e fico muito feliz ao perceber que, mesmo como leiga no tema e usando apenas as minhas experiências pessoais, os conselhos da Rita Sprea estão relatados nas minhas vivências. Ufa. Seguimos juntas!

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