Curitibanos na África do Sul pedem repatriação | Jornal Plural
17 ago 2020 - 23h23

Curitibanos na África do Sul pedem repatriação

Ao lado de outros brasileiros, eles aguardam apoio do governo Bolsonaro para voo de volta

A jornalista Waleiska Fernandes e suas duas filhas saíram de Curitiba no início de 2020 para uma temporada de estudos de seis meses na África do Sul. Por causa da pandemia, as fronteiras do país foram fechadas e agora eles não conseguem retornar ao Brasil. Ao lado de outros brasileiros, elas veem as economias acabar enquanto aguardam apoio do governo de Jair Bolsonaro para um voo de repatriação.

De acordo com o grupo, o governo federal até disponibiliza lugares em voos comerciais, liberados para transportar estrangeiros. O problema é que eles custam caro e, sem reservas financeiras, muitos não conseguem voltar.

Waleiska é uma delas. Ela relata que se licenciou do trabalho em Curitiba por seis meses e que toda a sua previsão orçamentária para ficar na África do Sul era por esse período, acompanhando o marido, também jornalista, Mário Messagi Júnior, da UFPR, que está fazendo pós-doutorado no país. “Nossas passagens, minha e das minhas filhas, custaram R$ 7,2 mil, ida e volta, e foram pagas antes da gente sair do Brasil, com muita organização financeira. Nesses voos divulgados pela Embaixada, só a volta está custando cerca de R$ 25 mil. Isso é impraticável pra alguém que se licenciou sem salário e que veio com o dinheiro todo programado”, avalia.  

Ela afirma que vários e-mails já foram enviados para a Embaixada do Brasil mas a resposta é de que não há previsão de novos voos de repatriação por parte do governo federal.

Com o visto temporário vencido, dela e das filhas, Waleiska se uniu a um grupo de brasileiros na Cidade do Cabo (Cape Town), no sudoeste da África do Sul, na província do Cabo Ocidental. Eles enviaram uma carta coletiva ao Itamaraty, no dia 31 de julho, na qual relatam a “situação de desamparo” por qual passam. O documento também foi enviado à Embaixada do Brasil, à Secretaria da Presidência da República e à Defensoria Pública.

O grupo não sabe quantos brasileiros vivem na cidade sul-africana mas acredita haver muitos mais, já que outra petição on-line circula pelas redes sociais. Nela, os relatos são de que o último voo de repatriação organizado pelo governo do Brasil foi em 6 abril, mas que muitos não conseguiram voltar na ocasião. Eles também relatam não terem condições de pagar pelos voos comerciais.

“A impressão que nos passa é de que só conseguirá voltar para casa quem tem condição financeira de fazê-lo dentro dos valores exorbitantes impostos por essas empresas. Isso nos dá uma tremenda sensação de abandono. Pedimos socorro”, diz a petição, já assinada por 1,4 mil pessoas.

Na divulgação desses voos comerciais o governo deixa claro que eles não são organizados pela Embaixada do Brasil. “O papel da Embaixada limita-se a informar sobre a possibilidade de uso de tais voos e a obter as autorizações necessárias para que os cidadãos brasileiros possam deslocar-se ao ponto de encontro para embarque no voo.”

Nas redes sociais do Itamaraty, consta a divulgação de um voo em 23 de julho, no qual foram repatriados 130 brasileiros que estavam na África Ocidental.

Sem informações

Curitibanos aguardam auxílio na África do Sul. Foto: Arquivo Pessoal

Waleiska lembra que o Consulado do Brasil em Cape Town disponibilizou um formulário on-line para que interessados em repatriação façam um cadastro, porém, não informa quantos já fizeram a solicitação. “Não estava no meu orçamento ter que pagar por esses voos tão caros para retornar e isso tem sido um fator de muita preocupação pra mim”, ressalta a mineira Sonete de Souza Machado.

O lugar onde ela mora já está com o contrato vencido, assim como o seguro-saúde dela e da família. “Além disso, tenho uma filha asmática que necessita de medicação diariamente e esses voos que a Embaixada tem oferecido, nesses valores caríssimos, preveem várias paradas, o que aumenta a exposição da minha filha ao risco de contaminação por coronavírus”, ressalta Sonete.

Sua colega Gisele Simões, que chegou na África em novembro de 2019, também está preocupada. “Viajamos pra cá com o dinheiro todo organizado para seis meses. Já estamos dois meses aqui além do programado e não sabemos mais o que fazer, a quem recorrer.”

Segundo o grupo, a carta solicitando a repatriação dos brasileiros já está em Brasília, porém, ainda não houve respostas por parte do governo. O apoio de deputados e senadores também foi solicitado e as Comissões de Direitos Humanos do Senado e da Câmara Federal protocolaram pedidos de informações aos órgãos do Executivo, sem retorno.

O Plural entrou em contato com a Assessoria de Imprensa do Itamaraty, que informou estar a par do assunto, mas a solicitação de informação precisaria ser feita por e-mail. O pedido foi digitalizado mas, até o fechamento desta reportagem, não houve retorno.  

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