Código de cores para cegos e moda funcional: os projetos que ajudam deficientes a se vestirem sozinhos | Plural
22 fev 2019 - 0h00

Código de cores para cegos e moda funcional: os projetos que ajudam deficientes a se vestirem sozinhos

Das universidades, saem ideias que facilitam a vida de quem tem dificuldades para tarefas simples do cotidiano

A maioria das pessoas não precisa fazer nenhum esforço para realizar as atividades mais simples do dia a dia, como escolher e identificar a cor da roupa que quer usar e vesti-la com tranquilidade. A ação é automática, não tem segredo. Em alguns segundos, as peças que compõem o ‘look’ já estão no corpo, prontas para servir como uma forma de identidade diante do olhar dos outros.

Para as pessoas com deficiência física, visual ou intelectual, a história é diferente. Quem não consegue enxergar geralmente necessita da ajuda constante de um familiar ou cuidador para a simples tarefa de separar a calça ou a camisa da cor que gostaria de usar. Afinal, como os cegos sabem que uma roupa é vermelha e a outra é azul? Como eles têm certeza que estão sendo vestidos do jeito que querem?

Quem se debruçou sobre essas questões foi a doutoranda Sandra Marchi, do curso de Engenharia Mecânica da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ela desenvolveu um sistema de código de cores, o ‘See Color’, que tem o objetivo de auxiliar os deficientes visuais a identificarem as cores em diferentes objetos do cotidiano, desde esmaltes, batons, sapatos, a tecidos e embalagens de tintas. O projeto foi orientado pelos professores Maria Lúcia Leite Ribeiro Okimoto e Ramón Sigifredo Cortés Paredes.

Sandra Marchi: desenvolvendo um código de cores para cegos. Foto: Marina Sequinel/Plural.

Graduada em Artes Plásticas pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), Sandra veio para a capital paranaense para fazer mestrado e doutorado e se aprofundar nos estudos sobre as cores. “Aqui eu comecei a trabalhar com tecnologia assistiva, que é aquela que melhora a vida das pessoas, principalmente as com deficiência. Um dia eu conversei com um professor de Física da Udesc, Milton José Cinelli, que me contou sobre o trabalho que fazia com crianças cegas em uma instituição e disse que estava com dificuldade para ensiná-las sobre as cores. Então eu, como artista e professora de pintura em tela por muitos anos, comecei a pensar sobre como faria para ajudá-lo”, conta.

O primeiro sistema que veio à cabeça foi o Braille, a leitura tátil utilizada pelos cegos. Segundo Sandra, o problema, no entanto, é que essa linguagem é bastante extensa. “Eu percebi que teria que ser algo em três dimensões. Vi que já existiam algumas pesquisas, mas os códigos não eram suficientes. Para escrever ‘amarelo’ em Braille na etiqueta de uma roupa, por exemplo, ficaria muito longo. A ideia era fazer uma coisa pequena, mas que fosse perceptível ao tato, para que o cego pudesse compreender”.

Reconhecendo as cores com o tato

No começo, Sandra criou um sistema com bolinhas de isopor e palitos de madeira, até chegar no triângulo cromático, com as três cores primárias: vermelho, azul e amarelo. “O cego sente o código com as mãos e é bem simples de aprender. É só imaginar um relógio com um ponteiro no centro. Eu usei o ponto do Braile e uma linha. Se ela está apontando para cima é o vermelho, para o lado esquerdo é o azul e para o outro o amarelo. A pessoa só precisa fazer um mapa mental disso”, explica.

O que antes era um protótipo, criado em impressora 3D, virou um triângulo feito de madeira, onde é possível encaixar também as cores secundárias, entre as primárias. “Assim, a pessoa consegue ter uma noção de mistura. Além disso, o preto e o branco estão em uma estrutura separada do triângulo, um do lado esquerdo e o outro do lado direito, respectivamente”.

A partir daí, é só aplicar o código nos objetos, usando de um molde vazado e de tinta em relevo. “A própria pessoa pode customizar as suas roupas ou outros pertences sozinha. A ideia é justamente a independência. Um cego não precisa depender de ninguém para fazer as coisas mais simples, como escolher o que vestir. A autossuficiência, o empoderamento, aumenta a autoestima”, avalia a artista plástica.

É fácil de memorizar

De acordo com a doutoranda, as pesquisas mostraram que o processo de aprendizagem do código é muito rápido. “Nós fizemos uma experiência com 18 cegos. O que vimos é que tanto eles quanto as pessoas que enxergam memorizaram o sistema em 20 minutos, já que só é preciso gravar a posição das cores. Eu mesma fiquei surpresa com isso, porque achei que levaria três, quatro dias para ensinar como o triângulo funciona”.

Como a moda é dinâmica e os produtos não são feitos apenas de cores primárias e secundárias, o jeito foi ir além: hoje, o ‘See Color’ tem um total de 94 cores, uma variação das oito iniciais.

O código de cores na prática. Foto: Marina Sequinel/Plural.

Fácil de aprender e aplicar, o projeto foi tão bem recebido pela comunidade que foi destaque no prêmio Viva Inclusão, organizado pela prefeitura de Curitiba, em dezembro do ano passado. A iniciativa homenageia as boas práticas pela igualdade de direitos desenvolvidas na capital.

“Ter o trabalho reconhecido depois de tantos anos de dedicação é muito gratificante. Diante de um caminho sofrido, saber que o sistema deu certo e gerou bons resultados é maravilhoso”, comenta.

E se todo mundo aprendesse?

O próximo passo agora, segundo Sandra, é tornar o código de cores um sistema popular e acessível, com o uso nas escolas e no mercado de modo geral. “Nós estamos conversando para transformar o ‘See Color’ em uma linguagem universal. Normalmente, quando as crianças aprendem sobre as cores, ou é no papel ou pintando. Mas esse processo é abstrato. Por outro lado, se a pessoa manuseia o triângulo, as cores viram algo palpável”.

Para ela, todas as crianças podem aprender como o código funciona, independente de serem ou não deficientes visuais. “Nós queremos colocar o triângulo nas escolas, para que os alunos brinquem com ele, sem estigmatização. Assim, o cego e o estudante com baixa visão aprenderão juntos com aqueles que enxergam”, conclui.

Moda funcional

Escolher a cor da roupa ou de um acessório é apenas o começo de uma série de dificuldades que pessoas com qualquer tipo de deficiência enfrentam quando o assunto é vestimenta. O tipo de tecido, o fecho e a costura, por exemplo, são itens que têm o poder de facilitar ou complicar a vida dos deficientes no dia a dia.

Partindo desse princípio, a designer de moda formada pela Udesc e também doutoranda da UFPR, Bruna Brogin, desenvolveu o projeto ‘Co-Wear – Método de Cocriação de Moda Funcional’, para produzir peças inclusivas, desenhadas e criadas especificamente para pessoas com deficiência.

Bruna Brogin: roupas práticas desenvolvidas em parceria com deficientes.
Foto: Marina Sequinel/Plural.

No total, já são seis anos de pesquisa: dois no mestrado, feito na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com orientação do professor Vilson João Batista, e quatro de doutorado, com a mesma professora de Sandra, Maria Lúcia Okimoto.

“A iniciativa partiu da percepção de que roupas não adaptadas causam dependência. Muitas vezes, quando as pessoas não conseguem se vestir sozinhas, elas deixam de participar da vida social, por não se sentirem belas ou capazes. É importante frisar que a moda inclusiva não se trata apenas de cobrir o corpo, mas também de lidar com o manuseio das peças, quando faz frio ou calor, ou na hora de tirá-las para ir ao banheiro. Se você não tem ninguém para ajudar nesse último caso, acaba deixando de ir trabalhar, estudar ou de fazer um passeio”, diz Bruna.

É caso de saúde

Quando a doutoranda afirma que o projeto vai além da vaidade, ela está falando sério. De acordo com a designer, são inúmeros os casos em que zíperes machucam a pele ou que a pressão causada por botões provoca feridas graves.

“São vários relatos de alergia ou até mesmo de sufocamento, no momento em que uma blusa fica travada no pescoço e a pessoa não tem a agilidade necessária para passá-la até a região do peito. Há muitas outras situações sérias, entre elas, o caso em que um cuidador foi tentar colocar a roupa em uma criança e acabou quebrando o braço dela”, relata.

Uma pequena alteração em uma calça pode melhorar a saúde e a qualidade de vida. “Quem não realiza movimentos de destreza fina com as mãos não consegue fechar um zíper. Além disso, para colocar uma calça, geralmente a gente estica a coluna e encolhe a barriga. Os cadeirantes não têm como fazer isso com facilidade, como se vestem sentados. Então nós deslocamos a parte do fecho para a lateral do corpo e substituímos o zíper por imã ou velcro, o que já faz muita diferença.”

Outras mudanças aprovadas por quem teve contato com o projeto são as alças costuradas dentro das calças, ajudando os cadeirantes a se vestirem sentados; e a aposta de elásticos mais grossos nas bermudas, para evitar nós e laços. Assim, a peça sobe e desce com tranquilidade, sem o perigo de prender no momento em que a pessoa vai tirá-la para usar o banheiro.

Por que ‘cocriação’?

Bruna explicou que a participação da pessoa com deficiência é peça-chave para o desenvolvimento da moda funcional. Daí o conceito de cocriação, em que designer e público-alvo se unem para tornar o projeto possível. “Quem melhor pode falar quais são as necessidades de mudanças são os deficientes. Alguém que não vive essa realidade não vai ter como produzir algo bom sozinho. Juntos, o projetista e a pessoa interessada realizam todas as etapas, usam as ferramentas disponíveis e chegam a um desenho final, que será prototipado e confeccionado”.

Antes da produção da roupa, no entanto, os envolvidos precisam responder um questionário detalhado sobre o modo como se relacionam com o guarda-roupa. A partir daí, o designer vai descobrir qual é o tecido preferido da pessoa, em que posição ela senta e se veste, e se o seu cuidador tem ou não algum tipo de desconforto para relatar.

“A simples tarefa de vestir uma calça, que pode ser bem complicada, é seccionada em 15 mini atividades. Nós analisamos se a pessoa consegue inserir o pé no lado direito da peça, depois no lado esquerdo, e assim por diante. No total, são três ou quatro momentos de cocriação. É um trabalho bem minucioso”, declara.

Ímãs, velcros e zíperes laterais: itens simples que facilitam muito. Foto: Divulgação.

E engana-se quem acha que a autora do projeto não se preocupa com as estampas e modelos das roupas. Muito pelo contrário: a iniciativa conta com uma pesquisa de tendências para que os deficientes façam parte do mundo da moda. “A ideia não é fazer só uma peça e acabou. Queremos desenvolver coleções completas, por isso analisamos o mercado e buscamos as melhores soluções, tecidos, cores e adaptações”.

Assim como o código das cores, o ‘Co-Wear’ também foi destaque no prêmio Viva Inclusão, da prefeitura. “Eu fiquei muito feliz com o reconhecimento. Nós vimos muitas iniciativas boas e saber que o meu projeto tem o potencial de ajudar os outros é incrível. O que queremos é continuar motivando as empresas a colocarem peças inclusivas no mercado e, quem sabe, até fazerem um desfile de moda, para que essas pessoas se sintam representadas em todos os setores”, finaliza.

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Juliane Silveira dos Santos

Oi, adorei o trabalho, gostaria de saber informações, pois trabalho com alunos com deficiência visual, obrogada!

Oi Juliane, você pode procurar a UFPR diretamente, que é quem realiza o trabalho.

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