Caximba: encontros juvenis | Plural
13 mar 2019 - 17h47

Caximba: encontros juvenis

Em uma oficina de educomunicação realizada com adolescentes moradores do bairro da Caximba, periferia da Zona Sul de Curitiba, os participantes apontaram, em um mapa,…

Em uma oficina de educomunicação realizada com adolescentes moradores do bairro da Caximba, periferia da Zona Sul de Curitiba, os participantes apontaram, em um mapa, os sentimentos que tinham por lugares específicos dentro da ocupação. Amor, alegria, medo, tédio.

O senso comum e o noticiário policial nos fazem crer que zonas de ocupação são lugares em mão única, mas neste momento – mesmo quando há criminalidade – pequenas e grandes iniciativas fazem de territórios abandonados um laboratório de soluções. Nesses lugares, a ação juvenil é um fato, não um slogan.

Adolescentes moradores da Caximba foram ao Largo da Ordem entregar o material produzido na oficina. Produção: Melina Cunha e Felipe Petri.

No dia 11 de maio de 2018, uma sexta-feira, o Colégio Estadual Professora Maria Gai Grandel estava um alvoroço. Um grupo de alunos e alunas rodeavam o local à espera do ensaio da fanfarra da escola. A “Maria Gai” desenvolve um projeto inovador. A “bandinha” toca todo tipo de música, já ganhou até competição fora da cidade. “É a única atividade extracurricular que conseguimos manter aqui, mas é uma referência para as comunidades da região”, conta a diretora Sônia Hinça.

Quatro dias depois, a correria recomeçou. Dessa vez, o movimento não foi motivado pela banda, ou pela distribuição semanal de leite que acontece às terças-feiras. Às 15 horas, uma troca de tiros em uma das principais ruas da comunidade deixou dois jovens mortos e um ferido. “As mães vieram buscar os filhos por causa do tiroteio”, descreve Hinça.

Quem vê de fora pode supor que a cena é corriqueira, mas não é. Moradores contam que há muito tempo não havia situação parecida na “29 de Outubro”, como é chamada a grande ocupação irregular da região. Resultado é que a situação mexeu com a comunidade inteira. “Quando está para acontecer algo assim, eles dão um jeito de alertar. Ontem tinha um boato na rua, pedindo pra gente ‘não descer’ hoje de tarde porque aconteceria alguma coisa pra lá”, explica uma moradora da Vila Primeiro de Setembro, parte das vilas em que o conflito habitacional se mescla com todos os outros.

No local, representante da Polícia Militar informava que os meninos assassinados estariam envolvidos com o tráfico de drogas. Alguns protestam. “Não tem como saber se estavam ou não estavam. Um deles participava de reuniões da vila com a gente”, protesta uma moradora. “O que está no hospital não é do tráfico não. Ele trabalha no mercado aqui do lado”, contesta outro.

Socióloga e pesquisadora da juventude na Universidade Federal do Paraná, Ana Sallas explica que é um equívoco imaginar que quem vive em lugares adversos não têm uma potência criativa. Confirmação: a dois passos da faixa policial um grupo de meninos escutava funk e empinava pipa. Não há acordo de paz na Caximba, pelo simples fato de que, é o que dizem, não precisa. A comunidade tem suas táticas – e, com boa vontade, é possível enxergá-las.

Grupos de risco

O ocorrido é um retrato do risco vivido pelos grupos juvenis. O Atlas da Violência de 2018, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostra que, em 2016, a taxa de homicídio de jovens entre 15 e 29 anos, no Brasil, chegou aos 65,5 mortos por 100 mil habitantes.

Estes números estão inseridos em um perfil histórico de vitimização. De 2006 a 2016, o número de homicídios de jovens aumentou 23%. Já em 2008 atingiu-se um pico histórico: matou-se 257,8% mais jovens que adultos (Índice de Vitimização Juvenil). Dados do Ministério da Justiça mostram que esta mesma população também encabeça a lista de agressores. Em 2005, jovens entre 18 e 24 anos compunham 38,6% das ocorrências de homicídio doloso e 37,9% das vítimas do mesmo crime. Nas engrenagens da violência, a fera e o ferido se confundem.

O Paraná contribui para engrossar os números. Enquanto Florianópolis reduziu 42,9% do número de homicídios por arma de fogo entre 2004 e 2014, Curitiba aumentou 9%. Entre 2003 e 2011, a capital paranaense só não teve a maior taxa de homicídios entre as capitais da região sul no ano de 2007. O pico foi em 2008 (56,5 homicídios por 100 mil habitantes), quando a taxa de São Paulo (14,8), capital brasileira com o menor índice, já era considerada epidêmica.

Para o morador da “29 de Outubro”, Tiago dos Santos, 21 anos, a fragilidade à violência acontece de forma velada. “O jovem da favela considera entrar para o crime. É algo que dá dinheiro, poder. Na Caximba não é diferente”. A ocupação convive com a violência de forma silenciosa. Um ou outro “ponto quente” não gera problema. “O problema é que a violência incide no preconceito e no controle dos espaços e oportunidades”, conclui Tiago.

Em atividade da oficina de educomunicação, moradoras produzem vídeo para falar do problema da lama na comunidade.

Lazer é um direito

“Quem aqui sabia que lazer é um direito garantido na constituição?”, perguntava um moderador da oficina de educomunicação desenvolvido com adolescentes. Apenas três participantes levantaram a mão. Também não se sabia que “ir e vir” é um direito. “Pô, então por que é que temos que pagar a passagem?”, questiona Mateus Silva, 17 anos. Outra novidade foi saber que existem cotas para alunos de escola pública ingressarem na universidade. A oficina foi facilitada pelo Núcleo de Comunicação e Educação Popular da Universidade Federal do Paraná e pelo Ministério Público do Paraná.

Legenda: adolescentes escrevem o que podem fazer pela Caximba. As oficinas aconteceram durante o ano de 2018, ministradas pelo Núcleo de Comunicação e Educação Popular e pelo Ministério Público do Paraná.

Na mesma roda de conversa, ao ser perguntado sobre os espaços de lazer que usa na Caximba, um participante faz uma arma com as mãos enquanto brinca: “Tem um campinho, mas né”, diz, para explicar como pode ser difícil jogar uma simples pelada. Já os irmãos Anderson e Wallisson Odara reclamam de como os jovens de lá são vistos. “Parece que é um crime ser da Caximba. Só estamos aqui por conta do aluguel, mas vivemos bem”, protestam.

“Quem não gosta de futebol não tem o que fazer aqui na Caximba. O lugar de diversão mais próximo é um shopping, que fica a pelo menos 1h20 de ônibus”, constata Emanuelly de Oliveira. Somente duas linhas de transporte coletivo chegam na ocupação: “Vila Juliana” e “Caximba/Olaria”, ambas de 40 em 40 minutos, com conexão no Terminal do Pinheirinho, o mais concorrido da capital paranaense.

Ir e vir

Para a pesquisadora Ana Sallas, a diferença de acesso a equipamentos urbanos é o começo do problema. O ônibus, as distâncias, os serviços públicos em geral, quando fora do horizonte, acabam por afetar o dia a dia da juventude da periferia. O antropólogo e também pesquisador de juventudes, José Magnani, da USP, faz coro com Sallas e radicaliza: “Os jovens constroem circuitos juvenis que necessariamente extrapolam a comunidade em que vivem. Em outros bairros haverá oportunidades de lazer, trabalho, estudo. Se ele não tem acesso a estes lugares, não vive a plenitude da juventude”.

Foto: Andre Donadio

A aluna da primeira série do ensino médio, Rozeli Lima, conta que parou de estudar por um ano devido ao alto custo da passagem. O colégio mais próximo da casa dela não tinha mais vaga. Marlon Furtuoso reclama que, para conseguir emprego, não pode dizer que mora na Caximba, para não correr o risco de o empregador desistir do funcionário, dada a distância da empresa. Ou pelo menos é o que lhe dizem. O consenso é que, de tudo, o pior é ter que trocar o tênis na hora da aula para não ficar cheio de barro. “O problema é que os alunos que não são da Caximba, tiram sarro, fica chato”, conta Tiago.

Durante a noite, não há iluminação pública em parte da vila. Alguns jovens usam a lanterna do celular para chegar em casa e dormir cedo, a contragosto. Quem trabalha no centro deve acordar 5 da manhã para pegar o ônibus. No total, ao menos 3 horas são necessárias para ir e vir. “Alguns ainda retornam e vão direto para a aula, cansados. Os professores têm que levar isso em consideração”, explica a diretora Sônia.

Criatividade

Quando a formalidade não chega, a criatividade resolve. Em 500 passos da entrada da comunidade, encontram-se: uma mercearia, três bares, três distribuidoras de bebidas, dois salões de cabeleireiro, uma padaria, duas igrejas, um aviário e uma mecânica. Isso além de dois impressionantes “pesque e pague” e uma sorveteria que também vende carne assada aos domingos.

“Se engana quem pensa que o jovem quer crescer e morrer onde está. Morar na periferia nem sempre determina o que vai fazer da vida”, explica o pesquisador Magnani. “Aqui a gente se resolve”, explica João Marcos, morador da vila Abraão, 22 anos. “Antes eu não fazia ideia de como subir no poste de luz para arrumar a energia elétrica. Reunimos a piazada e fomos nos ajudando”.

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