Onde a ditadura enterrou os mortos do massacre do Parque do Iguaçu? | Plural
5 jul 2019 - 6h00

Onde a ditadura enterrou os mortos do massacre do Parque do Iguaçu?

Aluizio Palmar fala sobre décadas de pesquisa e sobre seu livro que trata do assunto

Aluizio Palmar tem uma missão. Há décadas, tenta encontrar os corpos de seis homens assassinados a sangue frio pela ditadura militar brasileira. Eram seus amigos, companheiros de luta. Gente que havia desistido de pegar em armas contra o regime e se refugiado na Argentina, até ser atraída para a emboscada final.

O Massacre do Parque Nacional do Iguaçu, ocorrido há mais de quatro décadas, só foi sendo esclarecido aos poucos. Soube-se então que o Centro de Informações do Exército havia mandado militares disfarçados a Buenos Aires para encontrar os ex-guerrilheiros e convencê-los a voltara à ativa – para supostamente formar um foco de combate no sudoeste paranaense.

Cinco homens foram mortos na emboscada. O sexto foi caçado e morto dias depois. Aluizio, que tinha achado algo estranho na proposta e declinado do convite de voltar ao Brasil, começava a sua busca. Hoje, ele ainda tem esperanças de encontrar os corpos. Enquanto isso não acontece, registra o resultado de 26 anos de pesquisa em seu novo livro, Onde Foi que Vocês Enterraram Nossos Mortos.

Você escapou por pouco do massacre. A tua busca pelos restos mortais tem um pouco de sentimento de pertencimento àquele grupo?

Pode ser. Até o momento em que decidimos desmobilizar a organização, em julho de 1973, todos nós éramos membros/combatentes da Vanguarda Popular Revolucionária. O compromisso de quase todos nós exilados era voltar à luta e a condição ideal era ter uma base no campo.

Nós, membros das organizações armadas, estávamos mergulhados na onda guevarista de combater as ditaduras latino-americanas formando colunas guerrilheiras.

Porém, quando eu me deparei, no início de 1974, em Buenos Aires, com Onofre Pinto e o Alberi Vieira dos Santos me abordou convidando para ingressar no esquema dele, que teria amplas bases camponesas de apoio e condições operacionais, eu e a maioria dos membros das organizações que optaram pela luta armada, já havíamos decididos recuar e organizar a oposição à ditadura a partir do trabalho de massas, organizando pela base. Além disso, qualquer ação armada naquele momento iria fortalecer a chamada linha dura e os órgãos da repressão.

Esse posicionamento, foi o principal motivo de minha opção para não embarcar na proposta de Alberi. Meu remorso é de não ter procurado os velhos companheiros da organização e tê-los convencido e alertado de que a proposta de Alberi era uma canoa furada. Eu conhecia muito bem o sudoeste do Paraná e sabia que na região não havia as condições que ele propagandeava. Nessa ocasião, eu não desconfiava que Alberi fosse um agente infiltrado a serviço do Centro de Inteligência do Exército. Eu apenas considerei liberal e irresponsável a proposta dele.

Talvez, esse sentimento por eu ter caído fora, em vez de ter ficado mais um ou dois dias em Buenos Aires e procurado convencer os companheiros a desistir daquele retorno, seja o motivo mais forte de minha busca. Além dos motivos políticos, confesso, que quando o Alberi me abordou no meio da avenida, bateu em mim aquele friozinho na espinha. Realmente eu tive medo. Eu tinha consciência que manter aquele contato, e buscar os companheiros para adverti-los do perigo iminente, colocaria em situação de risco as pessoas que estavam sob minha responsabilidade. Vivíamos todos, em débeis condições de segurança. Havia forte possibilidade de eu ser seguido e no rastreio caírem as bases que nós sempre mantivemos blindadas.

Então, a minha escolha foi despistar e voltar ao meu “santuário”. 

Em 26 anos de pesquisa, em algum momento você acha que chegou perto de descobrir o paradeiro dos corpos?

Eu acreditei piamente que nós estávamos próximos, quando um tal de “militar arrependido” passou pra nós um croqui, desenhado de próprio punho e na presença de testemunhas, dando a informação de que os corpos foram enterrados numa cova comum em Nova Aurora.

A forma como o “militar arrependido” nos abordou e a coerência das informações que ele passou, me convenceu que o local em que os companheiros foram enterrados seria mesmo a antiga pista de pouso da cidade de Nova Aurora.

Fiquei extremamente frustrado quando após dois dias de escavações não encontramos nenhuma pista.

Mais tarde, eu localizei o motorista do Exército que conduziu, junto com Alberi, os seis membros da resistência à ditadura até a cilada no Parque Nacional do Iguaçu.

Infelizmente, esse sujeito se negou a falar comigo e acabou passando muitas informações contraditórias, permeadas de mentiras. Parecia que ele recebia instruções para nos desnortear. Mesmo assim, a gente se atracou com essa pista, a única que tínhamos naquele momento.

Após três expedições até o local que a testemunha indicou e diversas escavações, as equipes de peritos deram por encerradas as buscas.      

Existe hoje algum esforço sendo feito para resolver esse enigma? O que poderia ser feito?

Olha, tanto eu como os familiares dos desaparecidos acreditamos que, apesar de terem se passado 45 anos, é possível chegar ao local exato em o grupo foi enterrado.

Lamentavelmente perdemos boas possibilidades. Tanto o motorista do Exército que indicou o local no Parque Nacional do Iguaçu como o coronel Paulo Malhães poderiam ter sido melhor interrogados. As falhas nesse processo foram imensas e a gente perdeu oportunidades de obter informações mais precisas.  

Você ainda acredita que os corpos serão encontrados? O livro tem essa expectativa?

Eu nunca deixei de ter essa expectativa. Esse caso do desaparecimento de seis militantes da resistência a ditadura era um caso enigmático até 2004. Os nomes de Onofre, Daniel, Joel, Lavéchia. Victor e Ruggia constavam nas diversas listas de desaparecidos políticos, mas as circunstâncias dos desaparecimentos eram desconhecidas até eu divulgar as primeiras descobertas.

Pra você ter uma idéia dos desencontros de informações, eu tive um trabalho imenso para tirar o nome de Alberi Vieira dos Santos da lista de vítimas da ditadura. Bati às portas de vários grupos Tortura Nunca Mais e de direitos humanos e as pessoas ficavam horrorizadas ao saber que Alberi era agente do Centro de Informações do Exército. Eu também fiquei abismado quando descobri que o mítico líder da Operação Três Passos havia passado pro outro lado. Aliás, essa descoberta só foi possível graças às minhas pesquisas nos arquivos da ditadura e conversas com os parentes do Alberi. Até então, eu o considerava um companheiro. Longe de mim imaginar que a pessoa que me abordou em Buenos Aires, no ano de 1974, e me convidou para uma ação guerrilheira no sudoeste do Paraná, seria o cabo Anselmo do Sul.     

O atual presidente já chegou a dizer , em relação ao Araguaia, que “quem busca osso é cachorro”. Qual sua visão sobre a eleição de Bolsonaro em relação a este tema?

Bolsonaro expõe de forma tosca o pensamento de muitos membros das Forças Armadas. A maioria da oficialidade continua contaminada pelos fundamentos da Doutrina de Segurança Nacional.

Entre outros motivos, essa revoada da direita e a eleição de um Bolsonaro para a presidência, é conseqüência de um passado não resolvido. O grande problema da redemocratização de 1985  foi não termos tido força, ou vontade política ou ambos, de colocar os responsáveis por graves violações aos direitos humanos no período da ditadura no banco dos réus.  

Qual a tua expectativa com o livro?

Esse livro surgiu, assim de repente. Eu estava em Capanema, encerrando as minhas pesquisas de campo na região sudoeste do Paraná e sentei para escrever um relatório dirigido à Comissão Sobre os Mortos e Desaparecidos Políticos, órgão governamental justaposto ao Ministério dos Direitos Humanos.

Então, lá pelas tantas dei uma temperada no texto, bateu em mim uma espécie de catarse e contei passagens de minha trajetória política. Falei de coisas que durante anos guardei em silêncio. Ao juntar isso, com o relato de minhas buscas e mais as lutas sociais no Paraná, acabei escrevendo um livro.      

Você mantém o Documentos Revelados praticamente sem ajuda. O que te leva a fazer isso?

Olha, eu já estou velho. Faltam-me pernas para uma militância ativa que eu gostaria de ter. Então, eu vou permeando as atividade do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular, com algumas palestras aqui e acolá e à noite vou pro computador atualizar o site Documentos Revelados e atender os leitores.

Todos os dias recebo emails e mensagens pelo WhattsApp, de estudantes da graduação, mestrado e doutorado pedindo informações e até mesmo entrevistas.

Tudo isso para mim é extremamente gratificante. Faz-me sentir útil.

Como são feitas as tuas pesquisas históricas?

Eu comecei com as pesquisas presenciais. Garimpei os arquivos Brasil afora. Eu tinha uma credencial da Comissão Sobre os Mortos e Desaparecidos Políticos e isso me ajudou muito. Atualmente, recebo contribuições de ex-presos políticos e de pesquisadores da Academia.     

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