História do assassino Ted Bundy fascina porque revela o mal oculto em todo ser humano | Jornal Plural
31 ago 2020 - 9h00

História do assassino Ted Bundy fascina porque revela o mal oculto em todo ser humano

A experiência de ler “Ted Bundy: um estranho ao meu lado”, escrito pela amiga do serial killer, Ann Rule, e publicado no Brasil pela DarkSide

Eu nunca havia lido nada que retratasse um crime, bem sei quantas vezes fechei um livro da Agatha Christie para nunca mais abri-lo de volta; menos ainda um crime real.

Embora tenha um apreço escancarado por não ficção, a leitura de quaisquer coisas que envolvessem corpos mutilados, e violência contra outros seres humanos, não me parecia a melhor das leituras.

Talvez por isso tenha ficado tão surpresa quando me peguei de pé, por vários minutos, com “Ted Bundy: um estranho ao meu lado” apoiado na estante de madeira da Livrarias Curitiba (claro, isso tudo em um período pré-coronavírus).

Foi só quando o rapaz que – presumo – seja o gerente da loja, começou a se movimentar de forma incômoda na minha visão periférica, que percebi estar monopolizando a única cópia da loja. Uma edição de capa dura da DarkSide, publicada no ano passado e escrita por Ann Rule – a “rainha do true crime”.

Quando dei por mim, já havia lido as primeiras 30 páginas do livro – uma espécie de introdução que a autora acrescentou em 2008. A primeira edição da obra foi lançada há 21 anos, e desde então Rule fez diversos acréscimos ao livro.

Serial killer

Conhecia parte da história de Theodore Robert Bundy por causa da minissérie documental da Netflix, “Conversando com um serial killer, Ted Bundy”. Existe ainda um filme de ficção de 2019, também disponível na Netflix, “Ted Bundy: a irresistível face do mal”, com Zac Efron no papel do assassino (é uma imagem de Efron que ilustra o alto desta página).

Bundy foi um assassino em série responsável pelo rapto, estupro e assassinato de inúmeras mulheres ao longo dos anos 1970. Executado em 1989, Bundy confessou pelo menos 30 assassinatos, mas o número exato de vítimas continua um mistério.

Para além do fascínio que Bundy parece proporcionar, e da capa cheia de referências a uma ficha criminal, foi a sinceridade de Rule que me fisgou: a autora era amiga pessoal de Bundy. Sua escrita é carregada não apenas da habilidade técnica para narrar crimes pela perspectiva de quem havia trabalhado como policial, mas também da vivência de quem estava aberta para rever e crescer com cada nova experiência. “Ted Bundy ainda me assombra”, escreve a autora que morreu em 2015.

Ted Bundy também me assombra. Não pela violência brutal de seus crimes – descritos por Ann com uma sutileza magistral, que guia a imaginação do leitor sem apelar para escatologias desnecessárias –, mas pela forma como boa parte das pessoas parece olhar o assassino que, se vivo, teria mais de 60 anos.

Homem comum

Mesmo com toda a violência, é sempre a aparência de Bundy que mais choca: um homem descrito como bonito, capaz de violências que não condizem com a ideia social de que apenas “monstros” podem realizar atrocidades.

Mas é justamente isso que fica claro ao longo das quase 600 páginas narradas por Rule. Entre cartas e telefonemas trocados entre os amigos, as fugas e as conversas que tiveram, Bundy não era mais do que um homem como outro qualquer, e se valia disso para cometer seus crimes.

“Eu não tinha nenhum conhecimento além das poucas insinuações que lera nos jornais. Naquele momento, parecia que nenhuma das acusações era possível”, confessa Rule ao narrar uma das primeiras conversas que teve com o assassino, ainda no início das investigações que o apontavam como suspeito de diversos crimes.

O assombro, descrito na introdução do livro, tem origem na certeza de que Bundy jamais faria com Rule aquilo que fez com boa parte de suas vítimas. Mas isso não significava que ele era inocente.

O fascínio da história de Bundy talvez seja a comprovação, em alguma medida, daquilo que evitamos considerar: todos somos capazes de fazer o mal.

Monstros não são identificáveis, no sentido de facilmente percebíveis no convívio social, porque eles não existem. Existem seres humanos, cheios de nuances e camadas, que são capazes de atos monstruosos.

Livro

“Ted Bundy: um estranho ao meu lado”, de Ann Rule. DarkSide, 592 páginas, R$ 69,90.

Capa do livro publicado pela DarkSide. (Reprodução)
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