Netflix e Scorsese: um casamento ítalo-americano | Plural
13 dez 2019 - 0h54

Netflix e Scorsese: um casamento ítalo-americano

Crítico do sistema de streaming, diretor não conseguiu dizer um “não” quando a empresa lhe deu um cheque em branco para filmar O Irlandês

PARTE #1 – O Casamento

Em 2017, após assinar o contrato com a Netflix, Martin Scorsese não escondia a felicidade de poder concretizar um projeto desejado há mais de 10 anos, mas também sentia o início de uma angústia inédita na vida. Scorsese faria um filme para ser visto (não exibido) quase que exclusivamente em streaming, ou seja, em tela pequena (e portátil) para os clientes (público) de uma empresa, a Netflix. Era o preço a pagar para tirar O Irlandês (The Irishman – 2019) do papel.

Crítico contumaz do sistema de streaming, que arregimenta cada vez mais público para assistir filmes no ambiente doméstico em seus aparelhos portáteis e diminutos, Scorsese não conseguiu dizer um “não” quando a Netflix ofereceu para produzir O Irlandês dando-lhe um cheque em branco para isso.

Tendo uma longeva carreira no cinema que dispensa apresentações, Scorsese é um profundo estudioso da história e do fazer cinematográfico. Provavelmente o cineasta mais preparado nesse quesito. Em 2007, criou a World Cinema Foundation;organização sem fins lucrativos que objetiva o estudo, a recuperação e conservação de filmes de várias partes do mundo.

Como um verdadeiro artista, Scorsese se ressente com a tecnologia, que ao mesmo tempo possibilita realizar seus filmes da maneira mais sofisticada que deseja, e faz com que os mesmos sejam vistos em ambientes e suportes que não valorizam o seu trabalho como uma obra visual única. É apenas conteúdo para justificar a existência de um aparelho. A tecnologia dá ao indivíduo e retira do coletivo. Não há mais retorno.

A experiência fílmica numa sala escura, se deixando levar pelo som e fúria das emoções, já é um conceito restrito ao século XX. Sua angústia é justificada.

Inquietação de artista por um lado, felicidade de CEO do outro.

Com O Irlandês no streaming e em algumas salas de cinema americanas (imprescindível para poder ser elegível para Oscar) e pelo mundo, a Netflix toma a dianteira mais uma vez, indicando seus próximos passos: fincar sua bandeira na indústria cinematográfica tradicional com seu modelo de negócios que se concentra em sua interface, e não nos cinemas. 

O filme de Scorsese é o mais caro de sua carreira e o maior investimento da Netflix até o momento, girando em torno de 175 milhões de dólares.

Pela primeira vez em sua carreira, Scorcese não precisou se preocupar com o retorno financeiro de seu filme, um grande alívio para um realizador que mesmo tendo o status que tem, possui inúmeros insucessos comerciais. O mundo adora Martin Scorsese.

A Netflix conquista clientes pelo mundo diariamente (178 milhões de assinantes nesse momento), que podem ver seu conteúdo em qualquer hora e lugar.

Um patrimônio cultural americano como Scorsese só aumenta o valor da empresa no mercado e chancela os novos passos: a criação de um estúdio tão grande quanto os centenários Warners, Columbia, Universal e Paramount. A Paramount já se adiantou e fechou acordo com a Netflix para a produção de conteúdo em suas instalações.

Será uma festa com um público cativo na casa da centena de milhões.

Vale lembrar que Roma, de Alfonso Cuarón, uma produção 100% Netflix, ganhou três Oscar em 2019: filme estrangeiro, diretor e fotografia.

Um novo capítulo da indústria do cinema americano se inicia com o lançamento de O Irlandês.

PARTE #2 – O filme, fruto da relação

Martin Scorsese tem uma carreira cinematográfica com alguns altos e muitos baixos. Com seus filmes transitamos pela marginalidade, pela religião, pela fantasia (quem diria). Sem o musical, o documental, o filme comercial, o suspense, o show…

Entretanto a “assinatura Scorsese”, o que o mundo reconhece como sendo obra “com a cara dele”, está presente em pouquíssimos filmes: Caminhos Perigosos (1973), Touro Indomável (1980), Taxi Driver (1976), Os Bons Companheiros (1990), Casino (1995), Os Infiltrados (2006) e agora com O Irlandês (2019): a brutalidade como prazer, psicopatias, sociopatias, o machismo italiano, a corrupção como lei e por aí vai.

Os outros filmes poderiam ser feitos por qualquer outro cineasta, com variados temas e estéticas. Não cito aqui os documentários, que mal conhecemos.  

O Irlandês já está sendo chamado de “obra-prima”, sem contar todos os adjetivos e superlativos positivos utilizados em qualquer comentário, matéria, análise que temos a disposição para ler dos grandes jornais pela web, até os mais obscuros sites sobre filmes.

Deixo aqui perguntas para serem respondidas por vocês, leitores, a fim de analisarem melhor esse filme, bem como qualquer outro. Afinal, em última instância…é um produto:

 O filme realmente é bom? Impacta? Contando com  tecnologia ou sem.

– Baseado em que pode-se dizer que ele é uma obra-prima?

 Robert De Niro é o ator certo para o papel? Sua repetição de caras e bocas nesses últimos anos não cansa a ninguém?

– Joe Pesci não poderia ter uma participação maior? Vocês não acham que ele é o único que convence e impacta?

– Al Pacino ou De Niro, quem possuí mais recursos dramáticos?

– Começar e terminar o filme com personagem principal em cadeira de rodas, sozinho numa casa de repouso, velho, não é moralista? Já que se trata de uma obra adaptada, não poderia ser menos novelesco?

– A utilização desse recurso anacrônico para apresentar o passado não é batido?

– E o padre de um lado, uma santa do outro nos primeiros segundos de filme? Sem contar outras “aparições”. Seus pecados serão perdoados?

 O excesso de elogios não seria uma forma (também) de proteger um ícone da cultura americana diante da banalidade tecnológica?

– Os principais personagens, Scorsese, Pacino, Pesci e De Niro, são todos ítalo-americanos. Mais uma vez uma reverência à contribuição dos italianos no desenvolvimento dos Estados Unidos? Poderia citar mais uma dezenas de questões…

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