Começou em Curitiba a maior exposição de OSGEMEOS - Jornal Plural
18 set 2021 - 11h04

Começou a maior exposição da carreira de OSGEMEOS – e a gente explica um pouco do que está rolando no MON, em Curitiba

A exposição causou alvoroço e debates antes mesmo de sua abertura ao público. Agora chegou a hora de conferir o trabalho completo

A arte de OSGEMEOS é inegavelmente potente, até na hora de causar polêmica. Marcada pelo ar de fantasia e colorido intenso, a produção de Gustavo e Otávio Pandolfo envolve muito mais que o grafitti — registro o qual os consagrou diante dos olhos do mundo. Entre as obras estão os murais e também pinturas em tela, esculturas estáticas e cinéticas, e instalações. O universo particular dos irmãos, que extravasa a cada nova experimentação, é algo entre o sonho e a realidade, mas com a pegada forte da arte contemporânea. É fácil reconhecer ali o espírito das ruas, do urbano com seus personagens e suas questões sociais, o que não impede que a magia aconteça no encontro com o público. Esse encontro já tem data marcada em Curitiba: a partir de hoje (18) a mostra OSGEMEOS: SEGREDOS entra em cartaz no Museu Oscar Niemeyer (MON) para temporada até abril de 2022.

A maior exposição da dupla desembarcou em Curitiba com o mesmo acervo exposto em São Paulo, cerca de 850 itens, a exceção é a obra Fermata que não poderá ser vista pelo público por aqui — uma pena. Em contrapartida, a exibição no MON ganhou obras inéditas. “O que substituiu essa escultura foi a nova instalação feita especialmente para o museu, e a gente ficou muito feliz com ela”, afirma Gustavo. O outro item é um mural criado em homenagem ao hip-hop paranaense. “Poucas pessoas sabem, mas a parte onde estão os ‘Cones’ no MON era o point dos b-boys e b-girls de Curitiba, onde os ‘caras’ do hip-hop e as ‘minas’ se encontravam para dançar”, disse o artista. 

“Parece que o ‘Olho’ é a nossa cabeça” 

Até quem foi à Pinacoteca para conferir de perto o que os artistas guardavam em seus baús ao longo da carreira e da vida, deve se encantar com os “segredos” reservados ao MON. A dinâmica da circulação na exposição é outra. Na “Torre”, o visitante confere a cronologia da história dos dois desde os anos 1970 em uma disposição bem didática. Das influências do hip-hop à busca de um estilo próprio, ao subir se avança no tempo andar por andar. Depois, ao entrar no “Olho”, é como imergir no mundo de OSGEMEOS. 

A experiência é diferente da concebida em São Paulo, como explica Otávio: “Parece que o ‘Olho’ é a nossa cabeça hoje. Porque na ‘Pina’, estava dividida em salas, então você entrava num universo, mergulhava num outro, mergulhava num outro. Aqui está tudo junto e a nossa cabeça funciona assim. Você vê um trabalho em que a temática é uma ferrovia e do outro lado a temática é nosso universo, o que a gente acredita, um [trabalho] de frente pro outro. Aqui a exposição está muito o que é o nosso pensamento.” 

Gramofone, obra de 2016 que faz parte da coleção pessoal dos artistas. Foto: Rafaela Moura

O que estava guardado nos baús de OSGEMEOS

Um olhar cuidadoso e a escuta atenta foram a chave para revelar todos os segredos da dupla. O curador da mostra, Jochen Volz, diretor-geral da Pinacoteca de São Paulo, conta que a ideia surgiu há quatro anos, em uma conversa entre a equipe do museu e os artistas. O desejo era mostrar a história dos irmãos que fazem parte do imaginário coletivo, com suas figuras que aparecem e desaparecem nas ruas, porque poucos sabem a trajetória e conhecem a produção deles no ateliê. “A gente fez várias visitas, muitas visitas, e a cada vez eles abriram mais um baú, mais um segredo, mais uma história”, comenta Jochen. O curador atribui à generosidade de Gustavo e Otávio o resultado alcançado: a maior retrospectiva da dupla, com obras de arte e também referências, lembranças afetivas, objetos pessoais, símbolos da influência do hip-hop e experimentações. Os cadernos de desenho, por exemplo, estão sendo exibidos para o público pela primeira vez.

Na visão dos artistas, a curadoria foi incrível. Gustavo afirma que Jochen entendeu a importância de cada item e as relações existentes no acervo, como a de uma peça de 84 que conversa com uma de 2010, bem como o valor de incluir na exposição o trabalho de bordado de uma pessoa sem a qual seria impossível tecer essa história — a mãe dos dois. Ele diz o que aconteceu ao abrirem seus baús para o curador: “Descobrimos coisas de que nem lembrávamos. Começamos a pesquisar os acervos da família e amigos, que tinham trabalhos da gente de criança, e resgatamos coisas que achávamos que não existiam mais.” Observar e organizar cronologicamente os itens foi o que permitiu o entendimento da linha da criatividade. Otávio complementa, “às vezes, a gente fica tão dentro de nós mesmos no ateliê, dentro desse processo criativo e, depois da conversa com o Jochen, a gente sentiu que devia revelar esse segredo: como funciona o nosso processo criativo.” 

Bilhete para mãe e estudos feitos pelos irmãos. Foto: Rafaela Moura  

É preciso se deixar encantar

Segredos traz ao público muitos e diferentes encantos. Como era de se esperar, a marca registrada da obra dos irmãos, os homenzinhos amarelos chamados Tritrez estão lá do início ao fim, como que guiando os visitantes pela mostra. Entre as pinturas, instalações e esculturas de cores vibrantes, muitas inspiradas no mundo da música, ainda é possível conferir a parceria com outro grande nome da street art. Sim, ao visitar Segredos dá para ver algo do trabalho do misterioso grafiteiro inglês, Banksy.

Das roupas estampadas pelos dois na adolescência ao boneco inflável gigante, que precisou se sentar devido à altura do “Olho” não ser suficiente para os seus 17 metros, sem deixar de lado as peças que podem surpreender o visitante com movimentos inusitados, a ideia é oportunizar um momento de fuga da realidade, um encontro com o imaginário lúdico que transporta o indivíduo para longe das coisas negativas, conforme a dupla explica. É preciso certa entrega para o visitante ter uma experiência realmente positiva, segundo afirma Gustavo: “Depende muito de se permitir, porque às vezes você se bloqueia. Mas se você se permite, dá para descobrir vários segredos dentro de si mesmo.” 

Homenagem ao hip-hop paranaense criada por OSGEMEOS no MON. Foto: Rafaela Moura 

As controvérsias ao redor de Segredos – OSGEMEOS em Curitiba

As camadas de tinta aplicadas por OSGEMEOS em uma intervenção na fachada do MON, feita a convite da direção do museu para funcionar como parte da divulgação da exposição, acabaram dando forma a algumas polêmicas. 

A primeira mostra como ainda existe preconceito com o graffiti. O gatilho foi a discussão em grupos nas redes sociais com opiniões fervorosas condenando a pintura, até que o próprio bisneto do arquiteto que dá nome ao museu, Paulo Sérgio Niemeyer, declarou estar triste e revoltado com o que os dois fizeram no edifício assinado por seu bisavô. Ele classificou a intervenção como pichação e o fato virou notícia no país inteiro rapidamente. 

Em nota oficial, o museu afirmou que a obra foi autorizada pela Coordenadoria do Patrimônio Cultural da Secretaria da Comunicação Social e da Cultura do Paraná — SECC (administradora do patrimônio tombado no estado), que tem caráter temporário e não afeta as características do projeto arquitetônico do local. Além disso, ressaltou que intervenções similares acontecem no mundo inteiro e citou como exemplo as feitas pela mesma dupla na Tate Modern de Londres e no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), onde a pintura foi incorporada ao acervo e tornou-se um mural permanente. O edifício do MAN também está em um conjunto arquitetônico projetado por Oscar Niemeyer.

Mas não parou por aí. Uma segunda controvérsia sugeriu que o MON deveria dar espaço para os nomes da street art local ao invés dos paulistanos Gustavo e Otávio. Na coletiva de imprensa de lançamento da Segredos, Juliana Vosnika, diretora-presidente do museu, afirmou que “o MON se dedica a artistas consagrados”, mas que estão desenvolvendo um projeto com OSGEMEOS para, durante o período da exposição retratar um pouco mais dos talentos da cena local. 

Apesar de não explicarem detalhes da iniciativa, os dois falaram sobre a importância da ação e do respeito que nutrem pela cena da arte de rua curitibana. Desde sua primeira vinda à capital do Paraná, em 1996, eles mantêm contato com os artistas daqui e consideram muito forte o graffiti de Curitiba — mesmo com a multa pesada vigente na cidade para quem é flagrado grafitando, entre R$5 e R$10 mil. A punição não deveria existir, segundo OSGEMEOS. Além de citarem os trabalhos do Cimples e do Devis, Otávio comentou a parceria com um dos grandes nomes locais, Rimon Guimarães: “a gente trabalhou com ele na Bielorússia duas vezes, nos conhecemos em num projeto chamado ‘Vulica Brasil’, no qual ele também foi convidado para trabalhar.”  

Intervenção de OSGEMEOS na fachada do Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. Foto: Vivian Faria

OSGEMEOS que ganharam o mundo 

O trabalho de Gustavo e Otávio Pandolfo (São Paulo, 1974) é conhecido e reconhecido para além das fronteiras do Brasil. Fora os murais espalhados por 60 países, suas criações já puderam ser vistas no Hamburger Bahnhof, em Berlim; na Vancouver Biennale, no Canadá; no MOCA – Museum of Contemporary Art, em Los Angeles; no MOT – Museum of Contemporary Art Tokyo, em Tóquio; na Tate Modern, em Londres; na Triennale de Milão; e nos telões da Times Square, em Nova York; entre outros.

Os artistas Gustavo e Otávio Pandolfo. Foto: Rafaela Moura

Serviço

Exposição “OSGEMEOS: Segredos”

Data: 18 de setembro de 2021 a 3 abril de 2022 (terça a domingo) 

Horários: das 10h às 18h, com último acesso às 17h.

Onde: Museu Oscar Niemeyer — MON, Curitiba, Paraná. Rua Marechal Hermes, 999.

Mais informações e Ingressos à venda no site do museu: https://museuoscarniemeyer.byinti.com/#/event/exposição-osgemeos

Preços: R$ 20,00 inteira e R$ 10,00 meia-entrada. 

Entrada gratuita: menores de 12 anos, maiores de 60 anos, jornalistas, taxistas credenciados à URBS, membros da Associação Profissional dos Artistas Plásticos do Paraná (APAP), membros do International Council of Museums (ICOM), sempre mediante apresentação de documento comprovatório.

A entrada ao museu é gratuita todas as quartas-feiras. Para visitação à exposição OSGEMEOS: Segredos nas quartas-feiras é necessário agendamento no site.

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