A saga da Barbante | Plural
1 ago 2019 - 22h44

A saga da Barbante

Livraria e editora aberta por casal de jornalistas sobrevive nadando contra a maré

Em 2016, um casal de jornalistas decidiu editar livros. Alessandro Andreola e Paula Marques queriam fazer as coisas lentamente. Três anos depois, seguem no ritmo nada industrial com que se comprometeram. Mas, a passos vagarosos, foram construindo um projeto que vem chamando a atenção.

Hoje, além de editora, a Barbante é também uma pequena livraria – segundo seus donos, a única livraria de rua da cidade a ficar aberta à noite. E, aos poucos, os títulos vão se acumulando. Na entrevista abaixo, Andreola conta um pouco mais sobre a história do projeto.

Abrir uma editora/livraria neste cenário econômico parece coisa de masoquista. Ninguém tentou impedir vocês?

Pelo contrário! Nós acreditamos que existe um nicho pouco explorado em Curitiba, que é o das publicações independentes. Tem muita coisa boa sendo publicada no Brasil, mas que por várias razões, que vão desde os custos de frete até a burocracia para colocar seu material nas grandes livrarias, simplesmente não chegava aqui. Muitos desses livros são feitos por operações minúsculas, de poucas pessoas, com tiragens baixas, e às vezes é muito difícil para essas editoras ou autores divulgar seus trabalhos fora de suas praças. Essa, aliás, é uma dificuldade que conhecemos bem desde 2016, quando fundamos a Editora Barbante. De lá para cá, tivemos contato com a produção dessa galera ao participar de várias feiras de publicações independentes. Montar a livraria e trazer esse material para Curitiba pareceu o passo natural da editora.

Como tem ido a coisa em termos financeiros?

Tanto editora como livraria ficam no azul, mas a gente tem outras atividades para se manter.

Como vocês escolhem quais livros publicar?

O principal critério é bem simples: são livros que gostaríamos de ler. A gente se norteia pelos títulos relacionados a música, que é, digamos, o foco principal da editora. Mas não é uma camisa de força, nós já publicamos livros de fotografia e poesia, por exemplo. O importante é a gente se apaixonar pelo projeto.

Conta um pouco da história do Aerofone.

O Aerofone é um texto de 1878 que o João Paulo Pimentel desencavou e resolveu traduzir. É uma coisa deliciosa: um editorial do New York Times que critica ferozmente uma invenção de Thomas Edison, uma espécie de trombeta para comunicações a longa distância — o tal Aerofone do título, que nunca chegou a ser produzido. O texto é extremamente sarcástico e um tanto conservador, e mantém sua atualidade justamente por causa da resistência à mudança e aos novos tempos. Nós achamos que, mesmo passados 140 anos, havia ali uma ressonância com a época em que a gente vive. Entramos em contato com New York Times para conferir a questão dos direitos — trata-se de um material de domínio público — e resolvemos transformar o texto em um pequeno livro com acabamento artesanal, com costura manual e capa feita em carimbo. É um livrinho bem bonito e divertido.

As livrarias pequenas, de rua, com livros artesanais, estão na moda. Por que você acha que existe esse romantismo com esse tipo de ambiente?

Eu não sei se usaria a palavra “romantismo”, porque vejo a coisa de um jeito mais pragmático. Acho que o livro artesanal é um objeto que demanda uma experiência tátil, e aí o espaço físico faz bastante sentido. E há também uma reação que não diz só respeito às livrarias; acho que as pessoas têm procurado mais os espaços de rua de um modo geral, o que é uma coisa positiva, deixa a cidade mais viva. Além disso, é inegável que há uma grande diferença entre comprar um livro no shopping e a experiência de visitar um espaço mais intimista, em que a curadoria dos títulos vai te mostrar um mundo além das listas de mais vendidos.

Qual é o sonho da Barbante?

Mais do que um sonho, é um plano: continuar a publicar os livros que gostamos, em um ritmo mais acelerado, se possível. E que tanto editora como livraria sigam crescendo.

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