Por curiosidade, um pouco também por interesse (tá bom, tenho muito interesse nesse assunto), estava pesquisando sobre como os algoritmos sugerem os livros para os clientes das lojas de livros virtuais (chamar de livraria seria um exagero, livraria é outra coisa). Pelo que li, é consenso que ninguém sabe muito bem como eles funcionam, existem teorias e ideias, mas uma coisa é certa. O algoritmo se baseia em seu histórico, compras, livros que clicou, busca por palavras-chave, enfim no seu comportamento dentro da loja. E claro, nos livros que mais vendem. Afinal, o que importa são as vendas.
Sempre as indicações são apresentadas apoiadas em livros que compramos ou coisas que já fizemos que fazem parte da nossa rotina. Também é bom lembrar que são livros que compramos e não em leituras que gostamos. Isso cria um ciclo de indicações que vão sempre ficar rodando sobre as mesmas coisas. É ruim? Não, mas poderia ser melhor. Bem melhor, mas não com um algoritmo. Ele tem limitações e é aqui que entra a livraria. Uma livraria de verdade. Um lugar onde você vai poder ver e manusear uma boa quantidade de livros que não tem nenhuma relação com o que você já leu. Livros que vão chamar sua atenção, por algum motivo, seja capa, título e até o tipo de encadernação. Conversar com pessoas que lerem outras coisas e podem te indicar novas leituras. Não importa qual a razão, o que importa é que as chances de uma descoberta aumentam. E isso é muito bom. Mas voltemos ao algoritmo.
Tem ainda a questão das tais palavras-chave. Quando uma editora, autor ou autora cadastra um livro em uma loja, é comum se colocar algumas palavras para “classificar” o texto e direcionar as buscas. Não existe regra, pode ser qualquer palavra, às vezes inspirada pelo história, pela biografia de quem escreveu, por alguma tendência (tipo livro de colorir, com zumbi, hot e por aí vai) ou colocar algumas palavras para tentar fazer o livro “colar” em um best-seller. A ideia é aproveitar a moda e as vendas de outros livros.
Digamos que você tem um livro que gostaria de tentar vender, mas você nunca publicou nada, é seu primeiro trabalho. Preenche todos os campos de cadastro e chega nas palavras-chave. Uma estratégia seria ver os livros mais vendidos, escolha que poderia ser A Cabeça do Santo da Socorro Acioli, não é uma novidade, mas sempre está entre os mais vendidos. Você não vê as palavras que foram usadas, mas pode tentar adivinhar quais são. Realismo mágico, santo, fantasia, amor, literatura brasileira, , prece, sobrenatural. Podem ser estas, como podem ser outras, tem que arriscar. Você pode usar estas, só o algoritmo vai vê-las, mesmo que sua história seja sobre uma trupe circense que cometeu um roubo. O perigo é seu livro ser indicado para alguém que não tem o menor interesse em palhaços gatunos e acabar odiando. Pois é, talvez esta não seja uma boa estratégia, mas é uma forma de tentar manipular o algoritmo.
Se você olhar os títulos que aparecem abaixo do livro da Socorro verá: Cem Anos de Solidão, Torto Arado, Tudo É Rio, Violeta, Água Fresca para as Flores e por aí vai. Todos de alguma forma conversam com A Cabeça do Santo. Então você pode pensar “ahá! o algoritmo funciona”. De certa forma sim, a questão é que são livros que estão na mesma estante, meio que você chegaria neles de qualquer jeito. Uma das coisas mais divertidas da leitura é pegar livros que estão na estante do outro lado da sala. Longe do alcance do seu braço.
Antes do café, lembrei de um livro esses dias. Depois de ver as acusações contra o Neil Gaiman me veio o É possível dissociar a obra do autor? da Gisèle Sapiro na cabeça. É sempre uma questão complicada e que tem muitas formas de se encarar. Podemos gostar de um livro depois que descobrirmos que a pessoa que o escreveu cometeu um crime? Não sei se existe uma resposta certa, a única certeza é que a pessoa, mesmo crie histórias incríveis, precisa responder por seus atos. O livro saiu aqui no Brasil pela editora Moinhos e tem tradução da Juçara Valentino e pode ser uma boa leitura.