Eu poderia ter colocado independentes no título, mas acho que pequenas editoras é o que melhor define. Sempre que vou falar sobre a Arte & Letra, seja a editora ou a livraria, às vezes as pessoas ficam com receio de chamar de pequena e acabam usando independente. Eu acho que “pequena” é uma ótima definição. É pequena mesmo, poucas pessoas, pouco espaço, pouco recurso, mas o impacto que as pequenas editoras têm é enorme. Elas são essenciais para termos melhores livros e uma diversidade maior para os leitores. São elas que vão nos levar por caminhos pouco usados ou desconhecidos. E não precisa procurar muito para encontrar bons exemplos.
A Lote 42 está coeditando com o Selo Demônio Negro Poemóbiles de Augusto de Campos e Julio Plaza. Duas pequenas editoras trazendo um livro importantíssimo para a poesia concreta brasileira. Do site da Lote: “Publicado originalmente em 1974, revolucionou a relação entre palavra, imagem e interatividade, transformando o virar de páginas em uma desabrochar de esculturas literárias. Cada um dos 12 cadernos revela um pop-up, ocupado com um poema que gera novos significados conforme o manuseio do leitor. O livro consiste em uma caixa com 12 desses poemas-objetos, feitos a partir de cortes, dobras e cores primárias. A edição preserva o projeto gráfico original e respeita as características conceituais que fazem do livro um marco na experimentação poética.” O livro é um desafio para qualquer editora, por sua complexidade gráfica e originalidade no formato. Estava anos fora de catálogo.

A revista Punãdo é editada pela editora Incompleta e é uma loucura. Uma revista impressa, projeto gráfico para lá de bacana e que publica apenas autoras latino-americanas e caribenhas contemporâneas. Entre contos, ensaios e entrevistas passaram pelas sete edições da Puñado 48 autoras de 23 países diferentes e 50 textos. São números impressionantes. Uma revista assim é uma oportunidade preciosa de ler e conhecer novas autoras, trabalhos diferentes e que podem (vão) impactar os leitores. Existe um motivo para as editoras grandes não terem revistas de literatura: é um trabalho dos infernos. Mesmo para uma editora com estrutura e dinheiro é um projeto complicado. Imagina para uma pequena editora onde cada publicação é uma luta de persistência e criatividade para fazer com que a ideia se transforme em páginas impressas. Tantas autoras, tradutoras, negociação de direitos, ilustradores, são detalhes que não acabam nunca e só quem gosta e acredita muito no que faz encara essa estrada.

784 páginas escritas por um escritor romeno pouco conhecido aqui no Brasil. Um projeto que soaria impossível para qualquer editora. Mas que a Mundaréu falou: manda para cá que eu faço. E hoje podemos ler em português Solenoide do Mirceu Cărtărescu com tradução do Fernando Klabin. Cărtărescu está sempre entre os favoritos para ganhar o Nobel e sua obra recebeu inúmeros prêmios pelo mundo. Sem dúvida é um escritor que deve ser lido por quem gosta de conhecer e ter contato com uma leitura diferente. Lançar um livro dessa magnitude é um risco imenso, é preciso muita coragem e confiança no seu trabalho.

Existem inúmeras pequenas editoras que se arriscam para lançar projetos que assustam até as grandes. Citei alguns, mas são muitos. E talvez a grande ousadia das pequenas editoras seja lançar o livro de um autor ou autora nacional que nunca publicou nada. Alguém inédito que está trabalhando por espaço. Não podemos esquecer que na maioria esmagadora das vezes foi uma pequena editora que descobriu e possibilitou a estreia de alguém que depois se tornaria um escritor ou escritora importante e de sucesso.
Quase sempre deixadas em segundo plano, as pequenas editoras são responsáveis por nos abastecer com novidades, seja de autores e autoras, propostas literárias ou projetos gráficos. E apesar de todos os percalços mantém uma atitude ousada diante do desafio enorme que é publicar livros no Brasil. Viva as pequenas editoras!