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Jon Fosse e o desaparecimento do sentido

Jon Fosse e o desaparecimento do sentido
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Por onde começar com Jon Fosse? Eu começaria pelo nome. Sempre ouço uma pronúncia inglesada dele, mas para nós, falantes de português, soa algo como “iôn-fóossɘ”. O escritor nasceu numa cidade pequena longe dos grandes centros noruegueses, Haugesund, foi criado em outra, também pequena, e só depois mudou-se para um grande centro, para estudar numa faculdade, que tinha quase o número de alunos que o de habitantes de sua cidade natal. Ele nasceu num meio quaker, mas nem por isso conservador (ou ultraconservador) e mais recentemente apenas, após passar uma vida toda dizendo-se ateu, converteu-se ao catolicismo. Um de seus ídolos filosóficos cristãos é Mestre Eckhart, cujo pensamento Fosse compara ao budismo.

Nos sites não especializados em literatura, o autor é comparado com Beckett ou Bolaño... Deixarei isso de lado, porque tudo isso você pode encontrar na internet. Tentarei outro modo de investigação. E discordo dessas comparações apressadas.

O autor também é conhecido por não escrever em norueguês padrão e sim numa vertente dele, o nyronsk, que em verdade seria um segundo padrão oficial da Noruega, o que dá um pouco mais de trabalho para os tradutores. Já volto a falar da importância desse registro na obra de Fosse.

Como a obra dele é imensa, tomarei dois livros lançados no Brasil para facilitar o acesso à sua escrita para leitores que ainda não o conhecem: “Trilogia” e “É a Ales”. O autor é conhecido pelas peças teatrais (em maior número do que as obras de escrita ficcional), pela sua poesia e por livros de ficção variada (romances, novelas e contos).

Há muitos modos de abordar a obra de Fosse. Na pequenez desse espaço, eu quero citar dois: a) o rompimento do tempo; b) o rompimento da linguagem. Comecemos pelo primeiro: a noção temporal.

Numa aula do mestrado, de apresentação de trabalho, mais de vinte anos atrás, eu fui sorteado com “tempo”, tempo no romance. Como vinha da área de Exatas, quis explicar a noção de tempo segundo a matemática. Até os gráficos cartesianos, a coisa fluiu bem, mas depois, quando sugeri pensarmos num eixo “invisível”, que “saísse do quadro negro”, a coisa desandou. Mas virou uma catástrofe quando tentei explicar a noção de tempo “relativo”. Tentei vários exemplos – e todos foram terríveis para uma audiência que queria ouvir outras coisas. Aí falei do tal “tempo psicológico” e parece que a audiência voltou a respirar com tranquilidade. De lá para cá eu tenho pensado muito nisso e em como explicar isso.

O tempo relativo é algo importante para se entender a literatura contemporânea. Vários autores modernos, e depois os contemporâneos, quebraram a noção de tempo que a literatura tinha até, pelo menos, o século XIX. O leitor estava acostumado a ler uma história com “começo, meio e fim”, mesmo que o autor, se fosse muito ousado, fizesse um vai e vem na narração. Ao fim da leitura, o leitor reuniria as ações numa linha de tempo parecida com a dele. O leitor sem experiência precisa dessa acomodação. Mas surgiram grandes gênios que tentaram outras abordagens do tempo: Marcel Proust ou Virginia Woolf, por exemplo. E o leitor de hoje, mesmo sem querer ou (re)conhecer uma nomenclatura específica, acostumou-se a ler 200 páginas de uma ação que se passa em minutos ou dias, assim como se acostumou a ler poucas páginas em que a ação é jogada para o futuro distante (às vezes milhares de anos) ou para o passado. Creio que a ficção científica tenha ajudado. Talvez o cinema também tenha ajudado nesse processo de reconhecimento. Não quero dizer que o leitor (tendo lido ou não divulgadores geniais como Stephen Hawking e Carl Sagan) tenha absorvido – diferentemente da minha audiência do mestrado – o sentido de “relatividade” da Física moderna, mas “entendeu” que o tempo pode ser dilatado ou apertado ao extremo. A palavra “relatividade”, aliás, se vem da Física e das demais áreas das Exatas, foi apenas absorvida pelas beiradas, como “desconstrução” ou “discurso” em épocas recentes. Muito provavelmente, o tempo relativo da literatura não é aquele tempo relativo da Física, mas a palavra é bonita, e trouxe resultados muito interessantes.

Um modo bastante eficaz de se perceber a relatividade (literária) do tempo nas obras de ficção é quando o leitor percebe que o personagem está sonhando, ou está sob efeito de drogas ou ainda vitimado por uma alucinação, que seria um estado “médico”. A literatura contemporânea já lidou com tudo isso. Então não seria novidade em Jon Fosse um tempo dilatado ou apertado, como resultado de um estado de sono/sonho, de embriaguez, de loucura, delírio, etc. Mas por que em Jon Fosse a coisa é tão importante? E como funciona? E por que funciona bem?

Aqui vai a primeira dica se você quer enveredar pela obra desse fascinante escritor: ele lida com o tempo de um modo muito peculiar. O leitor vai se questionar se o personagem está dormindo e sonhando, se está embriagado, se está vitimado por alguma doença mental ou simplesmente está delirando, criando uma situação não vivida. O leitor se perguntará também em que tempo histórico as personagens estão.

Esse processo temporal, que mistura diferentes narrativas, faz parte de um projeto de escrita, que Jon Fosse traz de suas primeiras obras, e de um modo muito particular de se pensar a literatura. A leitura pode, então, ficar arrastada. O leitor precisa redobrar a atenção, volta e meia precisa voltar ao texto e ver onde ele (leitor) se perdeu e encontrar o recurso linguístico (a troca de um pronome, por exemplo, ou um advérbio) usado pelo autor – de modo a haver uma guinada – para seguir a leitura.

O segundo aspecto tem a ver com a realidade. Tomemos aqui “realidade” do modo mais simples possível: aquilo que nos cerca e podemos tocar ou sentir. Citarei um trecho de Gilles Deleuze para me ajudar: “são os acontecimentos que tornam a linguagem possível” (em “Logica do Sentido”, parte 26).

Como as personagens de Fosse se perdem na loucura, no desejo, no sono, etc., a realidade que os cerca se distorce. Em “É a Ales”, por exemplo, diferentes momentos históricos ocorrem ao mesmo tempo, no mesmo lugar, como se o mesmo lugar fosse uma junção de painéis transparentes que o leitor pudesse ver ao mesmo tempo, atravessando cada um deles, mas sabendo que são situações diferentes entre si. Confesso que, depois de tudo o que li na vida, nunca tinha encontrado um escritor que fizesse isso tão bem – e detalhe: com uma escrita diminuta.

Quando falo em “escrita diminuta”, eu me refiro ao vocabulário utilizado pelo autor: estreito, pequeno em quantidade. As frases também são curtas, embora ele use um encadeamento longo que exija, também, do leitor, atenção. (Lembra que falei lá em cima do registro linguístico usado pelo autor? Ganha sentido aqui ele não optar pelo norueguês oficial.) Mas, no geral, as obras de Fosse se passam em lugares estreitos, pequenos, como o lugar onde ele nasceu e o lugar onde ele cresceu. Não há grandes deslocamentos nas narrativas de Fosse. A grande questão é interna. É o sofrimento e a melancolia de cada personagem.

Semana que vem volto com a parte 2 e com mais dicas de um caminho possível para ler, com prazer, Jon Fosse.

Obs: O primeiro livro dele traduzido no Brasil foi “Melancolia”, pela Tordesilhas, com tradução de Marcelo Rondinelli, em 2015. Um livro belíssimo. Já era momento de uma reedição revista. Os outros dois livros citados acima são da Cia das Letras, com tradução de Guilherme da Silva Braga.

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