Há muitos livros sobre professores no mercado. Poderia citar dezenas de romances em que um personagem, pelo menos, é professor ou o protagonista é um professor. Em “A valise do professor”, de Hiromi Kawakami, ele aparece quase como um acaso, mas em “Solenoide”, de Mircea Cartarescu, ele é fundamental na construção do romance (falarei dele logo, logo). Há vários modos, portanto, de se tomar a figura do professor.
É muito interessante perceber isso: uma das figuras mais admiradas da sociedade é também uma das mais amarguradas. Do ensino maternal ao superior, em particular no Brasil, o professor, geralmente, é massacrado. A tendência é, sempre, pensar-se a vida do professor em termos salariais, mas não é o salário (baixo ou alto) que define a desgraceira que é ser professor no Brasil. Nas últimas décadas, embora o acesso ao ensino tenha melhorado – em números absolutos – a qualidade do ensino é algo que necessita ser discutido, amplamente.
Mas poucas vezes tinha lido um livro em que a vida de um professor do ensino superior tinha sido devassada com tanta crueza. Em “Stoner”, um professor é dissecado como num experimento científico... ou como num açougue.
Há duas traduções aí no mercado, em português do Brasil: uma é do Marcos Maffei, pela Rádio Londres (só em sebo virtual ou ebook) e a outra é do Lucas Lazzaretti, da Arte e Letra.
Há uma cena pequena, bem rápida, no livro, em que Lomax (colega de trabalho e depois chefe) que nunca aceitava convite de ninguém, vai até a casa de Stoner e, no fim da festa, já meio alto, dá um beijo na esposa de Stoner. O personagem central, Stoner, comenta esse beijo – e o considera a coisa mais casta que já viu. Stoner, como sempre, um misto de inocência com passividade. Ali ocorria o encontro das duas Nêmesis de Stoner, mas ele não tinha consciência disso. Lomax seria seu carrasco da vida. Já teve o seu? Eu já tive vários no meio acadêmico. A própria esposa foi a segunda. Já viu relacionamentos tóxicos e destinados ao fracasso retumbante? Então: a vida de Stoner é o resultado de dois fracassos, indissociáveis.
“Stoner” é um livro pequeno apesar de suas 300 páginas. É de leitura rápida. A escrita de John Williams é econômica, cristalina, direta, objetiva, às vezes quase econômica demais (essa é a impressão, mas tal economia cria um romance extremamente bem estruturado). E há quem não goste justamente dessa objetividade, mas serão leitores acostumados a escritas mais elaboradas.
O livro costuma circular entre professores, por motivos óbvios: como sugeri acima, poucos livros lidaram tão bem com a vida de um professor, em particular um professor do ensino superior. Mas a pergunta talvez mais ingênua e que todavia descortina toda uma problemática do livro, pode ser: trata-se de um romance sobre a falência da carreira de professor ou de um professor ou o romance trata da falência da vida humana? Toda vida humana não seria uma falência, um “caminho de uma sombra para outra”, como sugeriu Borges, amparado, por sua vez, em escritores do passado? Em Ovídio, por exemplo.
Não é muito difícil encontrar os problemas da falência da vida de Stoner, a começar pelo despreparo dele e de Edith, sua mulher, em relação ao casamento. O leitor certamente sofrerá a tentação de pensar que, após uma lua-de-mel catastrófica, o casal não deveria ter se separado. Mas eram outros tempos e Edith, embora tivesse saído virgem da lua-de-mel (ela nem sabia o que ocorria numa situação dessas), enfim, tinha “dormido” com um homem. O despreparado deles – e a quase tragicômica lua-de-mel – é a antessala do inferno da relação.
Mas é no trabalho de Stoner que o pior ocorre. Ele não aceita sequer concorrer a uma vaga de chefia e esse lugar é ocupado por aquele homem que um dia teria beijado “castamente” sua mulher. Chamo a atenção para este beijo porque ele nunca é discutido. O leitor saberá que Lomax, agora seu chefe, é um sujeito rancoroso, egoísta, vingativo, etc., mas em nenhum momento se diz que Lomax invejava Stoner. Explique-se: Lomax tinha um problema físico, em nenhum momento se diz que ele se casou ou teve uma vida amorosa feliz – e é justamente uma das facetas da vida de Stoner – o amor – que ele, Lomax, tenta destruir. E consegue. Sei que uma perseguição no trabalho pode ocorrer em qualquer trabalho, mas no meio acadêmico – um lugar de conhecimento – isso fica mais bizarro.
Rebaixando Stoner a uma coisa secundária no departamento, ele atinge também Edith, a esposa amarga, mas é Elizabeth, a amante feliz no sexo, que sofrerá mais as consequências da ira de Lomax. Elizabeth talvez tenha sido a única felicidade da vida de Stoner. E Lomax se encarrega de destruí-la. E nem Elizabeth nem Stoner têm forças para reverter tal aniquilamento.
Esse aspecto do romance atrai muitos leitores, por motivos óbvios. Vivemos no interior do capitalismo selvagem e as universidades acabam por copiar certas estruturas hierárquicas do mercado. Vc poderá pensar: mas a igreja também tem uma hierarquia; então, por que ou como as faculdades não teriam? Sim, existe uma hierarquia – e em outro momento podemos discutir alternativas para ela – mas aqui a hierarquia, seja de qual viés for, é uma catástrofe, pois ela mostra com todas as letras como um indivíduo (nem melhor nem pior que eu ou você) pode destruir a vida de outro. E o meio acadêmico não é refratário a tal possibilidade. Um chefe, um colega de trabalho, um novo gerente, diretor, reitor, ceo, pode destruir a vida de um parceiro de travalho. E a vida é curta, em mau latim, e quando se vê ela já passou.
E, ao mesmo tempo, voltamos à estranha passividade de Stoner. Ele poderia ter jogado tudo para cima, tentar outra organização, brigar com Lomax, exigir do diretor (que se diz seu amigo) posicionamento... Mas não. Vinte anos se passam, com uma frase lapidar do narrador.
Esse aspecto temporal do livro é fascinante, justamente porque a questão não é gramatical: “e assim se passam vinte anos”. A questão é a sensação que isso traz ao leitor: de que o tempo passa depressa, e que se perdemos o trem da história não há trilhos que nos levem de volta. Uma sutileza incrível de Jonh Williams é nos contar que os estudos gramaticais na Antiguidade não eram exatamente estudos de uma “gramática” e sim de um “sentido”, e andavam de mãos atadas com a retórica e a oratória. O narrador de Williams aplica isso: as frases curtas, as escolhas lapidares, a avareza na descrição (que ocorre apenas quando estritamente necessária), tudo isso funciona como a prática de que a gramática importa. Isso é raro e incrível, e talvez por isso agrade tanto leitores da Linguística.
O resumo da vida de Stoner está no primeiro parágrafo do livro. Certamente não será o primeiro romance a fazer isso, mas tal escolha, aqui, no caso, dá a ideia de como as coisas valem muito pouco, como a vida é breve (podendo ser resumida num parágrafo) e como as coisas todas da vida são desimportantes. As coisas na vida de Stoner vão acontecendo sem alarde: a decisão dos pais de levá-lo à faculdade, a decisão dele de não voltar mais à fazenda dos pais, o casamento, a entrada na faculdade... etc. E assim as coisas se dão. Talvez a gente que dê muita importância a elas. Mas é o “encontro” de Stoner, eu diria, com Lomax, que produzirá efeitos apoteóticos. O livro poderia ter um subtítulo: o abalroamento. É um pouco triste, infelizmente, que o meio acadêmico, nesse livro (não é o único, claro) seja um espelho de outros meios. Triste de dar dó. Talvez o que mais choca é o fato de Stoner ser um homem médio. A mediocridade da vida é uma das coisas mais tristes que pode haver. Não à toa vivemos numa sociedade em que tanta gente quer ser algo ou alguém, a todo custo, da forma que for.
O livro, claro, foi escrito a partir de experiências do sistema americano de ensino superior, mas cabe direitinho para o nosso, em particular para o sistema privado – e no que se tornou o sistema privado nas duas últimas décadas. Leia com um lenço ou um Frontal, se for professor desse meio.
PS: a) a expressão “doce melancolia do entardecer” foi retirada do finzinho de “Luzes da Ribalta”. b) Não notei diferenças entre as duas traduções que avaliei. Ambas muito bem cuidadas. c) A sugestão de leitura desse livro veio, veja vc, de um professor universitário.