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Erich Maria Remarque e Nada de novo no front

Jovens no front, senhores em tronos

Erich Maria Remarque e Nada de novo no front
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Certamente, você deve ter reparado que algumas obras literárias são mais famosas que outras, ficam mais famosas que outras, são mostradas como melhores que outras. Muitas situações ajudam a explicar isso: os manuais canônicos das obras, o mercado da indústria cultural, o poder midiático das grandes editoras, o gosto do público, etc. Nem se trata de dizer que uma obra é “grande”, porque essa “grandeza” das obras é algo difícil de explicar (e nem vou entrar na lambança enganadora e superficial do discurso de que “uma coisa é boa para mim e para você, não”). E obras “grandes”, que marcam uma época, talvez sejam “menores” que outras num sentido literário dado ao trabalho com a linguagem. Mas elas ficam e se tornam emblemáticas.

Algumas obras acontecem. Outras, não. Algumas obras se veem elas mesmas como uma marca, um símbolo, uma metáfora, um carimbo, etc., etc., de uma época inteira. Algumas delas avançam as décadas como os trens avançam os trilhos, ganhando novas tecnologias, caso dos trens, e novos discursos sobre, caso dos livros. Algumas são importantes numa época e acabam desaparecendo ou são pulverizadas com outras práticas e discursos, caso interessante de Os quatro cavaleiros do Apocalipse, que na minha adolescência – e talvez para a geração anterior a mim – era um romance obrigatório. Mas nunca mais ouvi falar dele com a a paixão que me frequentava lá pelos meus 14 anos.

De todo modo, quem sabe uma hora dessas o romance de Vicente Blasco Ibáñez ganhe uma adaptação cinematográfica e a obra ressurja. Já a obra de Erich Maria Remarque sempre está presente, por uma série de motivos bem interessantes. Ao tratar da vida de um jovem alemão que mente para ir à guerra, Remarque como que fala de outros jovens, de outros lugares do mundo, e de outras guerras. Para mim, uma das cenas mais marcantes da obra de Remarque – e muito explorada no cinema – é quando se mostra claramente o sofrimento dos jovens soldados nas trincheiras e a tranquilidade com que generais e autoridades decidem continuar ou não uma guerra sangrenta em confortáveis salas ou espaços dentro de trens pensados para gerar segurança e conforto.

Um livro sobre a Primeira Guerra não é muito diferente, portanto, de um livro – e de filmes, peças, poemas – sobre a Segunda Guerra, os confrontos coloniais, as guerras de hoje. Evidentemente, outras tantas obras vão surgindo ao sabor dos tempos, obras como 14, de Jean Echenoz, com novas abordagens (literárias) sobre a guerra, e ainda obras como Depois de 1945, de Hans Ulrich Gumbrecht, mais sociológicas ou filosóficas, sobre o mesmo tema. Mas insisto: algumas obras permanecem, ganham novas edições, novas traduções, novas adaptações para o cinema (que, digamos, é um grande divulgador).

Neste texto, para tornar a coisa uma experiência mais agradável, farei a comparação com filmes.

Nada de novo no front – Parte I

Começo essas reflexões sobre o filme alemão de 2022, de Edward Berger, ganhador de vários prêmios internacionais, incluindo o Oscar, com algumas lembranças, duas para ser mais exato, de forma a tentar chegar em algum lugar na Parte II.

Quando tinha de 17 para 18 anos fui, obrigado, ao Tiro de Guerra. Eu desejava a Aeronáutica, mas as inscrições para o serviço militar lá (embora houvesse uma gigantesca base na cidade) estavam limitadas a não-sei-quê, filhos da elite ou filhos dos próprios militares. O regime militar era assim.

No Tiro de Guerra, já na recepção, percebi que os santos não batiam: o sujeito olhou para mim e anotou numa ficha amarelada que eu tinha cabelo e olhos castanhos. Não houve como reclamar que meus cabelos eram pretos. Bem; que diferença isso faria? Morto numa guerra, meus cabelos não teriam cor. O corpo do soldado vale muito pouco, em verdade, então tanto faz um detalhe sobre a cor de seus cabelos. Sei o quão banal pode ser essa lembrança, mas ela terá fundamento quando falar de Nada de novo no front.

Um sargento chamou um grupo de uns dez, doze garotos. Estava um amigo comigo. Antes da entrada, ele dispensou os gordos e os que usavam óculos. Mandou alguém dispensá-los. Lá dentro, ordenou que tirássemos a roupa – e frisou a palavra “toda”. Fez, claro, alguma piada com roupas íntimas. Estávamos tão nervosos que eu nem lembro o que ele exatamente disse. Enfileirados e nus, os corpos jovens, magrelos, quase infantis, foram inspecionados. Ele fez uma piada sobre um menino ruivo e seus pelos pubianos. Um ou outro riu. Certamente, a maioria ali nunca tinha visto adultos nus, a púbis de algum outro, nunca tinha frequentado um clube ou algo assim.

Na escola, vez ou outra um médico ia verificar nossos genitais. Mas não havia a nudez completa. No Tiro de Guerra, não havia a nudez – e não poderei dizer poeticamente –  em seu esplendor, e sim um sujeito claramente sádico, a tentativa de expor os jovens ao ridículo, igualando-os no que havia de mais fraco neles: o medo da exposição. A maioria virgens, a maioria em descoberta da sexualidade (o rapaz ruivo eu o encontrei numa boate anos depois e soube que morreu jovem, também anos mais tarde), a maioria com vergonha de sua intimidade. Ouço ainda frases soltas, como “aqui vocês vão virar homens”, e coisas do gênero, um arremedo de filmes americanos B.

Era esse o "exame médico". Estávamos todos aptos a servir. Ninguém ouviu nosso coração ou perguntou se tínhamos asma.

Eu e meu amigo saímos de cabeça baixa e aflitos. Nem eu nem ele queríamos “servir ao nosso país”, nesse sentido. Tínhamos lido O Jovem Törless e Justine – e sinceramente nos sentimos dentro das obras de Musil e Sade. Fomos em silêncio até o ponto de ônibus. Nunca tínhamos visto o corpo do outro. Percebi o quanto para meu amigo a nudez era um problema – que certamente ele levaria para a vida toda. E entendemos a enrascada em que a gente se metia. Voltaríamos no dia seguinte para pegar os uniformes. Remarque “entende” esses nada meros detalhes da vida militar e com olhar muito perspicaz escreve sobre isso, sem alarde, mas muito claro no que diz respeito à violência cotidiana pela qual um soldado passa.

Eu havia me livrado do seminário, e agora entrava em outra fria, talvez maior. Ele não tinha conseguido ir ao seminário. E entrar para o exército realmente parecia ser um castigo que não merecíamos.

Aqui, começo outra história, para poder adentrar nas questões de Remarque.

O diretor do meu colégio, anos antes, era um cidadão francês, casado com uma brasileira pérfida. Tinha o nome do poeta Rimbaud, mesma pronúncia mas com outra grafia. Ele tinha um “espião”.

Era um menino da região NE, que ele encontrara na rua, não sei em que condições. O menino era mais velho que nós: tínhamos entre 13 e 14 e ele já era adulto. Era forte, embora baixo, e tinha um problema no rosto que evitávamos olhar, uma queimadura ou sinal de nascença, nunca soube. E sinais pelo corpo, de uma vida bem dura e violenta.

Monsieur Rimbaud permitia que ele adentrasse o colégio sem ser aluno, o que era terminantemente proibido para qualquer outro sujeito que não esse garoto. O professor de Educação Física deveria permitir que o rapaz jogasse conosco, que frequentasse as aulas, etc.

Vez por outra, Rimbaud ordenada que limpássemos as quadras. Achávamos justo cuidar de um bem público, mas o que o diretor fazia era absolutamente equivocado: ele usava a força física dos alunos como um “trabalho voluntário” e ainda as aulas de Educação Física para essa atividade. O rapaz servia de capataz – e levava ao diretor as reclamações que porventura ouvisse e ainda as situações de recusa em fazer o trabalho. Ele me puxou um dia pela mão: ia me levar à sala do diretor. Isso poderia significar expulsão. Ser expulso de um colégio àquela época significava não conseguir vaga em nenhum outro, o que romperia a cadeia obrigatória de ensino. Ou seja, minha vida estaria acabada. Era grave, muito grave.

Então, começo assim a análise de Nada de novo no Front: um sargento sádico (num sentido erótico e perverso/pervertido do termo) e um diretor francês, que tem um subordinado capataz, outro tipo de perversão/perversidade.

Na próxima parte, entrarei nas questões do filme (são três, em verdade: 1930, 1979, 2022) e do livro.

Para começar a discussão, gostaria de lembrar que meus possíveis leitores aqui podem ser divididos em três gerações: a) aqueles que viram A ponte do rio Kwai, b) aqueles que viram Merry Christmas, Mr. Lawrence e os que viram 1917. Isso nos será relevante.

Parte II

Claro que os roteiristas levarão em conta algum ponto que lhes tenha chamado atenção num livro e o diretor fará suas escolhas também. De todo modo, teremos um livro base e uma história a ser contada. Temos um resumo, uma sinopse, mas temos uma adaptação (entre linguagens, primeiramente).

Difícil comparar três filmes (sendo um deles feito para a televisão) em décadas tão distintas: 1930, 1979 e 2022.

Pabst também lança Westfront 1918, em 1930. Em outras instâncias, em 1931, o jornal The New York Times, num arroubo de exagero, diz que o livro mais lido depois da Bíblia é Os quatro cavaleiros do Apocalipse, de Blasco Ibãnez, que eu citei acima, também um romance que mostra os absurdos da guerra. O livro foi lançado em 1916, ou seja, ainda ao som de tiros e granadas da Primeira Guerra. Já Nada de Novo no Front foi lançado em 1928 (em alguns lugares, em 1930). Isso quer dizer que a primeira adaptação ao cinema começou a ser produzida com o livro ainda quente da gráfica.

Nos anos 1930, outros produtos da indústria cultural mostrariam guerras (a lista é gigantesca, ok?) e chamo a atenção para um deles, muito antes da Guerra Fria, antes da Segunda Grande Guerra, mas na esteira dos acontecimentos da Primeira e da Queda da Bolsa de 1929: Flash Gordon. Já escrevi em outros lugares sobre o cruzamento entre Flash Gordon e o "perigo amarelo", nome dado pela mídia ocidental aos perigos do Oriente, do Extremo Oriente. O cinema é um grande catalisador de discursos e sentimentos e um excelente aparato de propaganda. Mas voltemos ao que interessa.

Por mais que Remarque dissesse que Nada de novo no front “não era um libelo contra a guerra” tampouco “um livro de aventuras”, não foi assim que ele foi lido e não é assim que ele é lido até hoje. Chega a ser irônico que as três versões em filme coloquem sua advertência em destaque para fazerem justamente o contrário.

Colocando em discussão mais profundamente a situação do livro e dos filmes, eu realmente ponho em xeque o discurso de uma obra “pacifista”. Obviamente, qualquer sujeito lido poderá enxergar nas entrelinhas do livro (e nos filmes) um discurso que subjaz. No entanto, não podemos perder do horizonte que o livro e os filmes também são um produto cultural, que têm a guerra como mote ou ainda como pano de fundo: mote, se pensarmos que ela é o cenário para uma discussão seja lá qual for; pano de fundo, se pensarmos no cenário em que o drama de Paul Baumer se dá, como indivíduo, cidadão, filho, aluno, alemão, soldado. Explorarei melhor isso na parte III.

A guerra como produto cultural não é uma invenção da modernidade. Desde a Antiguidade – para seguirmos nossa tradição, se é que existiria o nascimento disso – a guerra surge como um dos principais temas da arte em geral. No entanto, ao lado dos louvores que se pode cantar sobre ela, há também a crítica, seja na forma da descrição da “queda” dos heróis que participam da guerra – seja Ulisses ou Aquiles –, seja através do humor, quando um poeta romano, por exemplo, ironiza os poemas que tecem loas à guerra e ao heroísmo de seus combatentes. Também voltarei à questão, ao tratar das armas de guerra acrescidas ao mais recente filme e ausentes (de certa forma) nos demais.

São guerras míticas (Bíblia, textos indianos, sumérios, japoneses), de proteção do território (um dos grandes e ainda presentes argumentos para defender a guerra), a guerra santa (como a de Jerusalém, para “proteger” o solo sagrado dos infiéis), a guerra em busca de território e alimento, a guerra de conquistas e invasões, a guerra para levar a democracia (muitas aspas aqui). Em todas elas, teremos os jovens, os comandantes, as batatas ganhas, o olho perdido de um poeta famoso, a volta sem dentes dos marinheiros, o soldado que usa uma prótese para participar de um desfile de moda.

Como produto, a guerra gera uma pá de coisas: livros, filmes, jogos, brinquedos, mas também flâmulas, camisetas, tintas para as faixas antiguerra, tecnologia para novas armas, caixões. O mercado é grande e variado. E, como sugeri acima, o produto cultural (o livro, a peça de teatro, o filme, mas não o brinquedo e o game), pode ser até antiguerra, pacifista se você preferir, mas continua um produto de consumo. Impossível ser de outra maneira? Sim e não.

Há uma cena famosa em Nada de novo no front, o livro de Remarque, em que os soldados “se vingam” de um cabo. No livro, o narrador mostra o problema da vaidade. Um ex-carteiro, tornado cabo, se transforma num déspota. Como sugere um dos personagens centrais do livro, Kat, “o problema do exército não é o rigor da disciplina”, mas quando ela se torna doentia e arma dos fracos. O exército, em sua tentativa de “igualar” os homens, apenas os diferencia mais e mais.

Essa cena sobre a vaidade, a empáfia, orgulho vazio, é lido no cinema da forma mais obtusa e ganha outros contornos. Tanto na versão de 1930 quanto na versão de 1979, ambas leituras americanas da obra de Remarque, a vingança se torna revanchismo, e um revanchismo caricato, aquele mesmo que se vê em qualquer filme de sessão da tarde, seja uma Família Addams qualquer, seja um As Branquelas qualquer. O revanchismo barato não existe em Remarque.

A investigação da alma humana proposta por Remarque é bem interessante e eu diria até inusitada. Não quer dizer que grandes autores antes dele tivessem feito o mesmo (Machado de Assis, por exemplo, autor que Remarque muito provavelmente não tenha lido). Mas Remarque expõe alguns absurdos da guerra que não ela mesma – e isso não é captado pela maioria dos roteiristas que o adaptam. Seria possível levar a discussão de Remarque ao cinema? Sim, e isso já foi feito, mas temo que o filme deixasse de ser algo popular. O revanchismo caricato é mais fácil de ser compreendido pela audiência que uma discussão filosófica sobre como a alma humana se deixa comprar por alguns tostões, uma medalha, um par de botas, a presença do kaiser (algo muito bem explorado no filme de 1979, aliás, belissimamente).

Remarque percebeu – assim como outros autores de língua alemã, como Musil ou como os irmãos Mann, para ficarmos na esfera das obras em alemão – que existem diversos modos de corrupção, alguns bem baratos, e que um carteiro, antes conhecido por toda uma comunidade, e que era educado, até fanfarrão, pode se tornar um carrasco. Ele, Remarque, notou isso antes de Arendt, por exemplo, e dos sociólogos de meados do século XX que mediram à régua precisa os fundamentos dos totalitarismos e os mecanismos de controle de massas. Para nós brasileiros, um prato cheio na atualidade, com o crescimento vertiginoso de uma extrema-direita arrogante e afrontosa. Governos totalitários repetem os mesmos discursos (pátria, família, deus e o kaiser) e arrebatam milhões de imbecis. Nem sei dizer por que as pessoas amam tanto Remarque – e chegam a sugeri-lo como leitura em grupos militares!

Sobre o ressurgimento de autores sequestrados pela direita – e de discursos até mesmo “emprestados” da Linguística, escrevo outro dia. Entram aí Chesterton, Bernanos, entre outros.

Parte III

Uma das técnicas de escrita utilizadas por Remarque em seu livro é a oposição, um tipo de antítese ou paradoxo. Numa cena, o soldado descreve a beleza de um “lago de leite”, mas o ambiente é provocado pela fumaça das bombas. O narrador fala da beleza dos corpos saindo desse lago, mas minutos antes o barulho das bombas era ensurdecedor e, claro, o campo está cheio de corpos.

Dessa beleza quase celestial, passa-se para a cena seguinte, em que os soldados ficam abismados com os gritos de cavalos feridos. No cinema, tal cena seria difícil de mostrar: um dos cavalos corre e tropeça nas próprias tripas, porque seu ventre tinha sido aberto. (Na primeira versão do filme, a cena dos cavalos é muito triste.)

Ainda por oposição, os soldados, já transtornados pelos horrores da guerra, choram mais a violência contra os cavalos do que a violência com os homens, pois, óbvio, os homens se tornaram apenas uma coisa, uma massa controlada por outros homens, os de grande poder. E os cavalos são coisas vivas. Vindos de fazendas muitos dos soldados, para eles o sofrimento dos cavalos é algo realmente muito triste.

Mas a cena não termina aí: logo em seguida, os soldados se veem novamente bombardeados e eles estão num cemitério. Na primeira versão do filme, isso é chocante. A guerra não respeita nem mesmo os lugares sagrados (uma igreja inteira explode na primeira versão, o que para 1930 era uma cena e tanto!). No livro, o narrador descreve o desespero de cair em valas com caixões e corpos, “como se os mortos morressem de novo”.

Hoje, talvez filmar isso, numa era Spielberg e Disney, haveria o risco de se fazer algo patético e não exatamente dramático. Os vivos (ou nem tanto) encontrando os mortos que não podem descansar. Somente uma das versões tem a cena, a de 1930.

As três versões, então, investem nesse discurso de Remarque: a guerra não respeita nada. Ela está acima de tudo. O que poderia ser belo – o que já fora belo um dia – esmoreceu com as decisões dos líderes que, emparedados e protegidos em seus escritórios, decidem mandar jovens morrerem no campo. Quando Remarque escreve o livro, certamente o mundo já conhecia casos apavorantes da guerra, como foi Galípoli.

Das três adaptações para as telas, a que mais investe nessa oposição é a última: das cenas de guerra para as mesas fartas de café da manhã ou chás da tarde, em lugares luxuosos. Trata-se de um lugar-comum? Por certo. Mas o resultado ainda é bom. Neste, as armas de guerra, muitas delas inventadas para a Primeira Grande Guerra, são lançadas com tanta brutalidade na tela que parecem pular para dentro do cinema.

Há quem possa pensar que o livro de Remarque tenha mais cenas de guerra que cenas fora dos campos (a primeira grande guerra foi uma guerra de trincheiras, com uso de armamento nunca antes visto). É o oposto: há mais descrições de amizades, camaradagens e valores humanos do que se possa imaginar.

Mas o encontro de dois homens “inimigos”, um francês e um alemão no meio da batalha é a união perfeita dessas duas situações: os soldados deixam de ser máquinas de morte para se tornarem humanos. Há um quê de suspensão nesse momento: como se o mundo parasse para que esses homens se encontrassem: eles passam a ter nome e não apenas a serem um rosto sem feição no meio da guerra, sujo de lama e sangue. Não diria que é o momento mais importante do livro e dos filmes porque há cenas incríveis, como o encontro do soldado com os “especialistas” de guerra, que não estão na guerra, mas deixo isso para outra vez.

De todo modo, a descrição é tão intensa que cada um dos três diretores resolveu fazer uma versão dela para as telas. Todas são incríveis, mas a mais recente é de uma brutalidade e de uma compaixão que poucas vezes vi no cinema. Tanto o livro é marcante como o filme. Mesmo se você não aprecie filmes sobre guerras, valem a pena.

P.S.: me perguntaram esses dias sobre filmes de campos de concentração e ainda filmes de fugas de presídios. Sobre estes, valeria dizer que filmes como Papillon, também adaptação de um livro best-seller, tratam dos horrores dos sistemas. Difícil dizer se são "oriundos" de filmes de guerra (ou de livros sobre guerras), mas estão ali-ali. Sem esgotar a questão, há filmes de guerra que se passam em campos de concentração (de prisioneiros ou de extermínio) e ainda há filmes em que ex-soldados estão presos devido justamente a situações vividas na guerra. O mercado viu surgir um novo tipo de romance, especializado em guerras, embora o tema guerra seja ancestral. Não fiz uma lista porque seria imensa.

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