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Suspeita de abuso em escola do Cajuru opõe pais indignados e funcionárias com medo

Professoras tiveram de que deitar no chão das salas com alunos e houve ameaças contra servidores

Suspeita de abuso em escola do Cajuru opõe pais indignados e funcionárias com medo
PM e GM dispersaram manifestantes que ameaçaram entrar na escola | Foto: Tami Taketani/Plural.

Os muros da escola e o cordão de isolamento feito pela Guarda Municipal foram responsáveis por impedir um confronto que poderia terminar em tragédia. Nesta segunda-feira (28), em frente à Escola Municipal CEI Ritta Anna de Cássia, a suspeita de abuso sexual contra uma criança elevou os ânimos comoveu a comunidade escolar. Indignados, pais protestavam aos gritos e exigiam a presença de autoridades locais.

À medida que o protesto parecia sair do controle, por outro lado, quem estava dentro da escola sofria com o medo e com a possibilidade que parecia cada vez mais real de uma invasão das famílias. Se entrassem, naquele estado de indignação e com o desejo claro de punição de alguém, ainda que tudo esteja por ser elucidado neste momento, o risco de confronto físico parecia grande.

A indignação dos pais tinha um motivo claro: um aluno da escola, em idade pré-escolar, chegou em casa reclamando de dor no ânus. Os pais constataram que o garoto estava de fato machucado e o levaram ao Pequeno Príncipe. A conclusão da família foi que o caso só poderia ter acontecido na escola. Logo, conversando com outros pais, começaram a surgir relatos de outros problemas. Embora nenhum ligado a possível abuso sexual - havia denúncias de crianças desacompanhadas ou de alguém que teria dado um tapa na bunda de uma criança - os casos só aumentaram a revolta.

Do lado de dentro

Do lado de dentro da escola, as professoras dizem que sentiam medo. "O que vimos foi uma selvageria", disse uma, depois de encerrado o protesto, que foi dispersado com balas de borracha pela Guarda Municipal.

Funcionários contam que chegaram para trabalhar normalmente nesta segunda-feira, quando houve o ato, e não sabiam da investigação aberta pela Polícia Civil. Eles só foram informados na entrada. “Só disseram para gente o que estava acontecendo naquele alvoroço. Passamos momentos de terror, teve professora com crise de pânico, crianças trancadas na sala para garantir a segurança, gritos e ameaças do lado de fora, crianças deitadas no chão para se proteger de tiros, além dos comentários nas redes sociais. Estamos com medo”, relatou uma das docentes, que não quer se identificar por medo.

Mais de vinte viaturas faziam a segurança para impedir a ocupação dos pais do lado de fora. A Prefeitura de Curitiba, por meio da Secretaria Municipal de Educação (SME), manteve as aulas normalmente para esta terça-feira (29) e afirma ter prestado todo suporte no caso suspeito que está em investigação.

Enquanto os pais se manifestavam do lado de fora e falavam com a imprensa, do lado de dentro crianças choravam de medo, sem entender o que estava acontecendo, segundo uma professora ouvida pela reportagem. “A gente também tentando segurar o emocional para não transparecer nosso pânico para as crianças, mas elas estavam apavoradas e chorando. Nós mesmas vamos precisar de atendimento psicológico”, lamenta.

Outras professoras e funcionários não quiseram falar sobre os momentos ocorridos na Escola após o início das investigações sobre o caso suspeito de abuso. O Sindicato dos Servidores do Magistério Municipal de Curitiba (Sismmac) disse que é preciso ter cautela a respeito da situação.

“Até o momento, as autoridades não divulgaram informações que confirmem e que apontem que o fato tenha ocorrido nas dependências da escola. O caso está sob investigação do Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (Nucria), da Polícia Civil, e tramita em sigilo. Cabe à polícia esclarecer se o fato ocorreu, onde, como, quando e quem é o responsável. Cabe ao Ministério Público acusar e ao Poder Judiciário julgar, sempre com observância do devido processo legal e da presunção de inocência”, publicou, em nota, o Sismmac.

O Sindicato também criticou a postura da imprensa e do próprio Plural, durante a cobertura. “Por isso, não cabem pré-julgamentos, linchamentos públicos ou responsabilização coletiva de trabalhadoras e trabalhadores da unidade. A história brasileira já mostrou o custo desses julgamentos antecipados. No Caso Escola Base, em São Paulo, em 1994, pessoas foram expostas e condenadas publicamente antes de qualquer apuração. Ao final, foram reconhecidas como inocentes, mas suas vidas, carreiras e reputações já haviam sido destruídas, e nem mesmo altos valores indenizatórios pagos por veículos de imprensa e pelo Estado foram suficientes para aplacar o impacto da condenação antecipada da opinião pública”, destaca a nota (leia na íntegra aqui).

A orientação para que a mãe procurasse o serviço de atendimento após as reclamações da criança foi dada pela própria escola, conforme a SME e o Sismmac.

Cajuru

Para uma professora ouvida pelo Plural, o clima de hostilidade contra servidores da educação está crescendo e a notícia sobre a investigação de suspeita de abuso deixou os ânimos ainda mais exaltados. “Eu acho que as pessoas têm que cobrar sim, mas é preciso pensar que temos crianças aqui dentro e trabalhadores também. As crianças estavam confusas e com muito medo, assim como nós também estamos com medo porque não é a primeira vez em que há ameaças”.

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Na última semana o Sindicato dos Servidores Públicos Municipais Curitiba (Sismuc) revelou um caso de agressão contra professora de educação infantil na própria regional do Cajuru.

“Esses episódios expõem uma realidade que vem se agravando nos últimos meses. Servidores públicos têm sido alvo de ameaças, agressões físicas e situações de desrespeito durante o exercício do trabalho. E a violência não se restringe a apenas um segmento: são trabalhadores da educação, da saúde, da assistência social e da fiscalização que têm enfrentado situações semelhantes em CMEIs e escolas”, publicou, no site institucional, o sindicato.

Segundo o Sismuc, as agressões e ameaças contra servidores da educação faz parte de uma estrutura de “violência institucional”.

Trabalhadores da Escola Municipal CEI Ritta Anna de Cássia receberão atendimento psicológico após o episódio (embora a escola não tenha psicólogo).

A investigação, a cujo boletim de ocorrência o Plural teve acesso, ainda está em andamento e não há prazo para que o inquérito seja concluído.

 

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Aline Reis

Aline Reis

Jornalista e especialista em Gestão da Comunicação, Assessoria e Marketing pela Universidade Positivo (UP). Mestra em Estudos de Linguagens pela UTFPR. Presidenta do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Paraná.

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