Servidores municipais de Curitiba têm enfrentado problemas com o CredCesta, cartão de benefícios criado pelo Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro. A Prefeitura informou que o CredCesta foi bloqueado em 18 de novembro, mas há relatos posteriores de cobranças indevidas, contratações inexistentes, juros abusivos e dificuldades para quitação. Segundo os servidores, o cartão vem sendo operado por outra instituição financeira.
O Plural teve acesso a mensagens trocadas por participantes de um grupo com cerca de 400 servidores ativos, aposentados e pensionistas que estão ajuizando ações contra a operadora do cartão e a Prefeitura. O CredCesta foi anunciado em setembro de 2023 pela Prefeitura como nova opção para empréstimos consignados. Cinco meses depois, em fevereiro de 2024, foi possibilitado aos servidores utilizar 40% de seus vencimentos para fazer empréstimos consignados (30% do Cartão Qualidade, mais os 10% permitidos até então), desde optassem pelo uso dos cartões.
Servidores estaduais também vêm tendo problemas – empréstimos com juros altos, cobranças indevidas e taxas que não constam dos contratos. Após a operação Compliance Zero da Polícia Federal, que resultou na prisão do dono do Master, Daniel Vorcaro, e na liquidação do banco, o governo do Paraná anunciou o bloqueio do CredCesta e de outro cartão ligado ao Master, o Mettacard, mas, segundo o deputado estadual Arilson Chiorato (PT) as cobranças continuam. A Prefeitura também anunciou o uso do Mettacard em 2023, mas não confirmou o bloqueio.
Cobranças em duplicidade
Em um dos áudios recebidos pelo Plural, uma servidora municipal que fez um empréstimo consignado relatou cobrança em duplicidade. Ela tem o desconto no holerite e recebe um boleto. Quando conseguiu contato com a operadora, foi informada que deveria pagar o boleto caso o depósito não constasse como consignado.
"Eu não pagava os boletos porque estava tendo desconto em folha. Quando eu consegui contato, me disseram que, caso não fosse depositado como consignado, eu teria que pagar o boleto. Esse mês foi a mesma coisa, veio descontado em folha e o boleto está ali na minha conta para ser pago. Não sei qual é a ideia deles".
Servidora municipal
Outra servidora tem R$ 1,5 mil descontados por mês desde 2023, mas disse que não teve direito a nenhum valor – e ainda recebia os boletos.
"A informação que tive é que esse valor de R$ 1,5 mil é o mínimo que eu estou pagando, que eu ainda teria que pagar o valor do boleto. Quase morri do coração. São R$ 36 mil em dois anos".
Servidora municipal
Aposentada e pensionista presa a dois cartões
Uma aposentada e pensionista da Prefeitura tem dois cartões CredCesta. Tentou quitar as dívidas, mas não conseguiu os boletos. "São horas no telefone e depois de muita insistência eles dizem que ligam após cinco dias úteis para enviar o boleto. Eles ligam uma única vez no dia combinado, se você não atender começa tudo outra vez". Ela refez a operação, mas, depois da operação Compliance Zero, não obteve mais respostas.
"Dois dias antes do prazo, estourou o escândalo do Banco Master e agora não obtenho resposta alguma a não ser observações grosseiras sobre os contratos realizados. Quero quitar e não consigo. Os juros do CredCesta são abusivos, mas a gente só se apercebeu disso depois de feito o empréstimo".
Servidora municipal
Juros abusivos e parcelas maiores
Relatos de juros abusivos e parcelas maiores sem autorização são comuns. "Foram feitos débitos indevidos, além do que eu aprovei lá atrás, quando fiz meu consignado. Pedi explicação via e-mail para a equipe do e-Consig da Prefeitura me falaram para entrar em contato com o banco", relatou uma professora.
Segundo ela, duas alterações nos valores dos descontos mensais foram feitas sem autorização:

Outra professora relatou que deixou de pagar cerca de R$ 1 mil. No mês seguinte, devia o dobro.
"Não paguei a fatura do cartão por considerar o juro abusivo. Se fossem mil reais, no outro mês estava devendo dois mil. Não sei que juros eles cobram".
Professora da rede municipal de ensino
Segundo uma servidora, foram lançadas compras no cartão de crédito no valor de R$ 20 mil. "Tenho um cartão de compras que eu nunca fiz. No dia 21 de outubro, recebi mensagem informando compras em Florianópolis no valor de R$ 20 mil, com desconto em folha".
"Precisamos de um resposta sobre o que está acontecendo com a nossa vida financeira. Até agora não resolveram nada e não falaram nada. Vai demorar um ano, dois anos? Como fica a dívida? Quando você vê, está devendo R$ 500 mil".
Servidora municipal
Em outro relato, uma servidora passou a ter descontos no valor de R$ 89 pela contratação de um plano de saúde – que não foi contratado.

"Agora é Banco Pleno"
Em um dos áudios a que o Plural teve acesso, uma funcionária da Prefeitura diz a uma servidora que o CredCesta continua funcionando, agora sob operação do Banco Pleno.
"O Banco Master não tem nada a ver com a CresCesta" diz ela. "Eles tinham uma parceria no começo do ano. Mas desde o início desse mês já estava migrando para o Banco Pleno. A gente ficou sem sistema porque a gente já estava trabalhando com o Banco Pleno, mas a gente não estava 100% já dentro do Banco Pleno, a gente estava ainda utilizando o Banco Master. Mas semana que vem já vai retornar tudo ao normal. E sobre o empréstimo da senhora, vai continuar a mesma coisa". Segundo ela, novos cartões do Banco Pleno serão enviados.
A má notícia para a servidora é que o dono do Banco Pleno, Augusto Lima, também foi preso pela Polícia Federal na operação Compliance Zero. Ele se tornou sócio do Banco Master em 2019 e, segundo matéria publicada pelo jornal O Globo em 18 de novembro, foi o criador do CredCesta. Lima é casado com Flávia Peres, ex-ministra do governo de Jair Bolsonaro e ex-mulher do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, condenado por improbidade administrativa.
"As respostas são sempre as mesmas. Agora veio a resposta que os descontos vão continuar e que o Banco Master não tem vínculo com o CredCesta, que agora é Banco Pleno. Cada hora é um nome diferente e os descontos continuam. E o prefeito fica quieto".
Servidora municipal
A funcionária da Prefeitura informou ainda que os descontos em contra-cheque são feitos pela empresa PKL. Na terça-feira (2), o líder da oposição na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), Arilson Chiorato (PT), afirmou que empresas vinculadas ao Banco Master continuam a dar prejuízos para os servidores estaduais. Segundo ele, uma servidora relatou que teve um desconto de R$ 329,01 da PKL One Participações S.A., sem ter feito qualquer empréstimo.
Para os servidores, o governador Ratinho Júnior e o ex-prefeito Rafael Greca deviam explicar por que aceitaram o CredCesta e o incluíram no pacote de "benefícios" ofertado aos servidores. Ele questionam ainda o tratamento de seus dados pessoais pela Prefeitura de Curitiba.
"Por indicação do Ratinho Júnior, o Rafael Greca aceitou pegar esse banco, que pegou todos os nossos dados. Tem gente que nem desbloqueou o cartão e tem mais de mil reais de desconto. É como se nossos dados sempre estivessem disponíveis para todos os bancos. Recebemos ligações oferecendo empréstimo o dia todo, como eles têm todos os nossos dados?"
Professora da rede municipal de ensino
O Plural entrou em contato com a Prefeitura de Curitiba na manhã desta quarta-feira (3 de dezembro) e fica à disposição no caso de alguma manifestação.