Uma idosa com mobilidade reduzida esperava havia quase dois anos por uma cirurgia de ombro com prótese no Hospital do Trabalhador quando consultou sua posição na fila, em 22 de maio de 2025. Era a 250ª. Semanas depois, era a 617ª. Em 15 de agosto, o vereador Da Costa do Perdeu Piá (Pode) pediu explicações ao hospital e à Secretaria de Estado da Saúde.
O caso está entre os 19 pedidos e requerimentos que vereadores de Curitiba apresentaram em 2025 e 2026 sobre 17 pacientes específicos à espera no SUS. O levantamento é do Plural, feito na base de proposições da Câmara Municipal. Dezesseis são de Da Costa do Perdeu Piá. Três são de Carlise Kwiatkowski (PL).
Em seis dos casos, a espera relatada pelos vereadores passava de seis meses: cerca de dois anos por avaliação de uma criança autista no Ambulatório Encantar; quase dois anos pela cirurgia de ombro; mais de um ano por um aparelho CPAP já aprovado; mais de um ano por uma cirurgia de cabeça e pescoço no Hospital de Clínicas; cerca de um ano por vaga no Encantar para outra criança, que acabou retirada da fila; e mais de sete meses de outra criança autista, na posição 2.700, numa unidade de saúde da CIC.
A fila de hoje
Na página Filas Públicas do Portal da Transparência, atualizada em 26 de setembro de 2026, a Prefeitura informa 126.561 inscrições à espera de consultas especializadas, exames e procedimentos. Em 21 dessas filas, o tempo médio de espera é de "mais de seis meses". Elas somam 39.920 inscrições. O cálculo é do Plural. Uma mesma pessoa pode estar em mais de uma fila.
As maiores entre as que passam de seis meses:
| Fila | Inscritos | Espera média |
|---|---|---|
| Avaliação para cirurgia plástica reparadora | 10.778 | mais de 6 meses |
| Odontologia, remoção de dente incluso | 5.590 | mais de 6 meses |
| Ortopedia geral | 5.269 | mais de 6 meses |
| Neurologia pediátrica | 2.586 | mais de 6 meses |
| Ortopedia, coluna | 2.546 | mais de 6 meses |
| Cirurgia vascular, varizes | 2.424 | mais de 6 meses |
| Ortopedia, cirurgia da mão | 2.072 | mais de 6 meses |
| Ortopedia, joelho | 1.751 | mais de 6 meses |
| Reumatologia | 1.643 | mais de 6 meses |
| Ortopedia, ombro e cotovelo | 1.101 | mais de 6 meses |
Fonte: Prefeitura de Curitiba, Portal da Transparência, Filas Públicas de Saúde, 26/09/2026.
Os casos levados à Câmara estão nessas filas. Em abril de 2026, Da Costa relatou um idoso com "aproximadamente 2.214 pessoas à frente" para a primeira consulta de coluna, e outro paciente na posição 1.254 da mesma especialidade. A fila de ortopedia de coluna tem hoje 2.546 inscritos. Os pedidos sobre crianças autistas esbarram na neurologia pediátrica, com 2.586. O contrato da Prefeitura com o Centro Curitibano de Atenção Especializada prevê 40 primeiras consultas de neuropediatria por mês, segundo documento enviado à Câmara em julho.
Nome completo, resposta com data
As respostas da Secretaria Municipal da Saúde (SMS) mudam conforme o que o vereador informa.
Em março de 2026, Carlise Kwiatkowski pediu, por meio de um requerimento com o nome completo da paciente, a antecipação de uma consulta de urologia marcada para 23 de junho na Santa Casa. Em 27 de abril, a SMS respondeu que havia contatado o hospital e que "a consulta foi adiantada para o dia 05 de maio de 2026". A resposta explica que a paciente ainda seria avaliada para, só então, entrar na fila de cirurgia.
Em agosto de 2025, a mesma vereadora perguntou, também com o nome completo e o número do Cartão SUS, qual o prazo para a cirurgia de vesícula de uma paciente com consulta de anestesia marcada para 24 de outubro. O pedido foi protocolado em 25 de agosto. Em 3 de setembro, a SMS informou que a consulta com o anestesista tinha sido feita em 29 de agosto e que a cirurgia estava prevista para 5 de setembro. A secretaria classificou o caso como eletivo, "não apresentando critérios de urgência".
Os requerimentos nominais de Da Costa também receberam respostas individualizadas, com o que o hospital informou sobre cada paciente: primeira consulta feita, retorno agendado para 30 de outubro, "fila regular" para um procedimento na coluna.
Não há nos documentos informação sobre o que motivou cada antecipação. A SMS repete nas respostas que a prioridade na fila depende de pedido formal do médico que acompanha o paciente.
Iniciais, resposta padrão
Quando o pedido chega com as iniciais do paciente, a resposta é outra.
Sobre o idoso com 2.214 pessoas à frente na fila de coluna, a SMS respondeu em maio de 2026 que o agendamento no e-Saúde é "automático, respeitando rigorosamente a ordem cronológica", e que o paciente pode acompanhar a posição pelo aplicativo Saúde Já, "por meio de senha pessoal, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados". O mesmo texto, quase palavra por palavra, respondeu ao pedido sobre o paciente na posição 1.254.
Sobre a paciente à espera de prótese nos dois joelhos no Hospital do Trabalhador, e sobre o paciente que viu sua posição recuar na fila de cabeça e pescoço do Hospital de Clínicas, a SMS alegou sigilo e LGPD. Orientou que o próprio paciente procure o hospital. No caso da prótese, a secretaria escreveu que faz "o controle administrativo e quantitativo das filas internas", mas que a prioridade e a previsão da cirurgia "são estabelecidos e conduzidos diretamente pelo próprio prestador". Não informou nenhuma quantidade.
Sobre a criança retirada da fila do Encantar, a resposta inteira da SMS, em março de 2026, foi um pedido: "Para busca em nosso sistema, solicitamos nome completo por extenso", data de nascimento e CPF.
Dados de saúde em documento público
As respostas nominais ficam anexadas ao sistema de proposições da Câmara, aberto à consulta de qualquer pessoa. Três delas trazem o nome completo e o CPF dos pacientes, ao lado da especialidade, do hospital e da etapa do tratamento. Outra traz nome e data de nascimento. O pedido sobre a cirurgia de vesícula, redigido pelo gabinete da vereadora, traz nome, data de nascimento, número do Cartão SUS e diagnóstico.
Essa exposição viola a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (Lei Federal 13.709/2018). A lei classifica como sensível todo "dado referente à saúde" vinculado a uma pessoa (art. 5º, II). O tratamento de dado sensível só é permitido nas hipóteses do art. 11, e qualquer tratamento deve se limitar "ao mínimo necessário para a realização de suas finalidades" (art. 6º, III). Informar a um vereador a data de uma consulta não exige publicar o CPF e o diagnóstico do paciente num sistema aberto.
A própria Câmara reconhece o problema pela metade. Nos requerimentos mais recentes, o sistema oculta o texto do pedido com o aviso "Dados indisponíveis temporariamente enquanto são analisadas questões relativas à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais". Os anexos com as respostas da SMS, onde estão o nome e o CPF, seguem abertos.
A SMS cita a mesma lei para negar informação quando o vereador protege o paciente com as iniciais. E responde com detalhes quando recebe o nome completo. No caso da criança retirada da fila do Encantar, foi a própria secretaria que pediu nome, data de nascimento e CPF para responder. Ou seja, o comportamento da SMS estimula vereadores e famílias a expor dados de saúde para conseguir uma resposta, em desrespeito à lei que a secretaria invoca quando não quer responder.
A fila que anda para trás
A lista pública da Prefeitura cobre consultas e exames. As filas de cirurgia ficam com os hospitais. "A lista de espera municipal refere-se às consultas eletivas", escreveu a SMS em setembro de 2025, ao responder sobre a inclusão de uma paciente na fila cirúrgica. Os prestadores "mantêm filas internas específicas para casos que evoluem com indicação de procedimento cirúrgico". Em julho de 2025, em resposta a Camilla Gonda (PSB), a secretaria acrescentou que só o Hospital de Clínicas publica a sua e que "não existe prazo máximo".
É nessas filas que os vereadores relatam posições que recuam: de 250 para 617 no ombro, no Hospital do Trabalhador; "alterações recorrentes e regressivas", segundo o pedido, na cirurgia de cabeça e pescoço do Hospital de Clínicas. A Lei Municipal 16.292, de março de 2024, obriga a divulgação das listas de espera por consultas, exames e cirurgias.
Um ano por um aparelho
Em maio de 2025, Da Costa relatou um paciente com o CPAP, aparelho para apneia do sono, aprovado havia mais de um ano e ainda não entregue. A SMS respondeu que a entrega segue a ordem de inserção e a gravidade, "conforme a disponibilidade de equipamentos", e admitiu: "No momento há demanda reprimida". Informou um aditivo ao contrato para mais 64 aparelhos. Hoje o portal registra 409 pessoas na fila do CPAP.
Nos óculos, a fila do laboratório óptico tem 9.821 inscritos, com espera de três a seis meses. Ao responder sobre um paciente que fez o exame em dezembro de 2025, a SMS admitiu que a receita pode precisar ser refeita durante a espera.
Cinco pedidos de informação sobre filas do SUS aguardam resposta. Um deles, de Matteus Henrique (PT), protocolado em 17 de agosto, pergunta o tempo de espera para consultas especializadas na rede municipal.