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Cartas para os que não voltaram

No Dia de Finados, leitores do Plural escrevem para quem a pandemia levou

Cartas para os que não voltaram
Endereçadas a familiares, as palavras que ainda se tem a dizer. Foto: Eric Rodrigues / Plural

Nesta segunda-feira (2), Dia de Finados, cemitérios de todo o país recebem flores, velas e visitas. Para muitas famílias, a data carrega também um luto marcado pela pandemia do coronavírus, com partidas repentinas e velórios restritos.

Mais de seis anos se passaram desde as primeiras mortes pela doença no país, que já soma mais de 700 mil vítimas. Em Curitiba, cerca de nove mil pessoas morreram em decorrência do vírus.

Por trás de cada número, uma história interrompida e alguém que ficou. Em memória de parte das vítimas, o Plural convidou leitores a escrever cartas para familiares que se foram. Pais e mães são os principais destinatários das mensagens. Leia a seguir.


Metade

por Luisa Mattos

Acordo e coloco logo um MPB pra começar bem o dia. Um Oswaldo Montenegro ou quem sabe um Tim Maia. As palavras “não quero dinheiro, eu só quero amar” ecoam a sua voz delicada na minha cabeça enquanto eu preparo minha mochila para sair.

É mais um dia normal: faculdade, trabalho e dança; provas, ensaio e mais algumas matérias para fechar. Tudo dentro da rotina — até a saudade.

O sol está nascendo e no ar um vento forte já anuncia que o dia vai pedir um casaquinho a mais, que você com certeza não me deixaria esquecer. É mais um daqueles dias de inverno curitibano, ensolarado e frio do jeitinho que você mais amava. Pego minhas coisas e saio correndo, já estou atrasada.

É mais um dia normal, mas por algum motivo me sinto ansiosa. Como se o tempo estivesse passando muito rápido ou como se eu esquecesse de algo muito importante, sinto meu coração palpitando cada vez mais forte.

As preocupações começam a vir à tona: prazos, provas, relatórios a fazer, coreografias para montar, visitas atrasadas e será que fechei a janela da cozinha? Será que enchi os potes de água da Luna e da Charlotte? Será que fechei a porta antes de sair? Para que tantas buzinas essa hora da manhã? Por que esse cara não coloca os fones de ouvido para escutar o vídeo no celular? O motorista vai acabar batendo nessa velocidade. Muitas informações. Muito barulho. Queria que minha cabeça parasse por alguns segundos. Sinto o coração cada vez mais acelerado e a cabeça prestes a colapsar…

Até que ela para. 

Quase sem entender, tudo fica pausado por alguns instantes. 

Silêncio, paz e uma onda de calmaria. 

Apenas um feixe de luz que reflete na janela e a brisa gelada que entrega os 10°C clássicos da capital paranaense. Sem entender como, percebo você ali. Amarela com listras simétricas pretas. Pousada logo ali, no banco da frente, como quem pede licença para entrar e dá os primeiros passos com todo cuidado. Como quem diz “vai dar tudo certo” apenas com um olhar. Como quem dá abrigo sem precisar ter um teto.

Acho que mais ninguém notou que você chegou - o ônibus continua lotado, barulhento e rápido. Mas tudo muda para mim. Sinto uma gota escapar dos meus olhos. Você está aqui. Você e eu, e mais ninguém. Por alguns segundos observo você — e apenas você. E me lembro de quem eu sou. Vejo você se aproximar, bater suas asas, dar uma volta e sair. Como se deixasse um recado de que tudo passa. E de que você está ali comigo. São apenas 5 ou 6 segundos, mas duram cerca de uma eternidade para mim. Em um sinal, que, para os mais céticos, pode ser apenas biológico, mas é a certeza de que vou ficar bem pelo resto do dia, e de que fui amada por toda a minha vida.

Me lembro de quem eu sou.

E de tudo que sou por causa de você, e também de tudo que eu sou porque não tenho mais você aqui. 

Eu ainda procuro sinais nas estrelas, arte em toda movimentação e aconchego no pão francês quentinho às 6 da tarde. Eu ainda gosto de chorar em cada detalhe, sentir seu abraço ao colocar os pés no mar e enxergar beleza nas coisas mais simples, porque significa que ainda te vejo em tudo.

Admirar álbuns de foto, colecionar cartões postais e gritar para o mundo que o amor é sim possível. Talvez eu seja esperançosa demais, ou eu talvez apenas tenha sido alguém que amou e foi amada intensamente, assim mesmo, com todas as palavras.

Não sei quantas borboletas ainda vão cruzar o meu caminho, mas sei que se a saudade é o azar de quem teve sorte, tenho a certeza de ser a mais sortuda desse universo. Sinto saudades em uma terça-feira qualquer. Em aniversários, datas importantes e eventos, é claro. Mas te vejo principalmente em detalhes. E continuo te amando em tudo. “Porque metade de mim é partida. Mas a outra metade é saudade ; [...] E metade de mim é amor. E a outra metade… também”.

Eu te amo para sempre, mãe.

Deisi, mãe da Luisa. Imagem: acervo pessoal

PAI, MÃE, O LULA VENCEU!

por Antonio Thadeu Wojciechowski

Por aqui, estava tudo meio down, com um miliciano, filho do cara que matou vocês, quase assumindo a presidência do Brasil. Mas, como vocês me ensinaram, o brasileiro não pode ser explicado, é uma força viva da natureza. Ele se reinventa.

Após a derrota de Lula no primeiro turno, de repente, os estudantes se levantaram e um exército se formou, das ruas para as plataformas, das plataformas para o coração da nação, um grito ecoou. Forte, sentido, saído da alma de todos que acreditam que o amor é o cimento que constrói e solidifica o futuro.

As ruas se coloriram, disseram não ao fascismo, à intolerância em todas as suas facetas, ao mau-caratismo, cobiça, entreguismo lesa-pátria. O Brasil se levantou, mãe. O Brasil não baixou a cabeça, pai. O Lula venceu. Está tudo bem agora, mas que saudade de vocês!

Luiza e Tadeu, pais de Antonio. Imagem: acervo pessoal

Cinco anos sem você, pai: a saudade que virou luta

por Giovana Pasqualin

Pai,

Já faz cinco anos que você se foi. Cinco anos. Porque não teve vacina.

Faz cinco anos que um governo genocida te levou. Um governo que escolheu lucrar com as vacinas enquanto fazia piada com a vida de quem estava morrendo. Às vezes, ainda é difícil acreditar que você não está mais aqui. É difícil aceitar que alguém que lutou tanto pela democracia tenha perdido a vida justamente por causa de um governo que desprezou a vida e a democracia.

Dói muito, pai. Dói de um jeito que eu nem sei explicar.

As melhores fotos que tenho suas são em espaços políticos. As melhores lembranças que guardo de nós dois são em comícios, lançamentos de campanha, atos e manifestações. Quando penso na nossa história, é nesses lugares que encontro você: lutando, acreditando, me ensinando, mesmo sem perceber, o que significava dedicar a vida a alguma coisa em que se acredita.

E dói porque essa continua sendo a minha vida. Eu sigo fazendo tudo aquilo que você me ensinou, mas agora sozinha. Ou, pelo menos, é assim que parece.

Você era professor de Sociologia, pai. Hoje, eu faço Ciências Sociais na mesma universidade que você: a Universidade Federal do Paraná. Todos os dias, quando entro pela porta da Reitoria, imagino que, há alguns bons anos, você também passava por ali, fazendo a sua luta, construindo a sua história. E eu fico pensando em como é estranho e bonito estar, tantos anos depois, começando um caminho que, de alguma forma, você já tinha aberto para mim.

Às vezes, parece que estou caminhando pelos mesmos lugares que você, tentando entender o mundo pelas mesmas perguntas, aprendendo a enxergar as coisas que você me ensinou a enxergar.

E tenho uma certeza, pai: eu não esqueci nenhum dos seus ensinamentos. Nenhum.

Vou passar o resto da minha vida tentando honrar tudo o que aprendi com você. Vou continuar lutando para que os responsáveis pelas mortes na pandemia sejam responsabilizados, para que a nossa história não seja apagada e para que o fascismo nunca mais tenha espaço no nosso país. Não porque seja fácil, nem porque eu não sinta medo ou cansaço, mas porque foi você quem me ensinou que a gente não pode desistir de lutar por aquilo em que acredita.

Hoje, tenho vários professores de Sociologia, pai. Vários. E, às vezes, me pergunto se não estou procurando um pouco de você em cada um deles. Talvez eu ainda esteja tentando te reencontrar. Procuro você nos livros, nas salas de aula, nas conversas sobre política, nas perguntas que faço e nas respostas que ainda não encontrei.

E, de alguma forma, você está em todo lugar.

Está na universidade onde estudo, nos espaços políticos que continuo ocupando, nas lutas que escolhi travar e na esperança, que às vezes parece tão difícil de sustentar, de que a gente ainda vai construir um país melhor.

Está também nas coisas que eu gostaria de te contar. Nas vezes em que queria chegar em casa e dividir com você alguma coisa que aprendi, uma discussão que tive, uma conquista ou até uma dúvida. Nas vezes em que queria ouvir o que você pensaria sobre tudo o que está acontecendo. Em todos esses momentos, sinto falta de ter você aqui.

Eu queria que você pudesse me ver agora. Queria que pudesse acompanhar a minha trajetória, conhecer os lugares que ocupo, ouvir as coisas que tenho a dizer. Queria poder te contar que continuo aqui, pai. Que sigo tentando. Que, mesmo com toda a saudade, não abandonei nada daquilo que você me ensinou a defender.

Eu queria muito que você estivesse aqui.

Mas, já que não posso mais te encontrar no fim do dia, nas conversas ou nos abraços, sigo te procurando naquilo que você deixou em mim. E acho que é assim que vou continuar te encontrando pelo resto da vida.

Eu te amo para sempre, pai. E, enquanto eu existir, o seu legado estará vivo. Nas minhas escolhas, nas minhas lutas, na minha maneira de olhar para o mundo e na certeza de que uma vida dedicada à construção de um país mais justo nunca é uma vida perdida.

Você se foi há cinco anos. E eu ainda sinto a sua falta todos os dias.

Mas continuo aqui. Fazendo o que você me ensinou a fazer. Pela nossa família.

Giovana e seu pai, Celso. Imagem: acervo pessoal

Dois dedos de prosa, uma Duplo Malte e você

por Francis Rosa

Ois, guria! Como estão as coisas por aí?

Por aqui, os dias andam meio cinzentos... Ainda sinto tanta falta das suas mensagens noturnas, me passando aquele relatório de como tinha sido o seu dia e dizendo que só desejava um croissant de chocolate. Sinto saudade até das blusinhas de unicórnio que você sempre separava para mim porque, como você mesma dizia, eu precisava de alguma coisa para "ser menininha".

Não consigo apagar a sua última mensagem. Aquela em que você disse que seria intubada e que, assim que saísse do hospital, queria que eu estivesse te esperando na porta com um croissant de chocolate e aquela Duplo Malte bem geladinha. Ironicamente, quando recebi a ligação avisando da sua partida, eu estava tomando uma Duplo Malte enquanto arrumava os cachinhos da sua gatinha — logo no dia em que ela faria o book de 6 anos de vida.

Aquela sexta-feira chuvosa, a casa toda bagunçada, cheia de glitter e roupas coloridas... bem do jeitinho que você gostava. A casa cheia de vida! Foi ali que entendi o significado do verso de Galldino em sua canção mais sensível: “O cacho de morte amadurece no pé de vida”.

Ah, a vacina foi liberada para nós, professores, apenas um mês depois da sua partida. Você se foi, o seu cacho amadureceu, mas a árvore da vida continuou seguindo. Seus meninos cresceram. Aprendi fazer guacamole e usar a panela de pressão sem explodir a casa. Eu casei de verdade no dia 13 de agosto de 2022 — e não, não tem ironia na data!

Por aqui, continuamos na luta. Está cada vez mais difícil ser resistência nesse ambiente hostil que se tornou o chão da escola. Toda vez que preciso de forças, visto a camiseta que você me deu no nosso último Natal juntas: “LUTE COMO UMA GAROTA”. E eu continuo lutando. Nós continuamos lutando. Mas faz tanta falta a sua risada alta em nossas mobilizações... Faz falta dividir a cadeira contigo, fazermos turbantes ou apenas sentarmos no porta-malas do carro para tomar uma Coquinha Zero e falar asneiras.

Você aparece nos meus pensamentos todos os dias. Às vezes quando conversamos sobre quem perdemos para essa maldita doença e para o negacionismo escancarado; às vezes quando chego na casa dos meus pais e tem Duplo Malte para tomarmos; ou quando estou arrumando os cachinhos da Magrela.

Espero que você tenha encontrado a tia Luiza aí em cima. Ela foi a melhor costureira do mundo, com certeza vai fazer a sua fantasia de Paquita!

Continue sendo luz, sendo cor, purpurina e salto alto. E, se tiver um tempinho, olhe por nós aqui embaixo.

Com muita saudade, mas eternamente grata por ter respirado o mesmo ar que você.

Te amo.

Leize, vestida de rosa. Imagem: acervo pessoal

Despedida que deixou um vazio

por Andressa O. Silva

Querido pai Aparecido,

Hoje parei um pouco para olhar para o céu e pensar em você. Já se passaram alguns anos desde aquele 21 de janeiro de 2021, o dia em que o mundo perdeu um pouco do seu brilho para mim e você nos deixou, levado por aquela onda dolorosa da Covid.

Desde o momento em que você deu entrada no Hospital Sugisawa, minha rotina virou uma espera silenciosa e agoniante. Todos os dias, o meu mundo parava enquanto eu aguardava a ligação da enfermeira. Aqueles telefonemas que traziam o boletim do seu estado no dia anterior eram um misto de alegria e ansiedade que me consumia por dentro.

Tinha dias em que o coração se enchia de esperança com a notícia de uma evolução, de uma melhora no seu quadro. Mas, logo no dia seguinte, o chão sumia novamente com a notícia de uma piora.

Viver aquele carrossel de emoções, sem poder estar ao seu lado, pesando que você estava sozinho naquela UTI, foi uma das provações mais difíceis da minha vida.

Aquele período foi cercado de incertezas, medos e de uma despedida que nenhum de nós estava pronto para vivenciar. Nunca pensei em me preparar para uma situação dessas, em plena madrugada tendo que escolher o caixão, as flores e a última roupa que meu pai usaria, mas quem pensa em se preparar para isso?!

A saudade que ficou não é daquelas que diminui com o tempo; ela apenas se acomoda no peito, virando parte de quem eu sou hoje. Sinto falta dos seus conselhos, do som da sua voz, do seu abraço e da segurança que só a presença de um pai consegue passar.

Apesar da dor da sua partida repentina, o que escolho carregar comigo todos os dias é o seu legado.

Sei que tivemos nossas divergências, mas sou grata a Deus por termos nos entendido a tempo, mas ainda assim ficou a falta de mais abraços e mais conversas entre pai e filha.

Fico com a lembrança do seu sorriso, dos seus ensinamentos e da força e a simplicidade que você sempre demonstrou. Você continua vivo em cada escolha que faço, em cada valor que protejo e nas lembranças que o tempo jamais vai conseguir apagar.

Espero que, onde quer que você esteja, sinta o tamanho do meu amor e do meu orgulho por ter sido sua filha.

Você combateu o bom combate, e a sua história continua viva em mim.

Com todo o meu amor e uma eterna saudade.

Andressa e seu pai, Aparecido. Imagem: arquivo pessoal

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Eric Rodrigues

Eric Rodrigues

Repórter, fotojornalista e documentarista. Mestrando em comunicação na UFPR. Participante do 15º Curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Autor de "Comadre São".

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