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Em nome das mães, fé em Aparecida

Diante do risco de perder a filha, mãe recorre à padroeira do Brasil

Em nome das mães, fé em Aparecida
Imagem de Nossa Senhora Aparecida exposta no Santuário Nacional é, segundo a Igreja, a mesma encontrada por pescadores no rio Paraíba do Sul, em 1717. Foto: Thiago Leon / Santuário Nacional
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Para milhares de brasileiros, o dia 12 de outubro é dedicado a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Para a professora Fabiana Teodoro, de 43 anos, e sua família, a data reúne histórias marcadas por reviravoltas, reencontros e devoção. Foi nesse dia, há 23 anos, que conheceu Hércules, também de 43 anos, com quem se casou. Dessa união vieram três filhos: Ana Beatriz, de 20 anos, Clara, de 16, e Lucas, de 8.

Em seu testemunho, Fabiana compartilha a crença e o sentimento de que Nossa Senhora Aparecida intercedeu na família quando a esperança foi colocada em teste. “Vou começar [a contar]. Pode ser que venha um nozinho na garganta. Quando a gente fala, a gente começa a lembrar de tudo que passou”, relata.

Clara, a filha do meio, tinha 9 anos em 2019. Já havia sido diagnosticada com asma. Em abril daquele ano, Fabiana foi buscá-la na escola e percebeu que a menina chiava mais do que o habitual. Nem a bombinha amenizava os sintomas. Foi necessário recorrer à inalação para ajudá-la a respirar.

Quinze dias depois, por volta da meia-noite, a filha teve outra crise, ainda mais severa. A família foi o mais rápido possível à UPA do Campo Comprido. Na triagem, o estado da menina foi considerado grave, e ela recebeu prioridade no atendimento.

“Ela sentia falta de ar, estava delirando. Via bicho em cima da cama, dentro do carro. Via a pessoa na rua [...] Ela estava roxa porque não conseguia respirar”, conta a mãe. Naquela noite, nada parecia ajudá-la a melhorar. Pelo contrário, seu estado piorava.

Na manhã seguinte, perto do meio-dia, recebeu a notícia de que a filha precisava ser intubada com urgência enquanto aguardava uma vaga em uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

Segundo a mãe, a equipe médica alertou que o pior poderia acontecer se nenhuma intervenção fosse realizada em até dez minutos. Clara foi encaminhada para o procedimento e, posteriormente, conseguiu uma vaga para receber cuidados intensivos no Hospital Angelina Caron — alta complexidade em Campina Grande do Sul, região metropolitana de Curitiba.

Não houve melhora nos dias seguintes. Fabiana conta que a filha passou uma semana sob observação contínua no leito e que, diariamente, ouvia os médicos falarem em “reversão impossível”. A doença havia comprometido os dois pulmões.

Às sete horas da manhã de 19 de abril de 2019, a mãe entrou em uma capela do hospital para rezar. Decidiu entregar a filha à fé, a Deus e a Nossa Senhora Aparecida. “A partir de agora, a Clara é de vocês. Levem-na, se for necessário. Mas, se for para deixá-la comigo, deixem-na com saúde”, rezou.

O telefone tocou sete horas depois. Do outro lado da linha estava sua cunhada, que acompanhava a sobrinha na UTI. Antes de atender, Fabiana imaginou as diferentes maneiras pelas quais receberia a notícia da morte. Quando atendeu, soube que filha havia despertado do coma. A mãe comenta que nenhum médico conseguiu explicar a reviravolta e que os próprios enfermeiros diziam que “ela era um milagre”. Os procedimentos para a alta médica começaram em seguida.

A situação da filha mudou o rumo da vida da família e reaproximou todos da religião. “Eu já nem tinha mais fé”, afirma. No fim do ano passado, Clara se consagrou a Nossa Senhora e passou a tocar na paróquia. A própria filha comenta que sua vocação é ser freira.

Antes de tudo isso acontecer, Fabiana cresceu na Igreja Católica, na Vila Sandra, mas se afastou em alguns períodos. Admite que, durante um tempo, sentiu que sua fé não era recompensada. “A gente pensa: 'Aquele fulano que não vai na igreja, a vida dele é tão boa; e eu, que estou indo e fazendo tudo certinho, vivendo tudo de perna para o ar'. Só que hoje eu entendo que tudo é um processo”, compartilha.

Devota de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil desde 1930, a matriarca prefere não dar espaço à intolerância religiosa nem aos ataques que a santa recebeu nos últimos anos. Convive com pessoas de diversas crenças e defende que cada pessoa deve ter liberdade para expressar sua devoção, sem desrespeitar a crença alheia.

“Eu sou devota de Nossa Senhora até morrer. Não adianta. Podem falar qualquer coisa dela para mim, que é mentira, que não é uma santa, que é um pedaço de gesso. O que ela fez na minha vida e na vida da minha filha, a minha visão não vai mudar de jeito nenhum”, afirma.

Em uma das conversas com a filha, Fabiana havia prometido levá-la à Basílica Histórica de Nossa Senhora Aparecida, no município de Aparecida, no interior de São Paulo, a cerca de 600 quilômetros de Curitiba. Cumpriu a promessa em 2024. Além delas, milhares de fiéis visitam a cidade todos os anos para agradecer por graças alcançadas, fazer pedidos e cumprir promessas.

Diante da imagem da santa, a mãe orou em voz alta: “Assim como eu havia prometido, eu trouxe a tua filha para tua casa”. “Mãe, a missão foi completa”, respondeu Clara.

Fabiana Teodoro (de amarelo) e sua família. Imagem/Reprodução: Arquivo Pessoal

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Eric Rodrigues

Eric Rodrigues

Repórter, fotojornalista e documentarista. Mestrando em comunicação na UFPR. Participante do 15º Curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Autor de "Comadre São".

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