As 11 escolas municipais de Curitiba que poderão ser transformadas em cívico-militares têm, nos Anos Finais do Ensino Fundamental, desempenho acima da média das próprias escolas estaduais do Paraná — a rede em que o programa já existe e a partir da qual a Câmara Municipal se inspirou para propor o modelo na cidade.
No Ideb de 2023, as 9 dessas escolas com resultado computado para o 6º ao 9º ano registraram média de 5,6. A rede estadual paranaense — com 1.661 escolas na mesma etapa — ficou em 5,4. As estaduais de Curitiba, especificamente, tiveram média de 5,38. Em outras palavras, 62% das escolas estaduais do Paraná ficaram abaixo do patamar médio das municipais que a Câmara de Curitiba quer transformar em cívico-militares.
A Câmara Municipal de Curitiba aprovou, em junho de 2026, um projeto de lei que cria diretrizes para a implantação de Escolas Cívico-Militares na rede pública municipal. O texto foca no Ensino Fundamental do 6º ao 9º ano — e, como só existem 11 escolas municipais em Curitiba que oferecem essa etapa, elas são o único universo possível do programa.
São elas: EM Albert Schweitzer, EM B Novo Caic Guilherme L. B. Sobrinho, EM Cândido Portinari (CAIC), EM Cel. Durival Britto e Silva, EM Prof. Erasmo Pilotto, EM Prof. Herley Mehl, EM Papa João XXIII, EM Julia A. Di Lenna, EM Maria Clara B. Tesserolli, EM Pref. Omar Sabbag e EM São Miguel.
Quem são os alunos dessas escolas
O Índice de Nível Socioeconômico (INSE), calculado pelo INEP a partir de dados do Saeb, situa essas 11 escolas em torno de 5,6 — a média das unidades é 5,58. Nessa faixa, segundo a própria metodologia do INEP, os estudantes pertencem, em média, a famílias cuja renda mensal gira em torno de 3 a 5 salários mínimos, cujos pais têm escolaridade média ou superior e cujas residências costumam dispor de bens de consumo duráveis como carro, computador e acesso à internet. Não é o perfil das famílias mais vulneráveis da cidade.
O próprio projeto de lei aprovado pela Câmara estabelece que a seleção das escolas deverá considerar "índices de vulnerabilidade social da comunidade escolar, visando priorizar as regiões que mais necessitam de apoio" — critério que, pelos dados do INEP, não é atendido por esse grupo de escolas.
Desempenho: reprovação zero, abandono quase zero
Além do Ideb acima da média estadual, os indicadores de fluxo reforçam o quadro: dez das 11 escolas tiveram taxa de reprovação de 0% nos Anos Finais em 2023. A taxa de abandono foi zero ou próxima de zero em quase todas; a exceção foi o CAIC Cândido Portinari, com 2%, o menor Ideb do grupo (4,6) e a única escola entre as 11 a registrar saída relevante de alunos no meio do ano.
No ranking dos Anos Iniciais — etapa em que as 11 escolas podem ser comparadas às outras 168 unidades municipais de Curitiba —, elas ocupam posições medianas: média de Ideb 6,2 contra 6,3 das demais. Não são as piores da rede, mas tampouco estão entre as melhores — as primeiras colocadas do município chegam a 7,8.
As únicas duas com turno noturno e EJA
Entre as 11 escolas-alvo, duas são as únicas da rede municipal de Curitiba a oferecer turno noturno e Educação de Jovens e Adultos (EJA): a EM CAIC Cândido Portinari, com 36 alunos matriculados no EJA, e a EM Papa João XXIII, com 22.
A presença de EJA e noturno é relevante por um precedente documentado na rede estadual do Paraná: a implantação de escolas cívico-militares pelo Governo do Estado foi seguida pela redução significativa de vagas do ensino noturno e da EJA, reduzindo os índices de reprovação e impulsionando artificialmente as notas dessas escolas nos índices oficiais.
A Plural mostrou como a exclusão afetou 12,4 mil estudantes (leia aqui) e como o aumento artificial da aprovação mascarou desempenho acadêmico fraco (leia aqui). Se a mesma lógica for adotada em Curitiba, as duas escolas municipais com EJA seriam as mais diretamente afetadas por essa distorção.
O que a pandemia ainda esconde nos números
Os dados do Ideb de 2021 e 2023 precisam ser lidos com cautela. As avaliações do Saeb — base do Ideb — foram profundamente afetadas pela pandemia de Covid-19: em 2021, várias das 11 escolas nem chegaram a ter resultados computados pelo INEP. Em 2023, houve recuperação parcial, mas estudos nacionais indicam que o desempenho médio dos alunos brasileiros ainda não voltou ao nível pré-pandemia. A EM Herley Mehl, por exemplo, tinha Ideb AF de 6,0 em 2019 e fechou 2023 em 5,7. A EM Julia Di Lenna saiu de 5,6 em 2019 para 5,3 em 2021 e recuperou 5,7 em 2023 — trajetória que ainda não atingiu o patamar de antes da crise sanitária. O cenário nacional de aprendizagem prejudicada pela pandemia é o pano de fundo sobre o qual o desempenho dessas escolas deve ser avaliado.
Quase 4 mil crianças de 6 a 11 anos no meio
O programa aprovado pela Câmara declara focar nos alunos do 6º ao 9º ano. Mas essas 11 escolas também recebem turmas do 1º ao 5º ano, com crianças de 6 a 11 anos. São 3.727 alunos de Anos Iniciais nos mesmos prédios que passariam a ter gestão com componente cívico-militar — sem que a lei mencione esse segmento.
Somados os dois grupos, as 11 unidades reúnem hoje 7.844 alunos matriculados, segundo o Censo Escolar 2023. O maior complexo é o CAIC Cândido Portinari, com 1.255 alunos — 636 deles nos Anos Iniciais.
O projeto aguarda sanção ou veto do prefeito.
Fontes: INEP — Ideb 2023, Censo Escolar 2023, INSE/Saeb 2023, Taxas de Rendimento 2023. Projeto de Lei Ordinária 005.00149.2025 — Câmara Municipal de Curitiba.