Quando ainda estava na corrida pela candidatura à presidência, o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD) tinha como uma de suas principais peças de propaganda o desempenho da rede estadual de ensino no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). No Ideb do Ensino Médio da rede estadual, o índice saiu de 3,7 em 2017 para 4,4 em 2019, chegou a 4,6 em 2021 e a 4,7 em 2023 — desempenho que levou o Estado ao 1º lugar entre as redes estaduais em 2021 e ao 2º em 2023.
A realidade dos dados, porém, mostram que o avanço do Ideb depois de 2019 veio quase inteiramente do aumento da aprovação de alunos, e não de estudantes aprendendo mais.

A nota empacou. A aprovação disparou.
O Ideb é o produto de duas coisas: o quanto os estudantes aprendem (medido pelas notas de Português e Matemática no Saeb) e o quanto a rede aprova (a taxa de rendimento). Separando essas peças nas escolas estaduais paranaenses, a conta fica clara.
As notas pararam. Em Matemática, a média das escolas estaduais caiu de 280,8 em 2019 para 278,0 em 2023. Em Português, subiu de 281,0 para 283,8 — menos de três pontos numa escala que vai a centenas. Em termos de proficiência, a rede está praticamente onde estava em 2019.
A taxa de aprovação, ao contrário, não parou de subir. Foi de 80,1% em 2017 para 89,0% em 2019 e chegou a 96,9% em 2023. Ou seja: o ganho do Ideb que sustentou a liderança paranaense depois de 2019 foi produzido por mais alunos sendo aprovados — não por mais alunos aprendendo. Em 2023, a rede aprovava praticamente todos os estudantes do Ensino Médio.
O turno da noite encolheu pela metade

Há uma mudança estrutural por trás desse salto de aprovação: o desaparecimento do Ensino Médio noturno na rede estadual. O turno da noite é onde historicamente se concentram os estudantes que trabalham, os mais velhos, os que estão fora da idade certa — exatamente os perfis com maior probabilidade de reprovar ou abandonar, e que mais pressionam para baixo as estatísticas de fluxo que alimentam o Ideb.
As matrículas no turno noturno das escolas estaduais de Ensino Médio caíram de 170 mil em 2017 para 143,8 mil em 2019 e despencaram a partir daí: 101 mil em 2021 e apenas 89 mil em 2023 — uma queda de 38% em relação a 2019 e de quase 48% em relação a 2017. Em 2025, restaram 69 mil.
O peso da noite na rede encolheu na mesma proporção: o turno noturno respondia por 19% das matrículas em 2017, caiu para 17% em 2019, 11% em 2023 e 9% em 2025. No sentido inverso, as matrículas em tempo integral — o turno mais "selecionado" da rede — mais que triplicaram no período. A rede estadual, na prática, transferiu seu Ensino Médio para o dia e para o tempo integral e esvaziou a noite.
Os dois movimentos se encaixam. Ao reduzir o turno onde se concentram os alunos mais frágeis e, ao mesmo tempo, aprovar 97 de cada 100 estudantes do ensino regular, a rede limpa justamente a parte da estatística que puxava o Ideb para baixo. O recorde paranaense recente é, antes de tudo, uma conta de fluxo.
O que os números mostram — e o que não mostram
É preciso rigor. A redução do turno da noite e o salto da aprovação são fatos medidos pelos próprios dados do INEP; a leitura de que um ajuda a explicar o outro é uma interpretação consistente com os números.
Vale uma ressalva sobre a série: a estatística de matrícula noturna disponível por ano abrange todas as etapas das escolas estaduais de Ensino Médio (Ensino Médio regular mais a EJA noturna). Em 2025, único ano com separação detalhada, o Ensino Médio regular respondia por 51,5 mil das 69 mil matrículas da noite. A tendência de queda, porém, é a mesma em qualquer recorte. Há também a ressalva de cobertura nas notas: o número de escolas estaduais com Ideb de Ensino Médio medido cresceu no período, o que altera a composição das médias; o valor oficial da rede (3,7 → 4,7) é do próprio INEP e não muda a conclusão central — o ganho recente é de aprovação, não de proficiência.
Metodologia: os valores do Ideb do Ensino Médio da rede estadual (3,7; 4,4; 4,6; 4,7) são os oficiais do INEP. As notas de Português e Matemática e a taxa de aprovação são médias entre as escolas estaduais paranaenses com Ideb de Ensino Médio medido em cada edição (Microdados do Censo Escolar/INEP). As matrículas do Ensino Médio e do turno noturno da rede estadual provêm de tabulação por turno do Censo Escolar (INEP), de 2014 a 2025. Elaboração: Plural.