A mensagem chegou no meio do recesso escolar de julho: um aviso breve da direção orientando os professores a checarem o e-mail institucional. Sem diálogo prévio ou justificativa pedagógica, a Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed) comunicava o fechamento de turmas consideradas "pequenas" no estado. Entre elas, o 6º ano C do Colégio Cívico-Militar Padre João Wislinski, na região norte de Curitiba.
A turma abrigava 20 estudantes matriculados. Desse grupo, cinco possuíam laudos médicos atestando neurodivergências (como autismo, TDAH e Deficiência Intelectual), e outros estavam em processo de avaliação. A decisão da Seed de extinguir a sala e espalhar os adolescentes por outras turmas maiores atingiu o que especialistas chamam de rede de apoio inclusiva. Para a professora de História, Lígia Bacarin, a medida gerou um cenário de desolação entre os docentes e de extrema insegurança para o futuro das crianças.
"Os alunos não se tornaram menos capazes de aprender porque foram redirecionados a outra turma. O ambiente é que se tornou menos capaz de ensiná-los. Essa deficiência situacional foi criada pela própria Secretaria de Educação", desabafa a docente, que é também especialista em Educação Especial.

Na contramão do Conselho de Educação
A justificativa de que a turma era "muito pequena" para ser mantida esbarra nas próprias diretrizes estaduais. O fechamento da sala ignora orientações do Conselho Estadual de Educação, que recomenda que turmas com a presença de alunos neurodivergentes sejam realmente menores. Esse limite é considerado fundamental para que os professores consigam aplicar o Desenho Universal da Aprendizagem (DUA), uma metodologia cobrada pela própria Seed nas avaliações de desempenho docente, focada em adaptar o ensino às múltiplas formas de aprendizado.
Com o desmanche do 6º ano C, os estudantes laudados foram transferidos para outra turma. "Em uma sala cheia, com a agitação natural, esses estudantes entram em sobrecarga. Há uma desorganização cerebral enorme", explica Lígia. Ela relata que, em pequenos grupos, era possível prever crises e acalmar os alunos rapidamente. O prejuízo prático é imediato. A professora cita o caso de um aluno, ainda sem laudo fechado, com dificuldades cognitivas e motoras. "Ele não consegue escrever de forma legível em uma velocidade normal. Na turma menor, eu o colocava sentado na minha mesa e conseguia acompanhá-lo. Agora, perdido no meio de uma sala cheia, ele se abre para a indisciplina e perde o foco. O Plano Educacional Individualizado (PEI) deixa de ser um documento vivo."

Período de transição
Para além das questões do laudo, o momento escolar torna a medida ainda mais grave. O 6º ano é um período de ruptura e transição: os alunos saem da estrutura do Ensino Fundamental I, no qual tinham apenas uma professora generalista, e passam a lidar com a fragmentação de múltiplas disciplinas e docentes diferentes.
Nessa fase, explica a professora, a escola precisa ensinar a "autonomia escolar". O desafio torna-se ainda maior diante do perfil comportamental dos adolescentes de hoje. "É uma geração que possui uma imensa dificuldade de concentração, com uma carga brutal de informações das redes sociais. É uma geração que não se escuta. Nós precisamos ensiná-los a baixar a adrenalina, a ter escuta ativa, a combater preconceitos e a conviver", analisa.
Para que isso aconteça, a escola depende do chamado "olhar adaptativo". Em uma turma reduzida, o professor consegue equilibrar as adaptações para os estudantes neurodivergentes enquanto contempla e engaja os alunos típicos. Em uma sala com 35 alunos, essa mediação entra em colapso. "A gente precisa primeiro sociabilizá-los. Quando a gente interrompe o processo no momento em que ele começava a fazer sentido, o que ocorre não é uma inclusão, é uma diluição da experiência de aprendizagem", define Lígia.
Maquiagem dos números
O fechamento de turmas alterar dados e o remanejamento forçado de alunos convergem para uma crítica central feita por educadores à atual gestão da Seed: a transformação da educação em um modelo puramente mercadológico e voltado a resultados estatísticos irreais. Essa situação vem sendo destacada no Plural.
Esse foco em plataformas e índices afeta a estrutura física e pedagógica. No colégio onde Lígia leciona, a biblioteca foi desmontada. "Retiraram as estantes e os livros e colocaram carteiras com tablets fixos. Os professores são obrigados a acessar essas plataformas, indo na contramão do que o mundo todo diz sobre o excesso de telas", relata.

Impacto nos educadores
Além do prejuízo pedagógico, o fechamento de turmas no meio do ano desestabilizou o corpo docente, formado majoritariamente por profissionais contratados via Processo Seletivo Simplificado (PSS). Sem aviso prévio, professores perderam parte de sua carga horária e, consequentemente, de seus salários. O resultado foi uma corrida em processos de distribuição de aulas, forçando profissionais a se dividirem em três ou mais escolas diferentes.
Para Lígia, ao tratar a educação como estatística, o estado retira da escola pública sua função social mais básica: a construção de identidades. "Quando você não possibilita um espaço onde o diferente é acolhido, você está tirando desse estudante neurodivergente a possibilidade de aprender a agir no mundo. O que sobra é apenas o adestramento da classe trabalhadora para não reclamar da precarização da vida", conclui.

