Para enxergar o mundo pelos olhos de Diana Carneiro é preciso prestar atenção nos detalhes. Onde a maioria das pessoas enxerga apenas um cipó retorcido ou uma flor no quintal, ela encontra uma cartografia complexa de nervuras, texturas e proporções matemáticas. Reconhecida dentro e fora do Brasil por transformar a pesquisa acadêmica em arte, a ilustradora tem a missão de eternizar a natureza em seus traços precisos.
Quando se observa o nível de detalhe e a beleza quase poética das pranchas botânicas, é comum que a primeira palavra que venha à mente seja "talento". Longe de romantizar a própria trajetória apenas como um dom, ela enxerga a própria profissão como fruto de estímulo, de muito estudo e de uma vontade de apresentar as belezas da ciência para o mundo.
Com quase 30 anos dedicados exclusivamente à ilustração, após atuar por 25 anos como professora de biologia, seu trabalho se divide em duas grandes vertentes: a ilustração literária e de divulgação científica, voltada para o público geral, e a rigorosa ilustração acadêmica, que acompanha teses, artigos e a descrição de novas espécies.
O método por trás da arte
As tardes de produção são uma verdadeira imersão nas espécies. Diana vai atrás de imagens, estudos, produções acadêmicas, desenhos antigos, criando inclusive uma pasta no computador para cada pedido, tudo parte de uma grande pesquisa para representar com precisão. A ilustração acadêmica exige um rigor extremo e possui um código a ser seguido. Observando materiais desidratados ou fragmentos minúsculos através de uma lupa, Diana precisa representar estruturas microscópicas e cortes precisos. “A descrição do texto me ajuda tanto quanto se eu tivesse a planta na minha frente", ressalta. Ela relata episódios em que precisou recorrer a ilustrações botânicas feitas nos anos 1800 para compreender a estrutura de uma planta e adaptá-la à necessidade do cientista atual.
Apesar das exigências técnicas, o que move a artista não é a repetição mecânica. Diante da pergunta frequente sobre como consegue ter tanta paciência para traços tão minuciosos, sua resposta revela a alma de seu ofício: "Não é questão de paciência. É questão de deslumbramento. Eu fico tão animada de poder explicar para o outro que não está vendo a planta, como é que ela é através de uma expressão gráfica."
Frutos na botânica
O compromisso de Diana em "juntar a fome com a vontade de comer", como ela mesma diz, ou seja, unir a necessidade do pesquisador com a sua ânsia por investigar profundamente a botânica, rendeu frutos em sua carreira.
Um dos grandes marcos foi o cobiçado Prêmio Jabuti, conquistado em 2001 pela obra "Capsicum: Pimentas e Pimentões no Brasil", resultado de mais de duas décadas de pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O livro, premiado pelo conjunto de pesquisa, fotografia e ilustração, contou com a arte cuidadosa de Diana. "A gente vai trabalhando em função de uma necessidade de atender um cliente. A gente não trabalha porque 'ah, vou querer ser premiada', isso é viagem. Então, quando chega uma premiação assim, você fala: 'Meu Deus, mas que coisa maravilhosa!'", celebra.

Além do Jabuti, Diana já foi reconhecida com o que é considerado o "Oscar" da ilustração botânica acadêmica, concedido pela prestigiada Linnean Society de Londres.

Miconia dianae

Esse nome científico é na verdade uma homenagem. Após produzir mais de 60 ilustrações para uma equipe que estudava a família botânica Melastomataceae, os cientistas decidiram homenageá-la. Ao ler o documento oficial da etimologia da nova espécie, Diana descobriu que os pesquisadores a declararam "uma especialista tanto quanto nós somos". "Foi um presentão! A carreira me deu grandes alegrias", relembra emocionada. A Miconia dianae compartilha outro detalhe em comum com Diana: a origem. Ambas são da Bahia, mas a ilustradora já chama Curitiba de casa há quatro décadas.

O humano, a ciência e a inteligência artificial
Em um momento em que tecnologias geradoras de imagem avançam, muitos questionam o futuro da ilustração. Para Diana, contudo, a inteligência artificial (IA) tem um limite muito claro quando se trata da pesquisa científica de ponta."A IA trabalha com banco de dados. Na pesquisa científica, é tudo novo", argumenta a ilustradora. Ela descreve o cenário em que um pesquisador vai a campo, passa anos estudando um bioma e descobre um ser vivo até então desconhecido pela ciência. "Quando ele procura a gente para fazer a ilustração, eu não tenho onde procurar. O que a IA me ajudaria? Se não é o pesquisador, eu estou sozinha no espaço. É eu e ele. Um falando, me contando o que viu, e eu dando forma visual àquele ser novo. Não tenho medo da IA por causa disso, ela não resolve nossos problemas."
Na casa de Diana até o chazinho da tarde tem história com a Biologia. Ela não trouxe para a mesa uma geleia de morango ou um doce de leite, o que passou no pão foi geleia de tamarilho, fruto originário dos Andes, o Solanum betaceum, o que obviamente foi Diana que contou. Com gosto que mistura tomate, maracujá e goiaba, sintetiza muito do tato da ilustradora, reconhecendo não só os detalhes técnicos, mas a beleza, a delicadeza e as nuances da natureza.

Com pranchas já agendadas para os próximos meses e anos, Diana Carneiro segue fazendo o que mais ama: ser a ponte visual entre a descoberta do cientista e os olhos do mundo. "Eu nunca quis ser pesquisadora. Eu adoro ser somente ilustradora. Eu estou do lado de cá da ciência, observando o trabalho, e o texto do pesquisador me dá as referências para me expressar. Cada um no seu cercado", conclui, com a serenidade de quem encontrou, nos detalhes da natureza, o seu lugar no mundo.
