Para tentar elevar a cobertura vacinal que hoje encontra-se abaixo da meta, o Paraná inicia nesta segunda-feira (3) a adesão à Campanha Nacional de Multivacinação. Dados parciais da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) apontam que a cobertura não atinge os 95% tidos como alvo pelo Ministério da Saúde. Até o mês de maio, o estado registrou adesão de 94,38% para a primeira dose e preocupantes 80,08% para a segunda aplicação.
Embora o Paraná não registre casos confirmados da doença desde 2020, o risco de reintrodução do vírus é latente. A vigilância epidemiológica estadual notificou 69 casos suspeitos ao longo de 2026. Deste total, 68 foram descartados e um permanece sob investigação.
O cenário nacional também exige cautela. O Brasil somou 38 casos confirmados no ano passado e, até o momento em 2026, contabiliza 23 ocorrências. Segundo o Ministério da Saúde, todos os registros deste ano são importados, afetando pessoas que viajaram para locais onde há transmissão ativa da doença.
Para o infectologista e coordenador do Hospital Pequeno Príncipe, Victor Horácio, ampliar a cobertura vacinal é o único caminho seguro para evitar retrocessos. Ele aponta o negacionismo em relação aos imunizantes como um dos principais obstáculos para a saúde coletiva. “Quando deixamos de vacinar, abrimos as portas para que doenças consideradas erradicadas voltem a circular.. O sarampo é extremamente contagioso e não há tratamento específico. A barreira real que temos contra ele é a imunização em massa”, complementa o especialista.
O esforço das autoridades é também justamente para proteger um título importante, reconquistado em novembro de 2024. Na ocasião, o Brasil recebeu da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) a recertificação de área livre do sarampo e da rubéola. O país já havia ganhado esse selo internacional em 2016, mas perdeu a chancela em 2018 após a explosão de novos surtos internos causados exatamente pelo abandono da vacinação.
Vigilância e prevenção em viagens
Com o fluxo constante de passageiros, a Sesa realizou na última sexta-feira (31), em Curitiba, uma capacitação técnica para fortalecer a vigilância e agilizar a resposta a possíveis casos suspeitos. A pasta reforça que a vacinação deve ser prioridade de quem planeja viajar, garantindo a proteção antes de entrar em contato com áreas endêmicas.
O sarampo é transmitido de forma veloz pelas secreções respiratórias, bastando tossir, espirrar ou até mesmo falar perto de uma pessoa infectada. A orientação médica é que pessoas com o quadro clínico da doença busquem imediatamente uma Unidade Básica de Saúde (UBS) e fiquem isoladas até a confirmação ou descarte do diagnóstico. Os sintomas mais comuns são:
- Febre alta
- Manchas avermelhadas espalhadas pelo corpo
- Tosse e coriza
- Conjuntivite
Regras do esquema vacinal
A vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, está disponível gratuitamente em todas as UBSs do Paraná. O esquema vacinal muda de acordo com a faixa etária do paciente:
- Crianças: A primeira dose (tríplice viral) deve ser aplicada aos 12 meses de idade e a segunda dose (tetraviral) aos 15 meses, embora estados como São Paulo iniciem a vacinação já aos 6 meses
- De 15 meses a 29 anos: É obrigatório possuir duas doses da tríplice viral.
- De 30 a 59 anos: A recomendação é de apenas uma dose.
- Profissionais da saúde: Devem receber duas doses, independentemente da idade.
Além de seguir as faixas etárias, o esquema de vacinação exige cuidados específicos para alguns grupos. A tríplice viral é contraindicada para gestantes e bebês com menos de seis meses, independentemente de haver surtos ativos na região. Já as mulheres em idade fértil que tomarem a dose são orientadas a evitar a gravidez por pelo menos um mês após a aplicação. Pacientes imunossuprimidos devem passar por avaliação médica prévia, enquanto as pessoas com diagnóstico de alergia à proteína do leite de vaca (APLV) precisam comunicar a condição nos postos de saúde para garantir o recebimento das fórmulas seguras e específicas fabricadas pelos laboratórios
Campanha busca atualizar cadernetas
Para reverter a queda observada nos últimos anos, a mobilização nacional de multivacinação iniciada nesta segunda-feira (3) foca em crianças e adolescentes menores de 15 anos. A campanha vai até o dia 1º de setembro e terá o dia 22 de agosto como o "Dia D", visando um esforço concentrado de imunização.
O objetivo vai além do sarampo. A estratégia prevê que os profissionais de saúde avaliem a caderneta de cada paciente e apliquem, na mesma visita, todas as vacinas atrasadas. Dependendo da idade e do histórico, serão ofertadas doses contra poliomielite, difteria, tétano, coqueluche, hepatites A e B, rotavírus, meningites, febre amarela, HPV, covid-19 e dengue, esta em municípios onde o imunizante já integra o calendário.
Para garantir que a população seja alcançada, os estados e municípios estão orientados pelo Ministério da Saúde a flexibilizar o atendimento, adotando estratégias como vacinação em escolas, uso de unidades móveis, busca ativa de não vacinados e ampliação do horário de funcionamento das salas de vacina.
Texto de Marya Marcondes, aluna de Jornalismo da UFPR.
Sob orientação de Rogerio Galindo.