Na quadra ao lado do Hospital Pequeno Príncipe, uma estrutura dedicada à ciência guarda as chaves para que pode significar o futuro de milhares de crianças. Criado em 2015 e operando em espaço próprio desde 2017, o Biobanco do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe armazena tecidos e amostras biológicas de pacientes infantis com o objetivo de acelerar estudos sobre doenças complexas. É nesse laboratório de ponta que pesquisadores desenvolvem uma inovadora vacina terapêutica personalizada contra um tipo agressivo de tumor que atinge, de forma desproporcional, o Sul do Brasil.
Hoje, o local abriga aproximadamente 30 mil amostras. Os materiais são conservados sob um rigoroso controle de temperatura, acomodados em freezers que vão desde 30 graus negativos até tanques de nitrogênio líquido a 150 graus abaixo de zero. Trata-se do 17º biobanco do país e o maior com foco na pediatria em território nacional.

O médico e coordenador do espaço, Bonald Cavalcante de Figueiredo, pontua que a estrutura elimina uma das maiores barreiras da ciência: a falta de tempo e de material de pesquisa. Em vez de esperar anos para reunir amostras de uma doença, por exemplo, rara, cientistas de diversos institutos já encontram um acervo à disposição. "O biobanco armazena e distribui com esse propósito de facilitar a pesquisa do pesquisador. Esse é um trabalho que é feito gratuitamente", destaca.
Um câncer impulsionado por uma mutação histórica
O foco atual do laboratório é o combate ao carcinoma do córtex da adrenal, um tumor raro globalmente, mas com frequência preocupante no Paraná. O vilão desse cenário é uma alteração genética hereditária no gene P53 (um supressor tumoral), prevalente em cerca de 0,3% da população.
"Essa mutação que acontece no Paraná é uma mutação que tem uma distribuição de mais de 500 anos na população do Sul e Sudeste", detalha o coordenador. Ele esclarece que a mutação, por si só, é considerada de média gravidade, mas o perigo aumenta quando o paciente é exposto a gatilhos externos, como fatores químicos,como no caso de contato com agrotóxicos, fumo e solventes; fatores biológicos, interações com bactérias e vírus no ambiente e outras mutações, como associações com alterações genéticas secundárias que potencializam o quadro oncológico.
A doença costuma atacar crianças de zero a quatro anos. Como a radioterapia não é uma opção viável para esses pacientes pela sensibilidade, a sobrevida depende quase exclusivamente do sucesso da cirurgia e da quimioterapia. E é para preencher esse vazio de quando a remoção falha e as medicações param de fazer efeito que a vacina terapêutica está sendo criada.
Ensinando o sistema imune
Ao contrário dos imunizantes do calendário vacinal que previnem enfermidades, a inovação paranaense é uma terapia para quem já está com o tumor em estágio de resistência. "A vacina é feita com o propósito de tratar e ela é personalizada", explica o médico.
O procedimento em laboratório funciona como um centro de treinamento para as defesas do organismo. A equipe recolhe células tumorais do paciente e as funde com células do sangue da própria criança ou de um doador compatível. O resultado é uma "célula híbrida" modificada, que carrega as características do tumor.
O próximo passo é colocar linfócitos, considerados os soldados do sistema imune,em contato direto com essa célula híbrida. "O contato das duas vai favorecer que a célula hematológica aprenda a reconhecer o tumor, porque o papel dela quando ela se liga é matar a outra célula", revela o médico. Ao final do processo, as células de defesa treinadas serão reintroduzidas no paciente para “caçar” as células cancerígenas.
Próximos passos
O projeto, que já obteve sucesso in vitro, agora se aproxima de uma nova etapa pré-clínica animal. A equipe injetará as células de defesa treinadas na corrente sanguínea de camundongos imunossuprimidos, que já carregam o tumor implantado. As aplicações acontecerão semanalmente, totalizando até quatro injeções, para avaliar a degeneração da massa tumoral dentro de um organismo vivo. Caso os animais demonstrem resultados positivos, a tecnologia solicitará autorização para a Fase 1 dos testes em humanos, focada em verificar a ausência de toxicidade da vacina.
Embora esse tratamento seja estritamente personalizado para a criança que cedeu as células, o sucesso do Biobanco do Pequeno Príncipe representa um marco científico. Se aprovada, a tecnologia desenvolvida em Curitiba pode facilitar o caminho metodológico para que a mesma estratégia terapêutica seja desenhada contra outros tipos de câncer, trazendo uma nova perspectiva de cura para crianças que não respondem mais à medicina tradicional.