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Passei três dias internado e quero contar como as pessoas são atendidas pelo SUS

Uma taquicardia me levou a conhecer a UPA Pinheirinho e a emergência do Cruz Vermelha por dentro

Passei três dias internado e quero contar como as pessoas são atendidas pelo SUS
UPA Pinheirinho. Foto: Lucilia Guimarães/SMCS

Na sexta passada, meu coração me deu um susto: por causa de um problema elétrico, tenho crises de taquicardia que surgem do nada, e o bicho velho sobe meio que imediatamente a 170 batidas por minuto. Tontura, suador, pressão no peito e lá vou eu para o médico. Cheguei na UPA Pinheirinho cambaleante e só consegui avisar a moça: "Estou passando mal".

Começou ali um período de 48 horas em que passei por UPA, emergência hospitalar e, por fim, um quarto no Cruz Vermelha até receber a alta - já pronto para outra, embora espero que essa "outra" não venha tão cedo. E, como tinha acontecido também, na primeira crise, em abril, aprendi um pouco mais sobre essa instituição etérea brasileira, chamada SUS.

Reversão

Se você um dia tiver taquicardia supraventricular (é o meu caso) e baixar numa emergência, a primeira coisa que vão fazer com você é um eletrocardiograma, pra saber exatamente o que se passa. Vencida essa fase, vem a injeção de medicamentos na veia até que a crise passe. Essa é a parte assustadora da coisa. E, embora todo mundo diga que ninguém morre disso, o susto é inevitável.

A coisa toda parece um desses episódios de seriado de médico, sabe? Tipo ER, Grey's Anatomy ou, para os mais novinhos, The Pitt. De repente você se vê cercado por um médico e umas quatro enfermeiras. Segura daqui, levanta dali, começa um negócio chamado "Manobra de Valsava Modificada". Basicamente, significa que enquanto injetam na veia um remédio (o primeiro da lista é a Adenosina) várias pessoas vão erguer tuas pernas e braços. A ideia é que o remédio chegue ao coração o mais rápido possível.

A ironia da coisa é: se der certo, você vai ter uma sensação horrível, porque a manobra eleva a pressão na caixa torácica. Então fica todo mundo torcendo pra você passar mal. E todo mundo olhando para o monitor para ver se o ritmo cardíaco diminui (a essa hora você vai estar ligado a uma multidão de fios, com eletrodos pelo peito todo).

No meu caso, a Adenosina não bastou. Passaram para o plano b: Metoprolol. Não funcionou. A essa hora, até o suposto agnóstico já está rezando. Vem o plano c: Amiodarona. Essa cai mais devagarinho na veia, embora seja uma "dose de ataque". E a médica, que está no meu ombro esquerdo, finalmente diz o que eu queria ouvir: "Reverteu!"

Você está bem. E agora o seriado médico é substituído por um longo documentário sobre a vida no SUS.

Os pacientes

A emergência da UPA Pinheirinho tem cinco leitos, estou no segundo. Do meu lado direito fica uma senhorinha, Francisca, que está com a pressão altíssima. A vó (toda enfermeira chama seu paciente idoso de "vô" ou "vó") não deixa ninguém passar por perto sem chamar. Ela está numa missão. "Minha filha, vem cá", diz para a moça da limpeza. "Ninguém vai ao Pai a não ser pelo Senhor Jesus, e ele te ama muito".

À minha esquerda, numa maca que estava vazia, deitam um rapaz de 39 anos. Não vou dizer seu nome, porque a primeira coisa que ele admite é a dependência química. Cocaína. A droga fez com ele a mesma coisa que o problema elétrico fez comigo, e o coração do danado sobe a 220. Ao contrário de mim, no entanto, ele está acostumado - sua última passagem pela UPA foi duas semanas antes.

A Adenosina freia o coração do rapaz rapidinho e ele logo avisa que não vai ficar ali. "Aqui não é cadeia", diz a enfermeira. "Mas se você sair, vai contar como evasão." Ele nem se incomoda: "Então vou me evadir", diz ele, sorridente. Atende o telefone e é a namorada/esposa dando uma bronca pelos abusos. Ele ri de novo. Enquanto isso, mexe no aparelho para o remédio pingar mais rápido e ele cair fora.

Explico que ele pode passar mal se acelerar o processo, a enfermeira ouve e passa um sabão no rapaz. Ele me olha com uma censura, e começamos a conversar. Descubro que ele é pizzaiolo e que tem um cateterismo agendado pra daqui dois meses. "Mas primeiro você tem que durar até lá", diz a enfermeira. Pouco depois, ele cumpre a promessa e se evade.

As enfermeiras

As enfermeiras dão conta da loucura com uma solicitude impressionante. Uma senhora muito obesa é identificada com infecção hospitalar e terá de ser isolada. São necessárias sete pessoas para retirá-la da cama e passá-la para a maca, todos suando para erguer o lençol sobre o qual ela está. E elas continuam bem-humoradas.

Falo da gentileza e da calma delas e uma das moças me explica. "Aqui é tranquilo. No meu outro emprego, no Hospital do Trabalhador... Ali sim o bicho pega." Quase todas as técnicas de enfermagem têm dois empregos. Fazem escala 12 por 36 e no dia que devia ser de folga carregam pedra em outro trabalho, e mesmo assim penam para ter uma renda decente.

A emergência

A UPA é uma porta de entrada, e em tese ninguém deve ficar lá por muito tempo. Por isso me encaminham para o Cruz Vermelha, onde já me trato. Enquanto espero a ambulância que vai me transferir, um carro de som passa na janela com Rafael Greca gritando a plenos pulmões que aquela UPA é "o orgulho de seu coração". Acordou todos os pacientes, mas quem sabe ganhou um voto ou dois? Vá saber.

A ambulância do SAMU demora, mas vem. "Depois que terceirizaram, virou essa demora", diz uma enfermeira. Na transferência, mais gente simpática. Um motorista e duas moças (médicas? residentes? não sei). Me carregam na maca e toca para o hospital. No caminho, alguma mulher desesperada faz sinais e a ambulância freia. Ela quer dicas do que fazer com o marido, que está passando mal (parece pedra no rim). Dizem para ela tocar o carro para a Santa Casa.

Minutos depois chegamos à emergência. Agora é só esperar algum leito vagar.

Box número 4

Entro num cômodo enorme, cheio de gente - médicos, enfermeiras, muitos pacientes - e organizadíssimo. No box em que me colocam (o quarto de sei lá quantos, talvez dez) tiram toda a minha roupa e colocam aquela camisola ridícula de hospital. "Aqui vocês vêm passar vergonha", diz o enfermeiro, rindo. E aí começa a furação.

Durante as próximas 12 horas viro um boneco de vudu. Acham acesso, medem glicemia, dão injeções, enfiam remédio na veia. Sempre tem alguém do meu lado - é impressionante como ninguém fica sem cuidados. Eletro, remédios, médica fazendo anamnese. A primeira rodada de atenção, na primeira hora, é super completa, e depois vem o acompanhamento.

A única coisa chata é não poder ir ao banheiro. De resto, o documentário sobre os pacientes continua na minha cabeça.

No meu lado esquerdo, seu José conta inúmeras vezes como foi parar lá: foi ajeitar a antena da tevê e caiu do telhado. Quebrou clavícula, três costelas, algumas vértebras e, acrescenta o médico, fez um pneumotórax. Apesar de tudo, está lúcido, ou quase. Pede o tempo todo para ir embora, está preocupado com a mulher. "Alguém tem uma calça para emprestar? Não fica bem eu sair assim."

Explicam que ele não vai a lugar nenhum por enquanto, mas dez minutos depois ele volta à carga. "Se alguém tiver carro e quiser ganhar um dinheirinho da corrida, eu pago pra me levar até a casa de minha filha." Mas seu José nem sabe direito onde mora. "Eu falei que sou de Campo Largo, mas lembrei que não sou."

O lado direito

Mas é do meu lado direito que o bicho pega, na tarde de sábado. Dois idosos vão ser intubados quase ao mesmo tempo. O rapaz que é responsável pela emergência, gente boníssima, parece gostar especialmente dos velhinhos, e é visível que está abalado com a situação dos dois. Ele cuida de uma senhorinha (muito surda, que nem ouve quando ele diz o que vai acontecer) e a residente atende o sujeito no box ao lado.

Seu Orlando, porém, não para quieto, e toda vez que a médica está quase conseguindo, ele se mexe e ela perde o acesso. A cena é frustrante e leva umas duas horas, com o paciente sempre se mexendo, sempre impedindo que a sonda passe. Ela explica: estou tentando salvar a sua vida, por favor não se mexa. Mas ele, quase sem lucidez, se mexe de novo, e numa das vezes mete a mão no material estéril. Tudo se perde.

A médica diz que nem acredita, se afasta e chora discretamente. Pergunto à enfermeira como estão as coisas. Ela, mais experiente, sorri. "Meu filho, isso todo dia é assim".

Lá fora, três ambulâncias esperam com novos pacientes, mas os médicos decidem que só depois de estabilizados os dois idosos receberão mais gente. A espera vai ser longa, a noite também. O responsável pelo Pronto-Atendimento vem oferecer ajuda: soube de vagas nos quartos, não querem mandar alguém para lá e aliviar a carga? O médico gente boa, frustrado, diz que não. "Já está tudo ruim, manda os teus, a gente continua com esses."

Só quem mantém o humor são as duas senhoras que lavam o chão. Tiram sarro uma da outra, conversam o tempo todo. Uma delas reclama de dor nas costas, mas deixam tudo brilhando.

O quarto

É fim da tarde de sábado quando me mandam para o quarto. Lá, conheço meu companheiro de internação, seu Antônio, um ex-armador da construção civil que, diabético, tenta escapar de uma amputação de dedo no pé. Também teve uma infecção que parece bem feia. A mulher e as filhas ajudam a cuidar dos curativos e da bolsa de colostomia.

Ali enfim posso ficar vestido e tenho acesso a um banheiro (ufa!). Passo uma noite meio maldormida, ainda com muita gente me furando. E na manhã seguinte a cardiologista, dizendo que enfim meu potássio subiu a níveis decentes, me dá alta. Minha mulher vem me pegar e saio do hospital.

Saio saudável e tendo sido atendido por um batalhão de médicos e enfermeiros. Tenho uma consulta de retorno marcado e dois dos medicamentos prescritos sairão de graça pelo Farmácia Popular. A conta da internação? Foi tudo de graça. É assim que funciona a saúde no Brasil.

Rogerio Galindo

Rogerio Galindo

Jornalista, um dos fundadores do Plural.

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Assuntos: Saúde

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