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No Paraná, polícia recupera salário; professor perde

Enquanto o salário real da polícia do Paraná subiu, o do professor caiu 14% desde 2013 — e temporários já são 39% da rede estadual, ganhando bem menos

No Paraná, polícia recupera salário; professor perde
Alunos do Colégio Estadual do Paraná. Foto: Tami Taketani/Plural
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Em junho de 2025, com o ano letivo a pleno vapor, a rede estadual do Paraná tinha 79,4 mil professores em atividade — e 30,9 mil deles, ou 39%, eram temporários, contratados por prazo determinado fora do concurso público. Os outros 48,4 mil eram efetivos. A conta é da folha de pagamento individual do estado, cruzada com o cadastro funcional da Secretaria da Fazenda.

O peso dos temporários é uma fotografia recente de um movimento de fundo: o número de professores concursados na ativa caiu de 67,9 mil em 2013 para 48,1 mil no início de 2026 — uma redução de 29%, quase 20 mil vagas efetivas a menos. À medida que os concursados se aposentam ou deixam a rede, o estado recompõe as turmas sobretudo com contratos temporários, e não com novos aprovados em concurso.

O quadro efetivo encolheu

Professores concursados na ativa na rede estadual · janeiro de cada ano

Em junho de 2025, 39% dos professores em sala já eram temporários (30,9 mil de 79,4 mil).

A mesma aula, sem a carreira

A diferença de remuneração entre os dois vínculos é grande — mas não está no valor da aula. Em junho de 2025, o vencimento-base — o salário antes dos adicionais — era praticamente idêntico nos dois grupos: mediana de R$ 3.430 para o concursado e R$ 3.536 para o temporário. O que separa um do outro são os adicionais de carreira — tempo de serviço (quinquênios), progressões e promoções —, que o efetivo acumula ao longo de anos e o contratado por prazo determinado nunca recebe. Com esses componentes somados, o concursado chegava a R$ 7.582 brutos por mês, contra R$ 4.677 do temporário — 62%, para dar a mesma aula. O temporário também não tem estabilidade nem a progressão que sustenta o salário do efetivo ao longo do tempo.

Base igual, total diferente

Professor concursado × temporário · junho de 2025 · R$ por mês

Concursado Temporário

Uma parcela menor da diferença pode vir da jornada. Entre os temporários há mais gente com carga reduzida — um quarto deles tinha vencimento-base abaixo de R$ 2.210, contra R$ 3.430 no concursado —, enquanto os efetivos concentram os regimes de 40 horas. A folha de pagamento não registra a carga horária de cada professor, de modo que não é possível isolar com exatidão quanto do valor mensal é hora trabalhada e quanto é valor da hora; mas, no padrão mediano, a base é a mesma, e o que falta ao temporário é a carreira.

Os números de temporários variam muito ao longo do ano porque os contratos seguem o calendário escolar: em janeiro de 2025, entre as férias e a espera pela assinatura dos processos seletivos, apenas 627 temporários apareciam na folha; em junho, já eram quase 31 mil. Por isso o retrato mais fiel é o do meio do ano, com as escolas funcionando.

A carreira que perdeu poder de compra

Não é só o quadro que encolheu — o salário de quem ficou também minguou. Corrigido pela inflação (IPCA, em reais de 2025), o salário bruto médio do professor concursado caiu de R$ 8.570 em 2013 para R$ 7.342 em 2026 — uma perda real de 14%. O ponto mais baixo foi em 2022 (R$ 6.842), no auge do ajuste fiscal; desde então houve alguma recomposição, mas insuficiente para recuperar o patamar de treze anos atrás.

Entre as principais carreiras do funcionalismo estadual, a do professor concursado foi a única, fora a dos temporários, a terminar o período abaixo de onde começou. A dos procuradores do estado — o topo da folha, com média de R$ 46 mil mensais — oscilou mas se recompôs. A dos profissionais de saúde de nível superior ficou praticamente estável.

Valorização de policiais, desvalorização na educação

A comparação com as forças de segurança é o retrato mais nítido dessa divergência. Polícia Militar e Polícia Civil também perderam salário real na primeira metade da década e também viram seus efetivos encolher. Mas a trajetória virou.

O salário real médio do policial militar caiu até 2022 (R$ 7.666) e depois subiu com força: fechou 2026 em R$ 10,5 mil — 16% acima de 2013, o maior repique entre as carreiras comparadas. O da Polícia Civil avançou 12% no mesmo intervalo. Em junho de 2025, um PM ganhava em média R$ 9.968 e um policial civil, R$ 14.150 — respectivamente 31% e 87% mais que um professor concursado. Um professor temporário recebia menos da metade do salário médio de um PM.

Enquanto a polícia recuperou, o professor ficou para trás

Salário bruto médio mensal, corrigido pelo IPCA (R$ de 2025)

Polícia Civil Polícia Militar Professor concursado

Os dois grupos — professores e policiais — enfrentaram o mesmo aperto orçamentário e a mesma queda de efetivo. A diferença está na resposta do estado: à polícia, veio a recomposição salarial recente; à educação, a substituição do professor concursado pelo contrato temporário mais barato, sem reposição das perdas de quem permaneceu.

Como apuramos. Os dados vêm da folha de pagamento individual do Poder Executivo do Paraná (Portal da Transparência → Pessoal → Remuneração), cruzada com o cadastro funcional pelo código de vínculo. Consideram-se apenas servidores em atividade; a remuneração é a bruta mensal, corrigida pelo IPCA para reais de 2025. Professores concursados foram identificados pelo cargo "Professor" da rede estadual e temporários pelo cargo "Docente por Prazo Determinado"; policiais, pelos quadros funcionais. A composição usa junho de 2025 (ano letivo cheio) e a série salarial, janeiro de cada ano. A folha não registra a carga horária — a comparação é de remuneração mensal, não por hora; como o vencimento-base mediano é igual entre os dois vínculos, a diferença vem sobretudo dos adicionais de carreira. A base cobre apenas o funcionalismo estadual. Os "temporários" são contratados por prazo determinado pelo próprio estado — não são, tecnicamente, terceirizados por empresa interposta, ainda que representem a mesma lógica de precarização.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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