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Curitiba corta mais árvore nativa do que exótica

Entre as decisões que nomeiam a espécie, as nativas superam as exóticas em 2,5 vezes — e a mais cortada é a araucária. Confira explicação da prefeitura

Curitiba corta mais árvore nativa do que exótica
Foto: Tami Taketani/Plural

Levantamento do Plural com as autorizações de corte e poda julgadas pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA) entre 2019 e 2026 identificou, nas decisões que nomeiam a espécie, 717 que citam uma árvore nativa — araucária, aroeira, ipê, canela, jerivá — contra 292 que citam uma exótica. A derrubada recai cerca de 2,5 vezes mais sobre a flora nativa.

O contraste importa porque, do ponto de vista ambiental, os dois cortes não se equivalem. Uma árvore exótica — ainda mais uma invasora, como o pinus ou a uva-do-japão — não faz parte do ecossistema local e pode até prejudicá-lo; retirá-la tende a ser menos danoso, quando não desejável. Uma nativa, como a araucária, é parte da floresta que formou a paisagem da região. Seria de esperar, então, que a caneta pesasse mais sobre as de fora. Acontece o inverso.

As espécies mais autorizadas para corte

Solicitações deferidas que citam cada espécie, 2019–2026. Cor por origem.

nativa exótica

Fonte: SIMA/Prefeitura de Curitiba. Análise: Plural.

A mais cortada é o símbolo do estado

O topo da lista não deixa dúvida sobre o que está caindo: a araucária, o Pinheiro-do-Paraná — nativa, protegida e estampada no brasão do estado — aparece em 515 decisões de corte, de longe a espécie mais citada. Depois dela vêm outras nativas, como a aroeira (87) e o ipê (46).

As exóticas invasoras — pinus, cinamomo, uva-do-japão, eucalipto —, aquelas cuja retirada teria a melhor justificativa ecológica, somam 169 decisões, cerca de 11% das que nomeiam a árvore. A motosserra, em Curitiba, não está mirando principalmente as invasoras.

O que diz a Prefeitura

Procurada, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente atribui o predomínio de nativas nos cortes à própria política de arborização. “Há cerca de 20 anos, o município prioriza o plantio de árvores nativas na cidade. Com a maior presença dessas espécies na arborização urbana, também é maior o número de pedidos de corte relacionados a árvores nativas”, informou a pasta, que segue o Decreto Municipal 473/2008 na definição das espécies exóticas invasoras.

Segundo a Secretaria, o Horto Municipal da Barreirinha deixou de produzir espécies exóticas invasoras e hoje cultiva apenas algumas exóticas consideradas adequadas à arborização viária. Quando uma exótica invasora é suprimida — por problema fitossanitário ou risco de queda —, a compensação é feita com nativas: “para cada árvore exótica invasora suprimida são plantadas cinco árvores nativas”. A pasta cita, como exemplo, a retirada recente de três árvores comprometidas da Praça Rui Barbosa, compensada com o plantio de 15 ipês.

A Prefeitura afirma ainda que, desde janeiro de 2025, plantou 250 mil árvores pelo programa Meio Milhão de Árvores para Curitiba, cuja meta é chegar a 500 mil até o fim de 2028.

Questionada, porém, sobre a compensação exigida quando a árvore derrubada é uma nativa — a maioria dos casos —, a Secretaria detalhou apenas a regra das exóticas invasoras e não especificou a proporção de replantio aplicada às nativas.

A fonte dos dados

A análise parte da busca pública de cortes de árvore do SIMA, mantida pela Prefeitura por força da Lei Municipal 15.376/2019 — que obriga, desde 2020, a publicação de todas as autorizações de corte.

Página de pesquisa de corte de árvores do SIMA, da Prefeitura de Curitiba

Reprodução: sima.curitiba.pr.gov.br/CorteArvore/Pesquisar

Como apuramos — Os dados vêm do sistema SIMA da Prefeitura de Curitiba, de publicação obrigatória desde 2020 (Lei Municipal 15.376/2019), coletados em 2026. A espécie foi extraída do texto das decisões: das 4.362 com parecer, 1.487 (34%) nomeiam a árvore — logo, o recorte é indicativo, não um censo. A classificação nativa/exótica seguiu critério conservador, excluindo termos genéricos (“folhosa”) e ambíguos (“pinheiro” isolado, “figueira”, “palmeira”). Os números representam decisões que citam ao menos uma espécie de cada grupo.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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