Entre 2017 e 2023, o Ideb dos colégios cívico-militares do Paraná saltou de 3,7 para 4,8 no Ensino Médio e de 4,8 para 5,4 nos Anos Finais do Fundamental, levando esse grupo de escolas a alcançar e até superar a média da rede estadual. No mesmo período, porém, os indicadores que medem a qualidade dessas escolas não melhoraram: a adequação da formação dos professores ficou estagnada, o percentual de docentes com ensino superior recuou e a média de alunos por turma não caiu — nos Anos Finais, chegou a subir.
O que de fato mudou foi a composição do alunado: cerca de 12,4 mil estudantes que estavam fora da idade ideal para o ano que cursavam — em geral, os que já acumulavam reprovações — deixaram de ser contabilizados nessas escolas no mesmo intervalo. É o que mostra um levantamento do Plural com dados do INEP e da Secretaria de Estado da Educação (Seed-PR).
O número de alunos foi calculado com base no índice de distorção idade-série, um indicar medido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
Sobe o Ideb, param as notas
O Ideb é o produto de duas coisas: o quanto os estudantes aprendem, medido pelas notas do Saeb em Matemática e Português, e o quanto a escola aprova, medido pela taxa de rendimento. Nos colégios cívico-militares, foi a segunda parte que disparou — e a primeira, não.
No Ensino Médio, a reprovação caiu de 22,9% em 2017 para 3,0% em 2023; nos Anos Finais, de 15,1% em 2015 para 1,4% — hoje praticamente nenhum aluno repete de ano nessas escolas. Já as notas, que medem o aprendizado de fato, mal se moveram: no Ensino Médio, a média de Matemática saiu de 271 para 281 e a de Português, de 272 para 289. O grosso da alta do índice veio de aprovar mais, não de ensinar mais.
Os dados mostram também que a rede estadual vinha de uma trajetória de evolução nos anos anteriores ao governo Ratinho Junior. As escolas depois transformadas em cívico-militares também registravam uma trajetória de melhora no Ideb.
Entre 2013 e 2017, a alta do Ideb na rede estadual do Paraná foi puxada pelo aprendizado. Nos Anos Finais do Fundamental, o índice subiu de 4,10 para 4,88, e esse avanço apareceu onde deveria aparecer: nas provas. A nota média de Matemática saltou de 249 para 265 pontos na escala Saeb, e a de Português, de 242 para 263 — ganhos expressivos, de 16 e 20 pontos, respectivamente. No mesmo intervalo, a taxa de aprovação subiu pouco, de 84% para 87%. Em outras palavras, os estudantes paranaenses estavam, de fato, aprendendo mais, e o Ideb crescia como reflexo disso.
De 2017 a 2023, o padrão se inverteu. O Ideb dos Anos Finais continuou subindo, de 4,88 para 5,41, mas as notas pararam: Matemática ficou estacionada em 265 pontos — exatamente o mesmo valor de 2017 — e Português mal se moveu, de 263 para 264. O que sustentou a alta do índice foi a taxa de aprovação, que disparou de 87% para 98,6%, levando a rede a aprovar quase todos os alunos. O mesmo descolamento aparece no Ensino Médio no período: as notas de Matemática e Português praticamente não avançaram, enquanto a aprovação saltou de 80% para 97%. Ou seja, o Ideb dos últimos anos cresceu sem que o aprendizado medido nas provas acompanhasse — um avanço de fluxo, não de proficiência.
Nenhuma melhora na estrutura das escolas
Se a alta do Ideb viesse de uma escola que ficou melhor, ela deveria aparecer nos indicadores de qualidade — professores com melhor formação compatível com o que ensinam e turmas menores. Não aparece. Entre 2019 e 2023, esses indicadores ficaram parados nos colégios cívico-militares, tanto no Ensino Médio quanto nos Anos Finais.
O Indicador de Adequação da Formação Docente, que mede a proporção de aulas dadas por professores formados na própria área, praticamente não se moveu: ficou em torno de 84% nos Anos Finais e teve alta modesta no Ensino Médio, de 85,6% para 87,4%. O percentual de professores com ensino superior, que já beirava os 100% em 2019 (99,7% nos Anos Finais e 99,4% no Ensino Médio), não tinha para onde crescer — e até recuou levemente, para cerca de 98% em ambas as etapas. E a média de alunos por turma, em vez de cair, subiu nos Anos Finais, de 27,5 para 27,8; no Ensino Médio, manteve-se em torno de 28 alunos por sala.
Ou seja: as turmas não ficaram menores, os professores não passaram a ser mais qualificados, o desempenho dos alunos não melhorou e ainda assim o Ideb subiu. O que mudou não foi a estrutura de ensino — foi quem está dentro da sala.
Cerca de 12 mil alunos atrasados a menos
A distorção idade-série mede a parcela de estudantes com atraso de dois anos ou mais em relação à série esperada — o grupo mais propenso a reprovar e a abandonar a escola. Multiplicando essa taxa pela matrícula de cada colégio cívico-militar e somando o conjunto, é possível estimar quantos desses alunos a rede deixou de contabilizar.
Nos Anos Finais, o número estimado de estudantes atrasados nesses colégios caiu de 17 mil em 2017 para 8,7 mil em 2023. No Ensino Médio, de 7,9 mil para 3,9 mil. Somados, são cerca de 12,4 mil alunos fora da idade certa a menos — uma redução de mais de 40% no mesmo intervalo em que o Ideb subiu.
O dado mais revelador é que isso não aconteceu porque as escolas encolheram: a matrícula total dessas etapas até cresceu levemente no período. O que mudou foi a composição — saíram os atrasados, permaneceram ou entraram os alunos na idade certa. A redução, é preciso registrar, mede a variação do estoque de estudantes fora da idade certa, e não uma contagem de alunos expulsos: pode vir de jovens que se regularizaram, de transferências para a EJA, o noturno ou para fora da escola, e de menos ingresso de alunos atrasados.
O que essas escolas eram antes de 2019
O recorte importa porque nenhum desses colégios era cívico-militar até pouco tempo atrás. O programa foi criado no governo de Ratinho Junior (PSD), que assumiu em janeiro de 2019; as conversões começaram em 2020 e 2021. A data exata varia de escola para escola, mas todo o histórico anterior a 2019 retrata unidades comuns — e não as melhores da rede.
A série dos Anos Finais, calculada pelo INEP desde 2005, mostra que os futuros cívico-militares andaram abaixo da média estadual por mais de uma década: 3,48 contra 3,55 das demais em 2005; 3,96 contra 4,13 em 2013; 5,01 contra 5,17 em 2019, às vésperas da conversão. Só depois de virarem cívico-militares — e de a reprovação cair a 1% ou 2% — é que o grupo alcançou a média da rede, com 5,42 em 2023.
A noite, a EJA e um público mais selecionado
A saída dos alunos atrasados conversa com o esvaziamento do turno noturno e da Educação de Jovens e Adultos (EJA), que concentram justamente os estudantes mais velhos e os que trabalham. Nos colégios cívico-militares, a matrícula noturna média caiu de 85 alunos por escola em 2017 para 6 em 2024, e a EJA, de 11 para menos de uma matrícula por escola.
O perfil socioeconômico acompanha o movimento. Na edição de 2023 do INSE, os cívico-militares têm nível médio de 5,36, acima da média de 5,28 das demais estaduais — e, ao contrário do restante da rede, que inclui escolas entre as mais pobres do estado (INSE de até 3,6), nenhum colégio cívico-militar fica abaixo de 4,8. O modelo não alcança a ponta mais vulnerável da rede.
O mesmo padrão de público mais selecionado aparece nas escolas escolhidas para a terceirização da gestão — o Programa Parceiro da Escola, alvo de ação do Ministério Público. Ali, o número estimado de alunos fora da idade certa caiu de cerca de 15,2 mil em 2017 para 7,2 mil em 2023. Mas, como esse programa só começou em 2025, todo o Ideb disponível dessas unidades é anterior a ele e nada diz sobre seu efeito — apenas mostra que escolas foram escolhidas.
O que os números mostram — e o que não mostram
A leitura pede cuidado. As médias são calculadas entre as escolas estaduais de cada grupo, e o número de unidades muda ao longo do tempo, conforme novas escolas entram no programa e passam a ter o índice apurado — o que altera a composição. Os indicadores de formação docente e alunos por turma só estão disponíveis a partir de 2019, e o INSE apenas na edição de 2023. E a queda da reprovação marcou toda a rede estadual no período, não apenas os cívico-militares. Nada disso isola o efeito pedagógico do modelo: são retratos, não experimentos controlados.
Ainda assim, o conjunto é consistente. Escolas que por mais de uma década estiveram abaixo da média alcançaram-na no mesmo intervalo em que a reprovação foi a praticamente zero, milhares de alunos atrasados deixaram de ser contabilizados e os indicadores de qualidade — formação de professores e tamanho de turma — ficaram parados. O Ideb subiu, mas não porque a escola melhorou: porque mudou quem ela mede.
Escolas Cívico-Militares e Terceirizadas — Paraná
Série histórica do Ideb
Por rede de ensino
Ranking de cidades
Escolas na seleção
Ensino Médio estadual — matrículas por ano e turno (PR)
Metodologia: a série histórica do Ideb (valor observado por escola, INEP) por escola vêm dos Microdados do Censo Escolar/INEP (2017–2024), restritas à rede estadual. O nível socioeconômico é o INSE/INEP 2023. A classificação segue as listas oficiais da Seed-PR — cívico-militares (202 unidades) e Programa Parceiro da Escola (95 unidades) —, casadas aos códigos do INEP pelo Censo 2025. Elaboração: Plural.