O Muffato contratou uma empresa clandestina de segurança e vigilantes sem formação, conhecidos como “leões de chácara”, denunciaram nesta quinta-feira (26) o Sindicato dos Vigilantes de Curitiba e Região e o deputado estadual Renato Freitas (PT). Funcionários da empresa RTA Rota Sistema Integrado de Segurança Ltda., com sede em São José dos Pinhais, estariam envolvidos na morte de Rodrigo Boschen, de 22 anos, no último dia 19. Boschen foi agredido por supostamente ter furtado uma barra de chocolate.
A informação de que a empresa atua na clandestinidade foi confirmada nesta quinta-feira (26) pela Superintendência da Polícia Federal (PF) no Paraná. Segundo a PF, a RTA Rota Sistema Integrado de Segurança, com nome de fantasia Grupo Rota, não é credenciada para atuar no ramo de segurança privada e pode ser classificada como clandestina. A PF informou que foi lavrado um auto de encerramento de atividades de segurança privada, mas que a empresa não foi fechada, pois a lei permite que ela atue em outros ramos.
Segundo o presidente do Sindicato dos Vigilantes, João Soares, a RTA operava duas empresas com CNPJs diferentes, uma que nunca teve registro e a outra que teve a licença encerrada após a denúncia à PF. “O dono da empresa contratava outra empresa para fazer o trabalho de monitoramento eletrônico. E o Muffato contratava leões de chácara (pessoas sem curso de vigilância) para cuidar do mercado, sem nenhuma qualificação”, disse Soares.
A PF informou que empresas de segurança não podem subcontratar serviços. Empresas que não são da área não podem contratar vigilantes diretamente, nem atuar em ambientes públicos. “Nenhum estabelecimento comercial pode contratar pessoas direta ou indiretamente para perseguição de suspeitos em via pública. A prevenção de furtos deve ser realizada de outras maneiras”, afirmou a PF. “O profissional habilitado para vigilância patrimonial é o vigilante, credenciado pela PF, atuando com vínculo em empresa credenciada pela PF”.
Por lei, empresas de outros ramos precisam de autorização da PF para contratar vigilantes. “Se você tem uma empresa e não quer contratar uma empresa de vigilância, pega uma autorização para ser uma empresa de segurança orgânica. O Muffato não tem essa autorização. Contrata leão de chácara, o cara que cuida do mercado e comete esse tipo de barbaridade”, disse Soares.

Clandestinas
O presidente do Sindicato dos Vigilantes lembrou outros dois casos de mortes em supermercados que contrataram empresas clandestinas. Em 2020,um homem negro de 20 anos foi morto pelo segurança de uma loja do Carrefour em Porto Alegre. Já a rede Atakarejo foi condenada a pagar R$ 20 milhões em danos morais pela morte de dois homens que teriam furtado carne em uma unidade em Salvador, em 2021.
"Um vigilante cursado não faz esse tipo de coisa. Por causa de um chocolate tira-se uma vida? Alguém tem que ser responsabilizado por isso. É comum ver clandestinos em supermercados".
João Soares, presidente do Sindicato dos Vigilantes de Curitiba
“Indesejáveis do mês”
O deputado Renato Freitas divulgou nesta semana que o Muffato promovia, em suas redes sociais, uma campanha intitulada “Indesejáveis do Mês”, em que expunha suspeitos de cometerem furtos em suas unidades e nas lojas do Max Atacadista, que também pertence ao grupo. Depois da morte de Rodrigo Boschen, a campanha não está mais no ar.

“A atuação de uma empresa clandestina no Muffato torna a situação ainda mais revoltante", disse Freitas. "O Muffato patrocinou uma campanha de perseguição, intitulada ‘Indesejáveis do Mês’, e de forma covarde apagou todas as menções a essa campanha depois do assassinato do Rodrigo. Nos vídeos apagados o título era ‘Segurança é Tudo no Muffato’, quando, na verdade, é o que menos se vê, quando a empresa mata e contrata empresa fraudulenta para fazer o serviço sujo”.
Sinais de tortura
O caso se tornou a público porque uma testemunha divulgou vídeos gravados em um celular, que mostram o corpo em uma rua próxima ao supermercado e três pessoas ao redor. Dois suspeitos foram presos preventivamente pela polícia: Bryan Gustavo Teixeira, segurança, e Henrique Moreira Alves Pinheiro do Carmo, que teria iniciado a perseguição a Rodrigo em uma moto. Luiz Eduardo Alves, funcionário do mercado, foi preso e liberado após audiência de custódia.
Outro suspeito, identificado apenas como Luiz, está foragido. Ele teria aplicado o golpe conhecido como mata leão, que teria matado Rodrigo, e seria um “Agente de Prevenção de Perdas (APP) – um leão de chácara, como define o presidente do Sindicato dos Vigilantes, João Soares.

O corpo de Rodrigo apresentava sinais de tortura e estava com os pés amarrados, segundo o advogado da família da vítima, Leonardo Mestre. "O corpo da vítima foi encontrado com os pés amarrados, apresentando inequívocos sinais de tortura, bem como múltiplas lesões decorrentes de agressões físicas, em número e intensidade significativamente superiores aos relatos previamente divulgados".
O corpo foi abandonado perto de um matagal na esquina das ruas Daisy Luci Berno e Ponta Grossa, no bairro Portão. Segundo o pai de Rodrigo, Ronado Boschen, a família só soube da morte por volta do meio-dia da última segunda-feira (23).
Na noite de quarta-feira (25), representantes de movimentos sociais e familiares de Rodrigo fizeram um ato no Muffato Portão. Eles fecharam os caixas por 15 minutos e pediram a responsabilização dos envolvidos.
Pessoa sem ligação com o grupo
Segundo o advogado do Muffato, Elias Mattar Assad, as agressões partiram de uma pessoa sem ligação com a empresa ou com alguma terceirizada. “O mercado lamenta profundamente o ocorrido e desde o primeiro momento colabora com a Justiça para apurar responsabilidades pessoais de cada um dos envolvidos”, afirmou Assad. “O mercado e seus protocolos de segurança sempre recomendaram aos seus funcionários e terceirizados máxima cautela, em ações permeadas pela contenção não violenta, e sempre restrita aos limites de suas unidades. Este fato isolado ocorreu fora de suas dependências. Quem iniciou a agressão foi um terceiro, estranho ao estabelecimento".
A reportagem entrou com a assessoria de imprensa do grupo Muffato, mas não houve resposta até a publicação desta matéria. O Plural fica à disposição de uma eventual manifestação.