O Conselho Municipal de Alimentação Escolar (CAE) de Curitiba notificou a Prefeitura sobre a detecção de fezes de roedores em duas unidades da rede municipal de ensino e alertou que a situação coloca em risco a segurança alimentar dos estudantes. O aviso está no Ofício nº 064/2026 do colegiado, que pede providências imediatas.
As unidades citadas são a Escola Municipal Eny Caldeira e o Centro Municipal de Atendimento Educacional Especializado (CMAEE) Professora Arlete Procotte, que funcionam no mesmo endereço, na Rua Guilherme Ihlenfeldt, no bairro Bacacheri. A Eny Caldeira atende crianças da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental. O CMAEE Arlete Procotte é voltado ao atendimento educacional especializado — reeducação visual e auditiva e avaliação pedagógica de estudantes com deficiência —, o que torna o público atingido ainda mais vulnerável.
O ofício do conselho afirma que as fezes foram verificadas no ambiente interno das duas unidades "corroborado por relatos consistentes da comunidade escolar acerca da presença frequente de roedores em ambas as unidades citadas". O documento também diz que a situação configura "cenário de grave risco à saúde pública e à segurança alimentar dos alunos e servidores".
A presença de fezes de roedores em ambientes onde alimentos são armazenados, preparados ou servidos é um indicador clássico de risco à saúde. Roedores estão associados à contaminação de alimentos e à transmissão de doenças, e sua constatação em unidades escolares acende o alerta sobre as condições de higiene e de controle de pragas nos espaços de alimentação.
Procurada pelo Plural, a Prefeitura de Curitiba rechaçou a afirmação de que a presença de ratos é em áreas internas das escolas. "Os registros referem-se a um espaço de armazenamento localizado em uma área externa, que não é destinada à manipulação, ao preparo ou ao armazenamento de alimentos".
O papel do conselho
O CAE é o órgão responsável por fiscalizar a execução do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) no município. Composto por representantes do poder público, de professores, de pais de alunos e da sociedade civil, o conselho acompanha a qualidade da merenda, realiza visitas às escolas e cobra providências da Secretaria Municipal da Educação (SME) quando identifica falhas.
O ofício sobre os roedores se soma a uma série de manifestações do colegiado nos últimos meses. Em documentos anteriores, o conselho já havia cobrado da SME informações sobre a infraestrutura das cozinhas e refeitórios da rede e pedido às empresas fornecedoras relatórios de ocorrências e falhas na execução dos contratos.
Em Curitiba, a alimentação escolar da rede municipal é executada por empresas terceirizadas contratadas pela Prefeitura. As duas unidades citadas no ofício são atendidas pela Risotolândia, que produz as refeições em sua central em Araucária, na Região Metropolitana, e as transporta diariamente às escolas.
Ao Plural, a Risotolândia afirmou que não foi comunicada do episódio e joga a responsabilidade pela dedetização das escolas para o poder público.
Sobre o contrato, a empresa sustenta que sua obrigação de controle de pragas se restringe às próprias instalações. Segundo a resposta, conforme o Edital PE 135/2021, "a obrigação contratual da empresa quanto a dedetização e desratização refere-se às dependências próprias da empresa", e "o controle de pragas e a manutenção das unidades escolares em si não integram as obrigações contratuais da empresa, que se limitam à preparação e ao fornecimento das refeições".
O que diz a Prefeitura
A resposta da empresa transfere o foco para a Prefeitura — e é o poder público que, de fato, mantém o controle de pragas nos prédios escolares. A Secretaria Municipal da Educação confirmou ter recebido o Ofício 064/2026 e informou que o documento está em análise técnica para a resposta oficial ao conselho.
Sobre o mérito, a SME apresentou uma versão que atenua o alerta. Segundo a Secretaria, os registros se referem a um espaço de armazenamento localizado em uma área externa, que não é destinada à manipulação, ao preparo ou ao armazenamento de alimentos, e as verificações "não identificaram qualquer situação que comprometesse as condições sanitárias das escolas ou a segurança da alimentação oferecida aos estudantes".
A Secretaria afirma que todas as escolas da rede seguem um programa permanente de controle de pragas, executado por empresa especializada, e que, nas duas unidades, os serviços estão regulares e dentro do prazo de validade. Após tomar conhecimento dos registros, diz ter determinado, de forma preventiva, limpeza complementar, lavagem de áreas específicas e nova vistoria técnica nas unidades.
Há, portanto, uma divergência de avaliação: o conselho classificou a situação como risco à segurança alimentar dos estudantes; a Secretaria diz não ter encontrado comprometimento das condições sanitárias e localiza os vestígios em área externa, fora do circuito da comida.