A Prefeitura de Curitiba já pagou R$ 350 mil a uma empresa de São Paulo apenas para operar o cartão do Vale-Creche — o benefício de até R$ 1.000 por mês que famílias de baixa renda recebem para matricular os filhos em creches privadas. É dinheiro que não paga creche nenhuma: remunera a plataforma financeira que intermedeia o repasse. Para se ter uma ideia, esse valor, aplicado no próprio benefício, teria custeado a mensalidade de cerca de 350 crianças por um mês. Ou cerca de 30 crianças por um ano.
O voucher não é pago à escola, mas à família, por meio de um cartão de bandeira própria habilitado para uso só em creches. Quem opera a plataforma é a Cash In Intermediação e Agenciamento de Serviços S/A, fintech sediada no Itaim Bibi, conhecida pela marca Cashin. O vínculo está no Contrato nº 26.517, assinado em 27 de março de 2025 — cinco dias antes de o prefeito Eduardo Pimentel lançar oficialmente o programa. O objeto, define o contrato, é a "operacionalização do programa Vale-Creche", com "a disponibilização dos recursos aos beneficiários por meio de conta digital ou cartão vinculado à plataforma".
O contrato tem valor global de R$ 49,5 milhões, mas os papéis são separados: até R$ 48 milhões são o próprio dinheiro do benefício, repassado às famílias, e até R$ 1,53 milhão é a remuneração da operadora em um ano. Essa remuneração está detalhada no ajuste: R$ 180 mil pela emissão de 4.000 cartões, a R$ 45 cada; R$ 117 mil pela gestão anual da plataforma; R$ 34,5 mil de taxa única de parametrização; e, o maior item, R$ 1,2 milhão de uma taxa de 2,5% sobre todo o valor que passa pelo cartão. Na prática, a fintech ganha um percentual do dinheiro público que circula por sua estrutura.
Consultada empenho a empenho no Portal da Transparência, a execução do contrato mostra o que de fato saiu dos cofres até novembro de 2025: R$ 5,96 milhões — apenas 12% do teto. Desse total, R$ 5,61 milhões foram o benefício em si, repassado às famílias; e R$ 350.297,50 foram para a Cash In, em três parcelas. Duas delas de R$ 127.625, o duodécimo exato da remuneração anual prevista, e uma menor, de R$ 95 mil, porque a taxa de 2,5% encolhe quando circula menos dinheiro.
Quanto menos o programa funciona, mais caro fica operá-lo
E circula pouco. O contrato foi dimensionado para 4.000 crianças e R$ 48 milhões em vouchers no primeiro ano; a própria SME informa que o programa atende hoje 850 crianças, e que, das mais de 12 mil famílias chamadas em dois anos, apenas 1.682 chegaram a matricular o filho. A subexecução aparece até nas anulações: o município chegou a empenhar e depois cancelar R$ 618 mil que não viraram benefício.
Essa distância entre o previsto e o realizado tem um efeito perverso sobre o custo da operação. No desenho original, a remuneração da fintech equivaleria a 3,2% do dinheiro repassado — R$ 1,53 milhão sobre R$ 48 milhões. Mas, como os custos fixos da plataforma (emitir cartões, parametrizar o sistema, manter a gestão) incidem sobre um volume muito menor do que o planejado, a fatia efetiva quase dobrou: dos R$ 5,61 milhões que chegaram às famílias até novembro, R$ 350,3 mil ficaram com a operadora — 6,2%. Quanto menos o Vale-Creche entrega, proporcionalmente mais caro fica mantê-lo rodando.
Daí a comparação que dá a medida do gasto. Os R$ 350,3 mil pagos à Cash In equivalem a cerca de 350 vouchers mensais de R$ 1.000 — ou seja, o que se gastou apenas para operar a plataforma daria para custear a creche de 350 crianças por um mês, quase metade das 850 que o programa efetivamente atende. É uma conta que o próprio Vale-Creche paga: o dinheiro que remunera a intermediação financeira poderia, ele mesmo, estar dentro de uma sala de aula.
Há ainda a forma como a empresa foi contratada. O ajuste não passou por licitação: foi feito por dispensa, na modalidade de contratação emergencial prevista no artigo 75 da Lei de Licitações, aquela reservada a situações urgentes e imprevisíveis. Só que o Vale-Creche não era imprevisto — era promessa de campanha do prefeito, virou lei em 11 de março de 2025 e foi lançado em cerimônia no dia 2 de abril. Mesmo assim, o operador financeiro foi contratado às pressas, num contrato que o próprio texto classifica como improrrogável e provisório, a valer "até a conclusão de um novo Pregão Eletrônico".
Mas por que tanta pressa? Segundo o contrato, a Cashin tem duas funções no programa: levar o dinheiro até as famílias e garantir que o dinheiro foi gasto no pagamento de mensalidade escolar. Ou seja, os R$ 350 mil foram gastos para garantir que ninguém gaste como nada além da mensalidade da creche contratada. Tanto na lei do programa quanto na portaria que o regulamenta existia já uma provisão de que as famílias teriam que apresentar à prefeitura o comprovante do pagamento à escola. Mesmo assim a Secretaria Municipal da Educação preferiu pagar R$ 350 mil à Cashin exatamente a mesma coisa.
A contratação que hoje sustenta o Vale-Creche nasceu como emergência e ainda não foi substituída por uma licitação concluída. O contrato com a Cash In, assinado em 27 de março de 2025 por dispensa, definia-se como improrrogável e provisório, a valer "até a conclusão de um novo Pregão Eletrônico". Esse pregão — o PE 63/2026, protocolo 01‑091097/2026 — só foi cadastrado em 31 de março de 2026, praticamente quando o contrato emergencial de um ano expirava; o edital foi aberto em 29 de junho de 2026 e, na consulta desta reportagem, o processo seguia como "Processo de Compra Montado", sem nenhum fornecedor participante. Ou seja, a urgência que justificou dispensar a concorrência durou o contrato inteiro, e a licitação de verdade só começou a andar depois de o prazo emergencial acabar.
O que muda do contrato emergencial da Cashin para o novo pregão
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Cash In Contrato 26.517 · dispensa emergencial · mar/2025 |
PE 63/2026 novo pregão · valores máximos estimados |
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| Modalidade | Dispensa (contratação emergencial) | Pregão eletrônico (menor valor) |
| Valor global | R$ 49,53 mi | R$ 54,40 mi |
| Crianças previstas | 4.000 | 4.200 |
| Voucher por criança | R$ 1.000/mês | R$ 1.050/mês |
| Repasse às famílias (voucher) | até R$ 48,00 mi | até R$ 52,92 mi |
| Remuneração da operadora | até R$ 1,53 mi | até R$ 1,48 mi |
| — Taxa sobre valor transacionado | 2,5% | 2,38% |
| — Gestão anual da plataforma | R$ 117.000 | R$ 103.352 |
| — Implantação / parametrização | R$ 34.500 | R$ 76.750 |
| — Suporte técnico e manutenção | — | R$ 41.216 |
| — Emissão de cartões físicos | 4.000 × R$ 45,00 | 100 × R$ 27,80 |
Observação: o PE 63/2026 é julgado pelo menor valor — os números da coluna são, portanto, os tetos máximos estimados pela Prefeitura; na disputa, os licitantes podem oferecer valores mais baixos. Os valores da Cash In são os do contrato firmado ("até"). Fonte: Contrato nº 26.517 e edital/termo de referência do Pregão Eletrônico nº 63/2026 (Portal da Transparência de Curitiba). Cifras em milhões de reais foram arredondadas.
Quando saiu, o edital não trouxe um modelo novo: repete o desenho estreado pela Cash In. O município volta a dividir o valor entre o dinheiro do voucher, repassado às famílias, e a remuneração de uma operadora de meios de pagamento, calculada da mesma forma — uma taxa percentual sobre o valor que passa pelos cartões, somada a gestão da plataforma, implantação e emissão de cartões. As cifras mudam pouco: a taxa sobre o valor transacionado cai de 2,5% para 2,38%, a remuneração estimada da operadora recua de R$ 1,53 milhão para R$ 1,48 milhão em um ano, e o cartão físico quase desaparece, substituído pela conta digital. O valor do benefício, esse, sobe: de R$ 1.000 para R$ 1.050 por mês por criança.
O ponto que salta, porém, é a escala. Embora o programa venha atendendo muito menos gente do que prometeu — 850 crianças hoje, e apenas 1.682 matrículas efetivadas entre mais de 12 mil famílias chamadas em dois anos —, a nova licitação foi dimensionada para atender ainda mais. O valor global estimado sobe de R$ 49,5 milhões para R$ 54,4 milhões, e o número de crianças previstas passa de 4.000 para 4.200. A Prefeitura projeta, portanto, ampliar um programa cuja execução real, até novembro de 2025, consumiu apenas 12% do contrato anterior — e que chegou a ter R$ 618 mil empenhados e depois cancelados por falta de uso. Enquanto isso, a rede própria de creche, que a lei do Vale-Creche promete ampliar "até que a rede pública dê conta da demanda", segue estagnada.