A greve do magistério municipal de Curitiba, deflagrada em 8 de abril, destravou pautas que estavam paradas havia anos — chamamento de aprovados em concurso, descongelamento do crescimento na carreira, ampliação do vale-alimentação. Mas os dois problemas que o sindicato considera mais graves continuam sem resposta da Prefeitura: o adoecimento das professoras e a forma como a rede municipal faz — ou deixa de fazer — a inclusão de crianças com deficiência e neurodivergentes.
A avaliação é de Diana Cristina de Abreu, presidenta do Sindicato dos Servidores do Magistério Municipal de Curitiba (Sismmac), em entrevista ao vivo pelo Instagram do Plural, conduzida pelo jornalista Rogério Galindo.
O sindicato representa cerca de 12,6 mil profissionais do magistério na ativa e quase 8 mil aposentadas — mais de 45% do total de servidores municipais, segundo Abreu. A categoria é composta por cerca de 95% de mulheres.
Para a presidenta do Sismmac, o primeiro ano da gestão de Eduardo Pimentel (PSD), em 2025, não cumpriu as promessas feitas aos servidores durante a campanha. Ela atribui a paralisia à continuidade de um projeto que identifica com o pacotaço de 2017 — o conjunto de medidas adotado no primeiro ano da gestão Rafael Greca (PSD) que congelou carreiras e suprimiu direitos —, e ao retorno de Vitor Puppi ao comando das Finanças do município.
"Ele foi eleito com promessas específicas para os servidores. O primeiro ano a gente não viu nada, não viu esse avanço, não viu o cumprimento de promessa, nenhum aceno de cumprimento de promessa", afirmou.
O sindicato começou 2026, nas palavras dela, "sem nenhuma paciência". Organizou no primeiro trimestre uma das maiores assembleias de sua história, com quase mil pessoas presentes, e outra, pouco antes da greve, com 2,5 mil participantes on-line para avaliar uma proposta da Prefeitura.
Abreu rebate a leitura, feita pelo prefeito durante o aniversário da cidade, de que a greve teria motivação política em sentido eleitoral. "Evidentemente, ele estava se referindo à política eleitoreira, eleitoral. E, de fato, não era, era uma demanda extremamente legítima da comunidade", disse, afirmando que a categoria recebeu apoio de pais e mães.
Entre os resultados da mobilização, ela cita a ampliação do número de vagas para crescimento na carreira, o descongelamento, a garantia de chamamentos dos últimos concursos e a ampliação do vale-alimentação. Na semana seguinte à entrevista, segundo a presidenta, estava prevista a nomeação de 92 professores de educação física — outro compromisso firmado no fim da greve.
Mesmo com o descongelamento, o número de vagas abertas contempla cerca de metade das professoras que se inscreveram para crescer na carreira. "Você tem que fazer greve para isso, mesmo depois de 10 anos", resumiu.
Turmas com mais de 30 alunos
O Plano Municipal de Educação, aprovado em 2014, previa no máximo 25 crianças por turma no primeiro ciclo — pré, 1º, 2º e 3º ano. Segundo Abreu, o plano nunca foi cumprido, nem na gestão Greca nem na atual. Portarias municipais fixam 30 crianças nessas turmas, e a possibilidade de matricular mais 10% em casos de vaga compulsória, como encaminhamentos do Conselho Tutelar, faz o número chegar a 33 com uma única professora. No 4º e 5º ano, o teto é de 35, também com a margem adicional.
A superlotação se cruza com o aumento das matrículas de crianças com laudo. Enquanto a demanda por educação inclusiva cresce, diz a presidenta, a rede de apoio foi desmontada: desde 2017 não há mais psicólogos nos centros municipais de atendimento especializado, que fazem a avaliação e o encaminhamento dessas crianças. Profissionais qualificados também foram substituídos por estagiários na função de apoio em sala.
"Nós não somos contra os estagiários, eles estão lá, eles fazem o trabalho deles. Mas o que acontece é: eles não são profissionais", afirmou. "O estagiário está numa condição de aprendente." Se sofre um acidente de trabalho na escola, acrescenta, não está amparado. O sindicato defende que a atividade seja exercida por profissional concursado e especializado.
Na prática, segundo ela, o atendimento qualificado só é garantido quando a família aciona a Justiça — o que envolve custo de advogado e, antes disso, o custo de saber que o direito existe. E, mesmo quando a criança consegue o tutor, o atendimento é de um período só: se ela permanece em tempo integral na escola, fica sem apoio no outro turno. "A Prefeitura decidiu que no outro turno a criança não precisa."
O resultado é uma professora com 33 alunos, dos quais até dez podem ser neurodivergentes, com ou sem laudo. "Se ela tivesse menos alunos, conseguiria muitas vezes se antecipar a uma desregulação do estudante. Mas é muito barulho, é uma situação mais difícil."
Mordidas, arranhões e ansiolíticos
A consequência mais visível, diz o sindicato, são os acidentes de trabalho. Professoras que terminam o dia com mordidas, arranhões e puxões de cabelo. "Nós não podemos naturalizar isso, porque é a Prefeitura que está negligenciando esse atendimento da criança", afirmou Abreu.
O ambiente físico agrava o quadro. Segundo ela, muitos aparelhos de ar-condicionado comprados para as escolas não funcionam porque a rede elétrica não comporta a carga. O sindicato faz campanha com o trocadilho: no verão, as salas de aula viram "saunas de aula". "E aí você imagina para uma criança neurodivergente, esse calor todo. É lógico que essa criança vai se desregular."
O sindicato tem orientado as professoras a registrar CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho) e avalia judicializar casos em que a Prefeitura não reconhece o acidente. Uma dessas disputas já rendeu liminar: a Procuradoria do Município entende que, se a professora trabalha 40 horas em dois períodos e sofre acidente em um deles, o reconhecimento e os direitos decorrentes valem apenas para aquele período. "Como se fossem duas pessoas. E na verdade nós somos um CPF só."
Há também o adoecimento que não deixa marca visível. "Você ter numa sala de professores quase que unanimidade de professores tomando medicação, por exemplo, de ansiolítico, não é normal", disse a presidenta, que é doutora e pesquisou carreira docente no Chile. Segundo ela, muitas professoras retardam a busca por ajuda médica para não sobrecarregar colegas — e por medo de perder direitos, já que o plano de carreira de Curitiba prevê punições a quem adoece. Quem entra em licença perde a possibilidade de crescimento na carreira; professoras da educação especial afastadas por laudo permanente perdem 30% da remuneração.
"O adoecimento tem que ser enfrentado pela gestão municipal enquanto há tempo. Porque o professor adoecido precisa que alguém o substitua. E isso é recurso público também."
O sindicato tem buscado parcerias com universidades para qualificar a pauta da saúde da categoria e propor alternativas de médio prazo.
Violência contra professoras e discurso de ódio
Abreu associa o aumento da violência nas escolas ao que chama de caos gerado pela própria Prefeitura. Quando faltam condições de trabalho, diz, a família que chega à escola e não é atendida descarrega sobre quem está na ponta. "A escola é o braço do Estado mais próximo. Não é o Pimentel que está todo dia dentro da escola atendendo a população. Não é o Puppi, é a professora."
Ela atribui parte do problema à retórica de ódio contra o magistério — "um ódio que gera like, um ódio que gera engajamento, que dá voto e que fere as pessoas que estão no cotidiano da escola" — e cita um vereador que, segundo ela, a atacou durante participação na Tribuna Livre da Câmara e responde por isso na Comissão de Ética.
Quando uma professora agredida precisa registrar boletim de ocorrência ou de assistência jurídica, afirma, é o sindicato que acompanha: o município não oferece esse atendimento. O Sismmac se sustenta com a contribuição mensal de quase 10 mil filiados, em adesão voluntária — modelo que, segundo Abreu, já era o do sindicato antes do fim do imposto sindical e por isso não sofreu o baque que atingiu outras entidades.
Setembro terá mês de luta contra o desconto de 14%
Servidores aposentados de Curitiba continuam contribuindo para o IPMC, o regime próprio de previdência do município. Até as reformas da Previdência — a federal, de 2019, e a municipal, de 2021 —, a alíquota de 14% incidia sobre o que excedia o teto do INSS, hoje na casa dos R$ 8 mil. Hoje incide sobre o que excede dois salários mínimos. No governo estadual, a cobrança começa a partir de três salários mínimos.
"Você tira do remédio da pessoa para colocar no fundo de previdência", disse Abreu, lembrando que a Prefeitura tem dívida histórica com o fundo: descontava dos servidores e não depositava.
O fim do desconto foi promessa de campanha de Pimentel. Sismmac e Sismuc organizam para setembro um mês de luta contra o que chamam de confisco das aposentadorias, com seminário no dia 15 e ato em frente à Prefeitura no dia 30.
Merenda: nova licitação como janela
O contrato da alimentação escolar vence e será relicitado neste ano — momento que o sindicato considera decisivo. Hoje o mercado em Curitiba é operado por Risotolândia e Singular. "Eu vou fazer 50 anos o ano que vem, entrei na Prefeitura com 22 anos. E a Risotolândia já fazia", observou a presidenta. "Não deve ser porque eles estão perdendo dinheiro."
Ela questiona por que o ajuste fiscal de 2017 recaiu sobre servidores sem rever contratos com fornecedores. E aponta falhas concretas de fiscalização: as prestações de contas de 2024 e 2025 vêm sendo aprovadas ad referendum no Conselho Municipal de Alimentação Escolar (CAE) porque os conselheiros — que atuam praticamente como voluntários — não se sentem seguros para aprová-las diante do volume de notas e de uma série de pendências. Não há controle de sobras nem de aceitabilidade, e a presença de conferentes nas escolas para checar o que chega é questão histórica nas atas do conselho.
Outro ponto que o sindicato quer ver endurecido na próxima licitação é a rastreabilidade. Como a fornecedora produz alimentação para várias empresas no mesmo local, argumenta Abreu, cabe à Prefeitura, como contratante, garantir que o que é pago para as escolas chegue às escolas.
Ela relata ter encontrado, em uma escola onde trabalhou, um hot box apodrecido com chorume acumulado numa fissura — recipiente em que a comida é transportada e sobre o qual se coloca um plástico antes de servir. A validade dessas caixas, lembra, foi uma conquista do CAE.
A pauta seguinte é estrutural: refeitório. "Em Curitiba a gente normalizou a merenda ser servida dentro da sala de aula", disse. "Nós não podemos naturalizar as crianças mais pobres comendo macarrão plástico. Isso não é digno." Para ela, escolas novas precisam ser construídas com refeitório, e a população precisa cobrar isso. "A escola também cumpre uma tarefa civilizatória."
Durante a greve, disse na Câmara que gostaria de ver servido aos vereadores, por uma semana, o mesmo lanche que vai para as crianças.
O Plural vem publicando uma série de reportagens sobre problemas na merenda escolar de Curitiba, incluindo um dossiê de reclamações apresentado pela própria Risotolândia em processo judicial. Boa parte desses documentos, segundo Abreu, teve origem em denúncias do sindicato, do CAE e da própria gerência municipal de alimentação escolar. As professoras, diz ela, fotografam e enviam os problemas em tempo real por um canal do sindicato.
Imagem das crianças
Último tema da conversa, o uso de imagens de alunos em comunicação institucional e política. Abreu confirmou que os pais não são obrigados a assinar as autorizações entregues no início do ano letivo — e que, mesmo quem assina, autorizou o uso no contexto escolar, não em rede social de político.
"Se o pai ou a mãe vir uma foto da criança numa rede social de um político, também tem que procurar os seus direitos. Porque não autorizou para aquilo", afirmou. "As crianças precisam ser protegidas, e o prefeito tem que dar o exemplo, não ficar utilizando isso para se promover."