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Pedidos sobre população de rua triplicam na Câmara de Curitiba

Os pedidos da Câmara de Curitiba sobre população de rua passaram de 21 para 199 em dois anos. A Casa aprovou um cadastro; a população quase triplicou desde 2018

Pedidos sobre população de rua triplicam na Câmara de Curitiba
Pessoa em situação de vulnerabilidade em Curitiba. Foto: Tami Taketani/Plural

Os pedidos da Câmara Municipal de Curitiba que tratam de população em situação de rua passaram de 21 em 2023 para 69 em 2024 e 199 em 2025, segundo levantamento do Plural na base de proposições da Casa. Em 2026, até julho, já eram 159.

Em 10 de agosto de 2026, os vereadores aprovaram, em segundo turno e por 19 votos a 8, um projeto que cria o cadastro municipal de pessoas em situação de rua. O texto, um substitutivo ao projeto do vereador João Bettega (PL), estabelece regras para identificar, quantificar e organizar informações sobre essa população. A coleta de dados sensíveis, como saúde e dependência química, depende de consentimento, e o cadastro não prevê reconhecimento facial nem uso pelas polícias. A proposta segue para sanção do prefeito.

O avanço foi mais rápido que o da Câmara como um todo. A produção geral de proposições dobrou de 2024 para 2025 (de 24.303 para 52.385); a dos pedidos sobre população de rua quase triplicou. Medido em proporção, o tema saiu de 7 para 38 a cada 10 mil proposições entre 2023 e 2025, e chegou a 49 em 2026.

O Plural trabalhou com o recorte estrito — ementas que citam "situação de rua", "população de rua", "morador de rua", "Centro POP", casa de passagem, albergue ou pernoite. Somados os despachos de "abordagem social", requerimentos que pedem a ida da equipe a um endereço específico, o total de solicitações de 2025 chega a 431. Dessas, 226 partiram de um único gabinete, o do então vereador Bruno Secco (PMB).

A conta que não fecha

Enquanto os pedidos aumentavam, a população em situação de rua registrada também crescia. Pela base do Cadastro Único, Curitiba tinha cerca de 1.572 pessoas nessa condição em janeiro de 2018 e 2.832 em 2021. Em abril de 2026, eram 4.644 — 4.163 homens e 481 mulheres, segundo resposta da Fundação de Ação Social (FAS) a um pedido da Comissão Especial para a Superação da Situação de Rua (proposição 062.00849.2026). O número quase triplicou em oito anos.

A capacidade de acolhimento não acompanhou. A FAS informou dispor de 1.188 vagas em 2018 e de 1.640 em 2026, com a possibilidade de abrir mais 129 em períodos de frio. É um aumento de 38% nas vagas para uma população que cresceu quase 200%.

Parte da resposta do município a esse crescimento é o encaminhamento de pessoas para fora de Curitiba. A Casa da Acolhida e do Regresso (CAR), da FAS, atendeu 833 pessoas em situação de rua em 2025 e, dessas, 643 resultaram em encaminhamentos para as cidades de origem, informou a Prefeitura em resposta à Câmara (proposição 062.00166.2026). A FAS descreve a prática como "reintegração e retorno familiar".

O então vereador Bruno Secco pediu esses dados e quis ir além. Em 1º de julho de 2026, sugeriu ao Executivo "o cancelamento ou a revogação de benefícios assistenciais não essenciais concedidos a pessoas em situação de rua que recusarem, injustificadamente, o retorno à cidade de origem, o tratamento voluntário para dependência química, cursos de qualificação profissional ou oportunidades de emprego" (proposição 205.00447.2026).

Secco não concluiu o mandato. Em agosto de 2026, o TRE-PR anulou a chapa do PMB nas eleições de 2024 por fraude à cota de gênero — a candidatura de Telma Nogueira foi considerada fictícia — e cassou os vereadores eleitos pela legenda. Os 11.436 votos que elegeram Secco foram anulados. Em seu lugar, assumiu Matteus Henrique (PT), em 3 de agosto.

Como o Plural apurou

O Plural raspou a íntegra do SPL da Câmara e baixou, pelo próprio sistema, as respostas do Executivo aos pedidos de informação sobre o tema, convertendo por reconhecimento ótico os ofícios digitalizados. A contagem de proposições depende das palavras-chave usadas: por isso o texto separa o recorte estrito dos despachos de "abordagem social". Os números de população vêm do Cadastro Único, informado pela FAS em datas diferentes; um censo oficial da população em situação de rua chegou a ser anunciado pelo município em 2024, mas os dados citados aqui são do cadastro. A fonte de cada número está reunida na base do Plural.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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