“Cardiograma de Gente Viva” é o primeiro livro de Patricia Yamasaki e já esteve presente na programação paralela oficial da Flip, um dos mais relevantes festivais literários do país. A obra reúne 70 poemas, divididos em seis partes, tendo o cardiograma – e seus altos e baixos – como fio condutor. O livro será lançado em Curitiba, cidade onde a autora reside desde criança, no dia 22 de agosto, em evento na Escola de Escrita.
A autora é filha de pai japonês e mãe brasileira e neta de avós nascidos no Japão. Ela conta que sempre se reconheceu brasileira, mas havia algo que nunca encontrava um lugar inteiramente confortável. Foi a primeira viagem ao Japão que trouxe mais encaixes e compreensões, que se refletem no livro.
Quando fui, em 2024, descobri que aquilo que eu julgava ser só meu era herança compartilhada: a delicadeza, o silêncio, a economia do gesto eram uma língua que muita gente falava, e havia até palavras para o que em mim era mudo. “Ma”, o intervalo. “Iwanu ga hana”, o silêncio que é flor. Pela primeira vez, os olhos na multidão encontraram espelho. É essa a diferença que mais me marca: em Curitiba o silêncio era solidão; no Japão, virou pertencimento.
Ainda que o livro parta desse processo de reconhecimento da herança nipo-brasileira, a autora afirma que “não gostaria que ele fosse lido apenas por essa chave. Ser nipo-brasileira é o chão de onde eu escrevo, atravessa tudo o que faço — mas o livro não é sobre isso, é a partir disso”.
Um leitor sem nenhum vínculo com o Japão pode se reconhecer no verso sobre a mãe, na cicatriz, na casa vazia — porque essas coisas não têm nacionalidade. O livro é um cardiograma justamente por isso: aposta na vida como oscilação, no susto de continuar viva, contra a linha reta da apatia.
Por isso o livro não é um manual de identidade. É mais um convite ao contrário: ao direito de não se explicar, de não caber no pronto-para-vestir. É o que eu gostaria de oferecer — não uma resposta sobre o que é ser nipo-brasileiro, mas permissão para habitar a fissura.
Estreia na Flip
O pré-lançamento de “Cardiograma de Gente Viva” aconteceu na Casa Acaso, que é parte da programação paralela oficial da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que foi realizada entre os dias 22 e 26 de julho. Para o Plural, a autora contou como foi participar do evento:
Foi uma honra — e não digo isso por fórmula. Para uma autora de estreia, chegar à Flip é raro, e só aconteceu graças a todo o suporte do Selo Esc., da Escola de Escrita. Fazer o pré-lançamento na Flip teve, ainda, o peso de uma coincidência que parecia combinada. Era uma Flip organizada em torno do deslocamento, com Orides Fontela homenageada — uma poeta de poemas curtos, de concisão, que é exatamente o terreno em que meu livro respira.
O livro
“Cardiograma de Gente Viva” nasceu como projeto pessoal de Patricia – que também é doutoranda em Direito Constitucional – e foi escrito à margem da rotina jurídica. O livro levou dois anos para ficar pronto, em um percurso de oficinas na Escola de Escrita. Entre as referências que Patricia Yamasaki cita para a sua escrita estão Alice Ruiz, Matilde Campilho, Ana Martins Marques, Wisława Szymborska e Cristina Peri Rossi.
O livro conta com ilustrações de Adriana Komura, que foi a responsável pelas ilustrações da autobiografia “Abandonar um Gato”, do premiado autor japonês Haruki Murakami. Adriana ganhou o Prêmio Merit em duas edições do Society of Publication Design e foi finalista do Prêmio Jabuti 2018 de ilustração, além de ter integrado a lista de selecionados do World Illustration Awards 2023.

Serviço
Lançamento do livro “Cardiograma de Gente Viva” com bate-papo com a autora.
Data: 22 de agosto
Local: Esc. Escola de Escrita - Praça Gen. Osório, 379
Horário: a partir das 11h e bate-papo com a autora às 12h30