Após bater o ponto às 16h no trabalho como analista de equipamentos de telecomunicações, Bruno Brandão, 38 anos, troca o ofício pela fotografia e segue, com câmera em mãos, para o centro da cidade, pouco antes de o dia virar noite. Vai para flanar e fotografar o cotidiano. Gosta da contraluz e de enquadrar as pessoas no espaço público. Faz isso desde 2023 como um hobby, como uma terapia.
Para Bruno, Curitiba oferece justamente aquilo que procura na fotografia de rua: variedade de personagens, arquiteturas, luzes e situações. É essa combinação, somada à imprevisibilidade do que acontece nas ruas, que o cativa e inspira.
Foi assim com uma de suas fotografias mais marcantes. Em uma manhã de fim de semana, enquanto caminhava pelo centro com um pequeno grupo de fotógrafos, já havia passado cerca de uma hora sem que nada lhe chamasse especialmente a atenção. Até encontrar um senhor alimentando pombos na praça Generoso Marques.
Bruno e os outros fotógrafos se aproximaram com cuidado. Sabiam que uma câmera apontada sem aviso poderia constrangê-lo. Bruno explicou o que fazia e pediu autorização para fotografá-lo. De poucas palavras, o senhor disse o nome, contou que gostava de alimentar os pássaros na praça e aceitou o registro. Brandão apertou o disparador, mas resistiu à tentação de conferir a imagem na tela da câmera. Só a viu quando chegou em casa. O resultado o surpreendeu.
A fotografia acompanha Bruno desde a infância em sua terra natal, Assis Chateaubriand, município do oeste do Paraná. Desde pequeno, cultivava o hábito de observar e encontrava nas câmeras analógicas da família uma forma de registrar aquilo que chamava sua atenção.
Nos anos 1990, porém, cada clique precisava ser economizado. Os rolos tinham poucas poses e, para os adultos, deveriam ser reservados principalmente às fotografias de família. O pequeno preferia apontar a câmera para outros detalhes — árvores, cadeiras, faixas de luz.
Parte desse olhar da infância permanece em seu trabalho autoral. O contraste entre luz e sombra, por exemplo, tornou-se uma de suas marcas. “Tenho uma coisa ligada à luz, àquela coloração dourada no céu. Sou apaixonado por isso, pela iluminação do fim de tarde”, confessa.
Embora tenha começado a fotografar as ruas como passatempo, Bruno passou recentemente a se inserir também no circuito profissional com trabalhos, exposições, publicações. O envolvimento com a fotografia de rua também levou Bruno a cofundar o Coletivo Rua Brasil, rede que reúne fotógrafos de diferentes regiões do país.

No mesmo sentido de evolução, se em 2023 buscava composições mais simples, hoje prefere cenas carregadas de informações e diferentes planos. “Minha fotografia hoje tem muitas camadas, muita coisa acontecendo. Gosto de fotografar cenas assim”, relata.
Em um registro feito em São Paulo, por exemplo, esperou que uma mulher carregando uma flor se aproximasse de um casal que vivia um momento de intimidade na rua. No momento do clique, a composição reunia três elementos que buscava: a flor, o casal e uma entrada de metrô ao fundo. Só depois, durante a edição, percebeu outros personagens espalhados pelo quadro, entre eles uma mulher ouvindo música.
Essa busca por construir enquadramentos em diferentes camadas tem como uma das principais referências o fotógrafo norte-americano Alex Webb. Assim, Bruno procura distribuir pessoas, luzes e acontecimentos pelo quadro, criando diferentes pontos de interesse. “Olho e tento preencher a fotografia para equilibrar tudo.” Ainda assim, acredita que a fotografia de rua depende do acaso.
Com o tempo, passou a reconhecer os ritmos próprios das ruas de Curitiba. Classifica a segunda-feira como o dia mais complicado e coloca a sexta-feira no topo do pódio. Na sexta e nos fins de semana, percebe as pessoas mais abertas às aproximações e aos sorrisos. “As tardes de sexta são perfeitas”, resume. E é justamente essa disponibilidade ao acaso que o faz voltar às ruas: “Curitiba e a rua têm muitos momentos. Você se surpreende com uma luz, um encontro, uma cena”.
Confira algumas imagens registradas por Bruno Brandão:











Bruno Brandão é fotógrafo natural de Assis Chateaubriand, município do oeste do Paraná, e atua principalmente com fotografia de rua no Brasil. Sua pesquisa visual se desenvolve nas cidades, a partir da observação de cores, arquitetura, luz, silhuetas e fragmentos do cotidiano. É cofundador do Coletivo Rua Brasil, rede nacional que reúne fotógrafos de diferentes regiões do país que registram e compartilham cenas cotidianas, gestos e aspectos da identidade visual das cidades brasileiras.
Acompanhe os trabalhos de Bruno:
instagram.com/brunobrandao_
https://www.brunobrandao.com.br/
Conheça o Coletivo Rua Brasil
instagram.com/coletivoruabrasil
Este texto integra o projeto Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional
