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Histórias por trás dos adesivos do centro

Reportagem percorre o centro de Curitiba para ouvir as histórias de quem anuncia nos postes da cidade

Histórias por trás dos adesivos do centro
Placa com adesivos no cruzamento da XV com a Rua Riachuelo. Foto: Eric Rodrigues/Plural

Andando pelos quarteirões do centro de Curitiba, um senhor vai com uma espátula em uma mão e um borrifador com um líquido na outra. Retirar os anúncios nos postes é a sua maior obsessão. Diante de uma multidão que cruza o calçadão da XV e região às 12h em um dia útil, se incumbe da missão e busca o mesmo tipo de alvo na Rua Marechal Deodoro.

Por quase 40 minutos, o senhor antipublicidade pratica uma arrancada metódica entre um poste e outro até chegar perto do Bondinho da Leitura. Me aproximo. “Bom dia, senhor! Sou jornalista e gostaria de conversar contigo…”. “Não tem conversa”, respondeu atravessado. “É que fiquei curioso sobre e gostaria de conversar melhor”, insisti. “Não tem conversa”, repetiu. Acelerou os passos na altura da Boca Maldita e sumiu de vista na Praça General Osório.

A entrevista negada gerou frustração, mas instigou uma ideia de pauta sobre as histórias das pessoas e estabelecimentos por trás dos adesivos. Toda a extensão do calçadão concentra os mais variados anúncios: joias, tarô, música, programa adulto, e por aí vai. Após algumas mensagens enviadas propondo uma conversa, algumas fontes toparam falar sobre o que estava nesses anúncios.

De pai para filha

Adesivo da Laísla Ourives encontrado no centro de Curitiba. Foto: Eric Rodrigues/Plural

Na esquina da XV com a Rua Monsenhor Celso, o adesivo de Laísla Ouvires representa uma profissão cercada de histórias e pormenores. Graduada em Artes Visuais pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP), Laísla Oliveira, 28 anos, veio de Sarandi, norte do estado, para a capital quando passou no vestibular, em 2017.

Apaixonada pelo que faz, descreve a ourivesaria como uma das profissões mais antigas do mundo. Esse trabalho consiste em transformar metais em joias — anéis, pulseiras, brincos, correntes, etc. — seja com metais nobres ou populares, como o cobre e o latão.

Laísla se aproximou do ofício pelo gosto do trabalho manual e decidiu aprender com o pai, ourives há mais de 40 anos na região — um dos últimos da velha guarda. A filha conta que o pai começou no ramo aos catorze anos com o marido de uma tia, que lhe ofereceu uma oportunidade como aprendiz. Foi mostrando o básico em uma oficina até ele se convencer de que poderia dar conta do serviço.

O pai partiu rumo ao centro de Maringá para trabalhar em uma joalheria tida como pioneira na cidade, mas que já fechou as portas. Recebia por peça: a joia, o conserto ou a encomenda chegavam, ele executava, a loja ficava com uma parte e ele com metade. Foi ali, na prática, que ele aprimorou tudo. Ourivesaria de bancada: aprender fazendo, batendo a cabeça. Ainda hoje, o pai é um dos únicos que dominam certas técnicas.

A filha relata que o início na profissão foi penoso. O pai relutava em ensinar, e ela descobriu que isso era uma característica da região. “No Paraná, a ourivesaria é considerada uma profissão masculina. Quando comecei, ouvi de tudo dos colegas de trabalho dele: ‘Você é louco de ensinar uma mulher’ (…) ‘Mulher não sabe fazer isso’. Escuto esse tipo de frase até hoje. O diálogo inicial com o meu pai foi uma guerra de trincheira. Melhorou um pouco com o tempo, mas volta e meia o machismo reaparece”, disse.

Esses empecilhos a fizeram desistir e recomeçar inúmeras vezes. Não era apenas a dificuldade técnica que pesava, mas o desânimo de saber que alguém recusaria uma encomenda por ser mulher.

Nem imaginava que o gênero seria uma questão quando decidiu a profissão, mas logo se deparou com isso. Começou a pesquisar o tema por conta própria e descobriu ser uma peculiaridade do Sul do Brasil e que, em alguns estados do Norte e do Nordeste, a ourivesaria é tida como uma profissão feminina.

Já tem três anos que se formou na Belas Artes em Curitiba e retornou para Sarandi, cidade vizinha de Maringá. Conseguiu construir uma rede de clientes fixos, formada em sua maioria por mulheres — seu pai, ao contrário, tem uma dominância de clientes homens.

A profissão é rara e está sumindo, engolida por tecnologias que facilitam o trabalho e por e-commerces que colocam os custos de produção em xeque. Segundo a ourives, alguns interessados fazem contatos e passam os detalhes do pedido para um orçamento, mas contestam os custos finais em comparação com os anúncios de R$ 20 que encontraram na Shopee.

“A cada dia aparecem mais atalhos, como a modelagem em cera, a impressão 3D, as máquinas que fazem em segundos o que antes levava dias. Tenho vontade de aprender essas novas dinâmicas, mas meu coração pende para o tradicional. Sei que é um caminho em extinção, e talvez por isso eu o defenda com mais unhas do que deveria”, confessa .

Laísla Oliveira no seu ateliê. Foto: Arquivo Pessoal
Acompanhe o trabalho de Laísla Ourives no Instagram: @laislaourives

Um bando de artistas

Adesivo da Rando Bando encontrado no centro de Curitiba. Foto: Eric Rodrigues/ Plural

No fim do calçadão da XV que encontra a Rua Desembargador Ermelino de Leão, um adesivo desperta atenção pelo suspense. A ilustração mostra uma ratazana que abre um casaco com um QR-Code estampado. A câmera do celular foca no código e direciona para uma animação gráfica com links de contato do Rando Bando, um estúdio de animação e motion design com sede no centro de Curitiba.

Descrito pelos criadores como “um bicho suspeito”, parece estar vendendo algo ilegal. É uma figura que instiga a curiosidade. A escolha estética não é casual porque dialoga com a identidade do estúdio como algo “à margem”, que faz as coisas de forma não convencional.

Por trás da ratazana digital, há três amigos que fundaram a empresa. Bebeto Cahali, Luis Naza e Mateus Klein (os três com 32 anos), se conheceram ainda na graduação em Design pela UFPR e UTFPR nos eventos do centro acadêmico e por amizades em comum. Se aproximaram devido às referências compartilhadas no universo da animação. 

Em 2020, começaram a se reunir em projetos freelancer, de forma orgânica. O ponto de virada veio no mesmo ano, com a oportunidade de realizar um grande projeto para o evento Games XP em São Paulo, em parceria com a CCXP e a Globo. O trabalho, que aconteceria inteiramente online (por causa da pandemia), exigiu que o grupo se estruturasse como estúdio profissional — e eles deixaram seus empregos anteriores para se dedicar por inteiro ao Rando Bando.

A escolha do nome passou por uma etapa criteriosa que priorizou a sonoridade tanto para ouvidos brasileiros quanto estrangeiros — a ponto de a equipe testar cerca de cinco ou seis opções com pessoas de fora, antes de cravar a escolha.

Segundo a equipe, este nome carrega significados plurais que brincam com a ideia de coletivo (“bando”) e com a mistura de estilos (“rando”). Remete também a uma ideia de agrupamento de pássaros ou banda musical quanto a um bando de “fora da lei”. Parte desta relação vem de uma cultura pop da MTV nos anos 1990.

A conexão com o fim do século passado gerou uma gama de trabalhos autorais que mesclam arte digital e objetos analógicos. Em 20 de dezembro de 2024, o estúdio fez uma publicação de férias que exemplifica essa relação. No post, quatro animações digitais caminham por alguns pontos do centro curitibano; as imagens dos cenários são reais e filmadas em dias comuns.

“A gente percebeu isso desde o começo: tinha uma galera que já estava bem estabelecida, que entregava trabalhos digitais de qualidade muito alta, mas eles eram meio parecidos. Então passamos a apostar nessa variação de estímulos e dessa impressão digital humana — tipo a palhinha de acabamento, a textura de papel, a textura de grão”, disse Bebeto.

Há uma árdua realidade dos trabalhos criativos e artísticos instalados fora do eixo Rio-São Paulo, mas existem caminhos possíveis para seguir. Neste sentido, a globalização colocada pelas redes sociais permite que o Rando Bando alcance projetos com clientes nos Estados Unidos, África do Sul, Arábia Saudita e outros mais. 

Os animadores veem que estão numa cena curitibana em desenvolvimento, que tenta atrair a atenção do país. É um movimento recente e ativo, mas a grande maioria e os principais estúdios estão realmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Apesar disso, não pensam em sair da capital curitibana. “A gente só quer ser visto também. Aqui tem muita gente boa e criativa, e nós queremos fazer parte disso”, afirma Matheus.

A ratazana digitalizada e adesivada na placa nasceu de uma ideia experimental nos preparativos para o evento em São Paulo. O João Gnoatto, de 29 anos, que esteve a frente nos trâmites tecnológicos da adesivo, disse que o estúdio já tinha o hábito de criar cartões de visitas, mas optou por uma abordagem de ocupação de espaço e comunicação com a cidade.

“A gente gosta de brincar com o inesperado. O nosso adesivo não vende, não anuncia um serviço – ele provoca uma reação. Quem para, aponta o celular e vê aquela ratazana animada, está, por um instante, dentro do nosso universo. É a nossa forma de ocupar a cidade sem pedir licença”, comenta.

Mateus Klein, Bebeto Cahali e Luis Naza. Fundadores do Rando Bando. Foto: Jose Roberto Cahali
Acompanhe o trabalho do Rando Bando no Instagram: @randobando.tv

Este texto integra o projeto Periferias Plurais, uma parceria entre o Plural, o Gasam e a Itaipu Binacional

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Eric Rodrigues

Eric Rodrigues

Repórter, fotojornalista e documentarista. Mestrando em comunicação na UFPR. Participante do 15º Curso de Jornalismo Econômico do Estadão. Autor de "Comadre São".

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