“Seu palhaço. Você é um doutrinador de merda”. Foi com essas palavras que o vereador de Curitiba Olímpio de Araújo Junior (PL) se dirigiu a um professor do Colégio Estadual do Paraná (CEP) na quinta-feira (22), durante a manifestação da extrema direita na Câmara Municipal a favor da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à presidência.
Em meio à troca de xingamentos entre os apoiadores de Bolsonaro e alunos do CEP que defendem a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Olímpio tomou a frente e foi para o meio a rua, entre os dois grupos. Um professor pediu para o vereador evitar provocações e disse que estava no local para cuidar de seus alunos.
"Cuidando é o caralho. Você é um doutrinador de merda. Você é um doutrinador do caralho."
Olímpio de Araújo Júnior, vereador de Curitiba
O vereador Olímpio de Araújo Junior xingando professor do CEP (Vídeo: Tami Taketani/Plural)
Na sexta (23), a vereadora Laís Leão (PDT) apresentou uma representação contra Olímpio Araújo por falta de decoro na conduta pública. Ele é vice-corregedor da Câmara. "A expressão 'seu palhaço' avilta o interlocutor; 'cuidando é o caralho' manifesta desprezo pela explicação de que o professor cuidava dos estudantes; e 'doutrinador de merda' atinge sua credibilidade profissional, atribuindo sentido desonroso à atuação docente e associando-a à manipulação ideológica dos alunos", diz a representação.
A manifestação bolsonarista teve ainda as presenças dos vereadores Eder Borges (Novo) e Fernando Klinger (PL) e das vereadoras Indiara Barbosa (Novo), Rafaela Lupion (PSD) e Tathiana Guzella (PL), além de um carro de som. Mesmo assim, foi ofuscada pela reação dos estudantes, em maior número. Olímpio ainda publicou um vídeo sugerindo que os estudantes eram "fedidos", mas apagou em seguida.
Histórico de ataques à educação
O ataque de Olímpio foi só mais um na conta dos vereadores de extrema direita. Lembre outros episódios de ataques de bolsonaristas a estudantes e educadores:
- Em março de 2023, Rodrigo Marcial (Novo) expôs o áudio de um professor do Colégio Positivo que falava sobre linguagem neutra. O professor foi demitido.
- Em novembro de 2023, Eder Borges (então no PL, hoje no Novo) chamou de “selvagens, covardes e ignorantes” os educadores que participaram da etapa municipal da Conferência Nacional de Educação (Conae), na PUC-PR.
- Em abril de 2024, a Câmara aprovou um disque-denúncia sobre conteúdos e eventos ligados à “ideologia de gênero”. Projeto sem utilidade de Eder Borges.
- Em março de 2025, Carlise Kwiatkowski (PL), Guilherme Kilter (Novo) e Renan Ceschin (Podemos) aprovaram uma “moção de repúdio” contra o uso de linguagem neutra na UFPR. Proposição sem utilidade, pois vereador não legisla sobre universidades federais – mas que desgasta ainda mais a imagem do ensino públicos entre os seguidores desses parlamentares.
- Em abril deste ano, Eder Borges provocou professoras da rede municipal de ensino que participavam da sessão da Câmara e disse que elas deveriam ser obrigadas a fazer exame toxicológico porque “usam drogas”. O vereador ainda fez o “sinal de arminha” comumente usado por bolsonaristas para ameaçar opositores. O processo disciplinar contra Borges foi suspenso pelo Tribunal de Justiça do Paraná em agosto.
- Em setembro de 2025, o vereador Guilherme Kilter e o advogado Jeffrey Chiquini entraram na UFPR ocupada por estudantes de esquerda para uma palestra sobre o Supremo Tribunal Federal (STF). Em seguida chamaram a Polícia Militar, que usou bombas de efeito moral, deixou dois estudantes feridos e invadiu o prédio histórico da UFPR, supostamente para "resgatar" os dois bolsonaristas. Vídeos mostram Kilter protegido pelos policiais, na praça Santos Andrade, chamando estudantes de “vagabundos” e “bandidos”. Ele também ofendeu os estudantes em sessão da Câmara. Depois da ação, internautas atacaram a UFPR.

- Guilherme Kilter ainda apresentou uma moção de repúdio contra os estudantes feridos, no dia 22 de setembro do ano passado. A moção foi aprovada pela maioria da Câmara. Segundo Kilter, os estudantes impediram a realização de uma palestra – que já havia sido cancelada, como revelou posteriormente a direção da Faculdade de Direito da UFPR.

- No dia 22 outubro de 2026, Olímpio de Araújo Júnior chama professor do Colégio Estadual de “doutrinador de merda’ e “doutrinador do caralho” durante ato favorável à candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência.
O que diz a Câmara
Em nota, a Câmara Municipal de Curitiba informou que pauta sua atuação pelo Código de Ética e Decoro Parlamentar e pelo Regimento Interno e que todas as representações recebidas pela Mesa Diretora foram encaminhadas à Corregedoria ou ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, sem análise prévia de juízo.
A Câmara Municipal de Curitiba (CMC) pauta sua atuação pelo Código de Ética e Decoro Parlamentar e pelo Regimento Interno, que estabelecem as normas e os procedimentos aplicáveis à conduta parlamentar e à apuração de eventuais irregularidades.
Todas as representações recebidas pela Mesa Diretora que atenderam aos requisitos formais foram encaminhadas aos órgãos competentes, como a Corregedoria ou o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, sem análise prévia de juízo pela Mesa Diretora.
Cabe ao corregedor e aos vereadores, no âmbito de suas respectivas competências e prerrogativas regimentais, analisar eventuais desvios e conduzir os procedimentos cabíveis, incluindo a proposição, a apreciação e a votação de medidas e sanções previstas nas normas da Casa.
A CMC reafirma seu compromisso com o cumprimento das normas institucionais e com o respeito aos procedimentos regimentais que asseguram a apuração de eventuais infrações.
