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Nova concessão do ônibus em Curitiba não fixa prazo para 100% da frota ter ar

Frota diesel pode rodar até 12 anos e a herdada do Município, até 26 — sem obrigação de ter ar. Entenda o cronograma da climatização na nova concessão de Curitiba

Nova concessão do ônibus em Curitiba não fixa prazo para 100% da frota ter ar
Fila na estação-tubo. Foto: Tami Taketani/Plural

Se ganhar a licitação, a empresa que operar o ônibus em Curitiba será obrigada a colocar ar-condicionado em todo veículo zero quilômetro que colocar na rua. Mas o edital não fixa uma meta de quando 100% da frota estará climatizada — e ainda mantém em serviço uma frota herdada de biarticulados diesel usados, sem essa obrigação, que pode operar até 26 anos.

A regra está no Anexo 3.04 do edital da Concorrência FUC 001/2026, publicado nesta terça (19) pela URBS: "Ar-condicionado obrigatório em todos os ônibus 0 km, sem exceção". Como toda renovação de frota diesel tem idade máxima de 12 anos — a média por categoria não pode passar de 7 —, o efeito prático é que, a cada nova compra ao longo dos 15 anos de contrato, um ônibus climatizado toma o lugar de um sem ar.

O problema é o ponto de partida e o ritmo. Uma reportagem do Diário do Transporte, de outubro de 2025, estimou, com base na modelagem apresentada pela URBS na consulta pública, que cerca de 54% da frota deve estar com ar-condicionado ao fim dos 15 anos.

100%
0-km obrigado a ter AC
241
Ônibus com AC no ano 1
~54%
Frota com AC no ano 15 (est.)

De onde sai o cálculo do "menos da metade"

O sistema em operação no início do contrato é uma mistura de três origens. Primeiro, os 241 ônibus 0-km obrigatórios que cada concessionária tem de disponibilizar no ato da assunção do serviço — todos com ar. Depois, os 250 elétricos que entram até o quinto ano do contrato, também 0-km e também climatizados. E, por fim, uma frota de reforço cedida pelo Município com até 220 biarticulados e articulados diesel usados — e esses não têm obrigação de ar, porque não são 0-km.

Frota 0-km obrigatória no ano 1 do contrato — com ar-condicionado

Cada lote entra na operação obrigado a colocar em serviço este número mínimo de ônibus novos, todos climatizados por exigência do edital.

Os 220 veículos cedidos pelo Município vêm do rescaldo dos contratos anteriores e chegam com idade que varia de 2 a 24 anos. Vão sendo devolvidos à Prefeitura à medida que os elétricos os substituem — mas só nas duas categorias que o cronograma de eletrificação alcança nos primeiros cinco anos: biarticulado e articulado expresso. Nas contas, 159 desses veículos saem do serviço até 2031; sobram 61 diesel usados operando, sem ar, para os quais o edital não fixa prazo específico de aposentadoria.

Onde entra o gargalo

Fora essa frota herdada, a conta parece simples. Toda categoria de veículo com idade máxima de 12 anos — a regra da frota diesel comum, padron, articulado e microespecial — precisa ser trocada, no mais tardar, em 2039, o ano 13 do contrato. E toda troca vira 0-km com ar por força do edital.

Só que o cronograma que a URBS levou à modelagem econômica não força a compra em bloco. Ele deixa a decisão de quando renovar dentro do prazo máximo com a concessionária. Se o operador esticar cada veículo até o limite legal, boa parte da frota diesel herdada dos contratos atuais — que pode ter até 12 anos em 2027 — continuará rodando sem ar até esse limite se esgotar. É isso que empurra a cobertura para longe do fim do contrato.

15 anos

é a idade máxima permitida para a frota elétrica. Para os biarticulados e articulados diesel cedidos pelo Município, o Anexo 3.04 abre exceção e permite operação até 26 anos. Isso significa que um veículo de 2003 pode, teoricamente, rodar sem ar-condicionado até 2029 — dois anos dentro da vigência do novo contrato. Um de 2011, até 2037.

O que a eletrificação resolve — e o que não resolve

Dos 1.284 veículos que operarão o sistema a partir do quinto ano do contrato (número já ajustado à entrada do VLT do Boqueirão, que corta linhas do BRT1), 250 serão elétricos — 141 biarticulados, 54 articulados de Linha Direta, 26 articulados intercambiáveis, 18 articulados expressos, 7 padron e 4 comuns para a nova Circular Centro. Todos com ar. Os outros 1.034 seguem a diesel Euro 6.

Ampliar a eletrificação para além dessas 250 unidades exige revisão ordinária do contrato, prevista para acontecer a cada três anos, e negociação de nova subvenção pública. O edital não obriga uma frota 100% elétrica em prazo algum — e, por consequência, a via mais rápida para climatizar toda a frota depende da rotina de renovação da parte diesel, que é gradual.

Frota elétrica entrando no sistema ano a ano

Todo veículo elétrico é 0-km, portanto obrigatoriamente com ar-condicionado. O ritmo é rápido nos primeiros anos e cessa depois do ano 5, salvo revisão contratual.

Uma linha do tempo provável

Cruzando as três regras — 0-km sempre com ar, diesel máx. 12 anos, elétrico máx. 15 anos —, a estimativa mais realista para chegar perto de 100% de frota climatizada é a seguinte:

MarcoAnoCobertura estimada
Entrada dos 241 ônibus 0-km obrigatórios (frota inicial)2027 (ano 1)~18% com AC
Fim do cronograma de 250 elétricos e devolução dos 159 diesel usados do Município2031 (ano 5)~35-40% com AC
Fim do prazo legal de vida útil dos diesel novos vendidos em 2027-282039-40 (ano 12-13)próximo de 100%
Fim do contrato2042 (ano 15)~54% se houver adiamento máximo

A coluna "cobertura estimada" foi calculada pelo Plural a partir da frota inicial obrigatória (Anexo 3.04, Tabela 4), do cronograma de eletrificação (Tabela 10) e das idades máximas fixadas para cada categoria. A projeção mais crítica — cerca de 54% ao fim do contrato — é da modelagem discutida pelo Diário do Transporte durante a consulta pública em outubro de 2025 e pressupõe que o operador estica cada veículo diesel até o limite legal de 12 anos.

A frota climatizada tende a subir mais depressa nos lotes BRT1 e BRT2, que concentram toda a eletrificação prevista, e mais devagar nos regionais NORTE, SUL e OESTE, onde há mais categorias diesel comum e microespecial e nenhuma unidade elétrica no primeiro ano.

O que a URBS não disse

O edital tampouco cria mecanismo específico para acelerar a climatização. Não há bônus para o operador que antecipar a troca da frota, nem penalidade para o que esticar até o limite legal. O Sistema de Gestão da Qualidade (Anexo 2.09), com seus dez indicadores que descontam até 3% da remuneração se o desempenho geral cair, tem um item — a Pesquisa de Satisfação semestral, feita pela URBS pela metodologia QualiÔnibus/WRI Brasil — que avalia "conforto" como um dos cinco atributos. Mas o conforto é medido no agregado, junto com confiabilidade, atendimento, segurança e ruído/poluição. Não há indicador isolado para ar-condicionado.

Como referência da qualidade da leitura pública sobre o tema, a Prefeitura de Curitiba, ao apresentar a modelagem em outubro de 2025, destacou a obrigatoriedade do ar em todo 0-km. Não anunciou meta de cobertura total nem prazo para atingi-la. A consulta pública prévia recebeu contribuições até 17 de novembro de 2025, e houve duas audiências públicas — em 1 e 15 de outubro daquele ano — nas quais a questão foi ventilada.

Fontes: URBS, edital da Concorrência Pública FUC 001/2026, especificamente o Anexo 3.04 (Diretrizes e Especificações da Frota), Anexo 3.02 (Especificações Operacionais do SIM), Anexo 2.09 (Sistema de Gestão da Qualidade) e Anexo 4.02 (Avaliação Econômico-Financeira). Estimativa "~54% ao fim do contrato" citada em reportagem do Diário do Transporte (17/10/2025), sob a hipótese de renovação no prazo máximo permitido.

Rosiane Correia de Freitas

Rosiane Correia de Freitas

Jornalista, mestre em educação e fundadora do Plural

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