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28 jun 2020 - 19h40

Pano de chão

Se Bolsonaro colocasse tanques na rua amanhã, Ratinho Junior seria o primeiro a sair, emocionado, para entregar flores aos generais, saudá-los como libertadores, benfeitores, energia da nação

“A política é isso, abrir-se caminho entre cadáveres.”

O comentário é de Tia Adelina, personagem de Mario Vargas Llosa em A Festa do Bode, um romance histórico sobre os 31 anos em que a República Dominicana viveu sob o tacão de Rafael Trujillo – Chefe, Benfeitor, Libertador Financeiro da Nação, Pai da Pátria Nova, Calígula do Caribe.

Foi lançado em 2011. Só li na semana passada. Sou atrasado, atravessado, insuficiente. Enquanto avançava nas páginas, madrugada adentro, tinha fresca na cabeça uma entrevista de Renato Feder, secretário de Educação do Paraná, louco pra virar ministro, publicada na tarde anterior.

Na entrevista, Feder chamou Jair Bolsonaro – um homem que não se sabe ao certo como ainda pode se vestir sozinho todas as manhãs, responsável direto por uma política que matou dezenas de milhares nos últimos meses – de “estadista”.

Por que não Pai da Pátria Nova? Talvez quando Jair Bolsonaro enfileirar todos os velhos, gordos e diabéticos do país, atirar pessoalmente na cabeça de cada um e justificar, rosto abobalhado, em uma live: “O que foi? Os caras tinham um montão de problema”.

“A política é isso, abrir-se caminho entre cadáveres”, diria Tia Adelina, que eu não faço ideia se existiu mesmo, muito menos se em algum momento disse isso. Um romance histórico é uma pesquisa sólida que você faz sabendo que vai abandonar sem pensar duas vezes sempre que a oportunidade aparecer.

Que um secretário que Ratinho Junior queira virar ministro de um consórcio de assassinos não é exatamente uma surpresa. O governador do Paraná é um dos mais bolsonaristas, frequentador de aviões presidenciais, companhia de giros injustificáveis por Miami, doutor em desculpa esfarrapada, bagre ensaboado, colaboracionista até a medula.

Se Bolsonaro colocasse tanques na rua amanhã, Ratinho Junior seria o primeiro a sair, emocionado, para entregar flores aos generais, saudá-los como libertadores, benfeitores, energia da nação. Perigava até perder os sapatos na corrida.

Nada é novo. Quando em 2015 Beto Richa fez chover as bombas sobre os sindicatos no Centro Cívico, num espocar que fazia pensar em fogos de artifício, o então secretário Ratinho Junior insistiu que não tinha nada a ver com isso, era um mero secretário de governo, veja só, eu nem estava lá, tinha ido pegar um café na copa.

Com essa conversa fiada, virou governador. Fernando Francischini, o secretário de Segurança que arquitetou aquela pancadaria, também deu uma entrevista, há poucos dias, para o Bem Paraná. Sobre o dia 29 de abril, em um súbito acesso de mansidão diante do gravador, se desculpou: “Você não tem noção do que é a dor de você não conseguir evitar um confronto”. É deputado estadual e deve ser candidato a prefeito de Curitiba. Não está fora do páreo.

O Paraná abraçou a escuridão há tempo demais, e no fundo não merece qualquer coisa melhor do que isso aí mesmo. É um dos estados que ainda seguram a popularidade do presidente. É também um erro histórico. Era melhor ter escavado todo esse território, aberto um canal e dado uma saída ao mar pro Paraguai. Tinha evitado uma guerra e muitos outros aborrecimentos. Sergio Moro, por exemplo.

Em A Festa do Bode, outra personagem, Uranita Cabral, a filha de um dos mais altos colaboradores de Trujillo, pergunta ao pai, encarquilhado e vegetativo, anos depois de o tirano ter sido assassinado: “Como era possível, papai? O que Trujillo fazia com vocês? O que ele lhes dava pra transformar todos vocês em panos de chão?”.

Eu tenho meus palpites, mas quem se interessa? Renato Feder perdeu a parada. Mesmo com todos os salamaleques, um capricho presidencial o deixou na estrada, acenando meio bobo pro carro que partia. O desprezo é a moeda universal que paga a subserviência.

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