Tapada das Necessidades | Jornal Plural
1 jul 2020 - 23h03

Tapada das Necessidades

A bola vermelha cai diante do banco em que estou sentado. Olho em volta, à procura de quem virá buscá-la. Curiosamente, ninguém aparece. Imagino alguém que desistiu de jogar, de ter metas, de provocar em si as excitações da derrota ou da vitória

Lâminas de sol se infiltram pelas folhas, que dançam ao vento. Embaixo da árvore, em cardume, sombras passeiam sobre duas adolescentes estiradas na grama. A garota que está deitada de costas fala devagar, olhando maliciosa para as imagens que suscita; a outra ouve a amiga de bruços, num riso fixo de espanto.

Lá atrás, a velha senhora sobe a alameda. Usa um lenço para segurar a bengala. Ela para, respira. Nuvem sobre ruínas, seus cabelos brancos flutuam acima do corpo exausto.

A bola vermelha cai diante do banco em que estou sentado. Olho em volta, à procura de quem virá buscá-la. Curiosamente, ninguém aparece. Imagino alguém que desistiu de jogar, de ter metas, de provocar em si as excitações da derrota ou da vitória. Penso num jogador que cansou de ser um joguete da bola… Ou então esta bola é metafórica, como no poema de Yeats. Foi chutada por mim na infância, descreveu um longo arco e caiu aos meus pés meio século depois, à beira da velhice. Se eu tentar lançá-la de volta, serei visto pelas adolescentes:

– Por que aquele senhor está a dar chutes no ar?, dirá uma.

– Se calhar chuta algo imaginário, dirá a outra, que invento, como a bola, como tudo. Mas o que é viver se não inventar-se com as tintas da realidade?

A velha desaparece lentamente, sob a trama cada vez mais escura das árvores.

As garotas parecem ter adormecido.

Não é preciso esforço algum para que as coisas nos enredem sem cessar. Agora mesmo, sentado neste banco do parque Tapada das Necessidades, sou alvo da curiosidade simpática de um golden retriever, este que corre em minha direção. O dono vem atrás com uma coleira nas mãos. O cão cheira a bola, depois me olha. Língua de fora, ergue o rabo num aceno:

– Vamos jogar?

Não me mexo.

– Marley!, diz o dono. O bicho hesita, mas volta correndo para ele.

Marley, respondo, enquanto o vejo dar um salto para abocanhar a bolinha de tênis: hoje não quero jogar. Estive confinado por causa da pandemia; trago ainda o olhar de quem, durante meses, viu pela janela o mundo esvaziar-se. Primeiro as ruas ficaram vazias; depois, o sentido das coisas que se faziam nelas. Silenciada, submersa na memória, a cidade foi ficando distante, pequena, obsoleta. E isso foi bom. Livre das pequenas hipocrisias diárias, da pressa que aliena, das armadilhas econômicas que me prendiam à ansiedade alheia, voltei a mim: dormi sem amanhã, bebi sem ontem, li sem hoje. Agora, estou com dificuldade de voltar. Voltar para onde, Marley? Para o mercado das necessidades inventadas, dos desejos fúteis e insaciáveis? Para as forças centrífugas que nos confundem e isolam? Já não gostava desse jogo; então tornei a provar a lentidão divina daqueles dias de infância, quando as mulheres conversavam longamente através das cercas, e o meu olhar se unia ao céu pelo fio de uma pipa…

Hoje, pelo menos hoje, Marley, não quero jogar.

O sol está se pondo. As duas adolescentes se foram. Marley já estará em casa; talvez tenha se deitado no tapete da sala, a olhar o enigmático rosto de seu dono, azulado pelo celular.

Pego a bola vermelha, caminho com ela sob o braço por entre o frio crescente do arvoredo. Chego a um largo. O pio estrídulo de um pássaro corta a penumbra. Ninguém me vê. Chuto a bola com toda força.

Quem sabe um dia ela caia novamente aos meus pés. Quem sabe em outro mundo.

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