Na cama, a glória dos comunistas | Jornal Plural
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13 out 2019 - 21h20

Na cama, a glória dos comunistas

A Stasi, o mais completo aparato de vigilância estatal que o mundo já viu, podia ser menos invasiva do que um smartphone

Por 40 anos, a Alemanha Oriental foi o posto avançado do mundo comunista. Ou, se você preferir, o primeiro para-choque da União Soviética.

Os alemães não estavam apenas nas franjas do capitalismo, dividindo com ele a mesma fronteira. No fim da Segunda Guerra, Berlim era um troféu cobiçado demais para que alguma das potências aliadas abrisse mão dela. Foi dividida em quatro.

Como a cidade ficava geograficamente dentro do território da Alemanha Oriental, a divisão significou que as porções pertencentes a Estados Unidos, França e Reino Unido eram um enclave dentro do país comunista

O efeito era parecido com o de atirar uma porção de kriptonita dentro do apartamento do Super-Homem. Era só sentar e esperar que o tempo fizesse seu trabalho.

Ameaçada imediatamente em suas fronteiras e com uma estaca cravada dentro do próprio coração, a Alemanha Oriental respondeu montando a mais sofisticada máquina de vigilância da história da humanidade.

Esqueça a Gestapo do Terceiro Reich ou a KGB de Stalin – elas ficavam no chinelo.

No fim do regime, a Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental, tinha mais de 97 mil funcionários, mais do que o suficiente para vigiar um país de 17 milhões de habitantes.

Dispunha também de 173 mil informantes. Isso dava um oficial da Stasi ou um informante para cada 63 cidadãos. Se você incluir aí os espiões de meio período, algumas estimativas chegam a falar de um informante para cada 6,5 pessoas.

Sob Hitler, havia um agente da Gestapo para cada dois mil alemães. Na União Soviética, um agente da KGB para cada 5830 pessoas.

Os números são de “Stalidândia”, o minucioso livro-reportagem da jornalista australiana Anna Funder.

A Stasi utilizava táticas para instalar a paranoia e fazer os alemães comunistas duvidarem de sua própria sanidade. Sem necessariamente lançar mão da coação física, destruía laços e isolava socialmente seus suspeitos. Num trabalho minucioso e mesquinho, podia levar alguém ao completo colapso psicológico.

E polícia secreta desconhecia limites, e chegava a marcar os cidadãos com radiação para facilitar o trabalho de monitorá-los.

Na Alemanha Oriental, até as pedras tinham ouvidos. Num ambiente assim, você precisa brigar até por oxigênio, e os alemães cada vez mais se enclausuraram dentro de suas próprias casas.

O que gerou um efeito colateral curioso: eles ficaram bons de cama, porque era a única coisa que dava pra fazer sem o Estado ficar bisbilhotando.

Um texto publicado na semana passado no site do jornal El País Brasil cita uma pesquisa sobre práticas sexuais femininas feita pelo Gewis-Institut de Hamburgo. Os números dizem que 80% das mulheres da Alemanha Oriental sempre chegavam ao orgasmo, contra 63% na parte ocidental.

Em 1984, outro estudo, dos historiadores Kurt Starke e Walter Friedrich, mostrou que entre as mulheres menores de 30 anos da Alemanha do Leste, dois terços chegavam ao orgasmo quase sempre, e 18% com frequência.

Fora a Stasi, outros fatores podem ter elevado o nível de satisfação sexual das comunistas. Por exemplo, o governo estimulava o sexo para distrair seus cidadãos da monotonia e da privação. Também estimulava a independência financeira das mulheres. No Leste, havia escassez de mão de obra, e as mulheres precisavam ser rapidamente incorporadas à população economicamente ativa. E mulheres independentes têm mais possibilidade de expressar abertamente seus desejos.

Mas o Muro de Berlim caiu e a Alemanha foi reunificada. O mundo comunista, hoje, é só um espectro rondando a cabeça de um deputado do PSL.

De modo que uma pesquisa divulgada em maio pelo Jornal Britânico de Medicina mostra que a cada década estamos transando menos. E um dos principais culpados disso são os celulares.

Em 2007, os pesquisadores conseguiram inclusive identificar uma baixa na atividade sexual dos ingleses por conta do lançamento do iPhone.

De acordo com o jornal, os mais atingidos pela falta de libido são adultos entre 24 e 46 anos.

É medonho concluir, mas em certos aspectos, a Stasi, o mais completo aparato de vigilância estatal que o mundo já viu, podia ser menos invasiva do que um smartphone.

Um viva para o nosso time.

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