o peso das coisas fabricadas | Jornal Plural
22 jul 2021 - 9h00

o peso das coisas fabricadas

semana passada paguei os documentos atrasados do fusca e, no embalo, já renovei minha CNH. precisa fazer exame

tava anunciado por 8, emprestei 2, fechamos em 7 mas agora vale mais. ainda que o dinheiro e a vida tenham desvalorizado, é como se algumas coisas valessem mais. quando comprei meu fusca em 2014, ele tinha 45 anos. em 2019 eu tinha 28 e mudei pra um ap sem garagem. ele dá de frente pra esse estacionamento que tá sempre vazio. um dia perguntei pro cara que vendia Estar na rua

– salve salve bom dia

– hum

– cê sabe se tem pra mensalista ali?

– ter até tem

(fiquei olhando o sorrisinho armar na cara dele)

– mas não é pra qualquer um não

me olhou de cima a baixo. agradeci. se pa que ter um fusquinha deixa a pessoa mais paciente.

agora que pra estacionar usa app em vez de folhinha no para-brisa, ele não fica mais aqui na rua. sei lá que fim levou. sei que encontrei um estacionamento na Princesa Izabel, e que só me libertei dos 180 por mês quando comprei a bike e arranjei uma vaga no PRF. Parque Residencial Fazendinha. minha mãe e meu pai vivem lá até hoje. são 32 blocos, 33 síndicos e 640 apartamentos. li numa matéria das antiga que, em 2011, moravam 2,7 mil pessoas. liguei na administração pra saber quantas vivem agora

– olá bom dia

– bom dia quer falar com quem?

– meu nome é Richard, escrevo pro jornal Plural. tô fazendo uma crônica que fala do PRF e

– pera aí não tô entendendo. jornal qual?

– jornal Plural

– nunca ouvi falar

– é um jornal bem firmeza. por isso quero saber certinho quantas pessoas tão vivendo aí mais ou menos pra

– não estou autorizado

– Rubens, eu fui morador, minha mãe e meu pai moram aí ainda, você morava no 02/12

– eu não estou autorizado

desligamos.

semana passada paguei os documentos atrasados do fusca e, no embalo, já renovei minha CNH. precisa fazer exame. no Bacacheri a clínica. rapidinho o médico gritou meu nome e perguntei onde podia deixar a mochila e o banco da bike. sem dizer nada apontou a cadeira, deu a volta na mesa e sentou. Aproxime os olhos do aparelho mas não toque, leia a sequência de letras. não enxerguei nada. Aproxime-os-olhos-do-aparelho-mas-não-toque-e-leia-a-sequência-de-letras. limpei os óculos. zero letras. APROXIME OS OLHOS DO APARELHO mas aí ele olhou pra mim e parou de gritar. eu disse que não tava enxergando. ele respirou fundo. lá pelas tantas achei as letras e não teve como. m de mula. b de babaca. Pedi para você ler as letras, não as palavras, então aproxime os olhos do aparelho mas não toque, e leia a sequência de…

levou mais um tempo ainda. saí da cela médica e parei na recepção

– oi, com licença

– oi

– pra fazer reclamação é contigo?

ela olha pra porta do consultório

ai moço reclamação é ligando direto no Detran só por quê aconteceu alguma coisa?

(eu olho pra porta do consultório)

é. é assim mesmo. só ligando

acho que uma das piras do fusca tá nesse lance da gente conseguir se imaginar dentro de um, de conseguir imaginar o cheiro da gasolina, imaginar uma lembrança. o papel de parede do pc da Fernanda era uma foto dela e do vô num fusca de volante preto. ela devia ter uns 3 anos, tava com um chapéuzinho de cowboy e não sabe onde que era. não convivi com meus avôs mas a primeira vez que andei no banco da frente de um carro foi no fusca do meu primo. eu era pequeno e o painel bem alto. o cinto não servia. lembro que dava pra olhar o céu, os fios dos postes e os cds no porta cds.

agora esses tempos fui com a Fernanda ver uma máquina de lavar que a gente achou na olx e, na volta, fiz uma curva pra esquerda. a porta do passageiro abriu e no reflexo ela grudou a mão no puta merda. hoje a gente ri dessa cena. a fita é que já dei um talento nas trancas e nos vidros. as portas fecham bem, os vidros sobem e descem macios. tá que nem quando passaram pra mim. não sei como tava quando passaram pro último dono e não tenho ideia de quantas pessoas já dirigiram. sei que quem me passou o contato do vidraceiro foi o Amós. o Amós reformou todo o interior do meu fusca e já tem uns vinte anos que restaura banco de empilhadeira pro meu pai. meu pai é mecânico de tratores. autônomo. agora na pandemia ele sente que a galera tá meio insegura de comprar maquinário novo, e que por isso estão investindo em manutenção. tá trampando como se tivesse minha idade. tem 60. já tomou a segunda dose mas não sabe quando vai aposentar. nem eu.

pra quem brilhou o olho, a lataria é café com leite, bancos e forros de porta pretos, teto branco, volante creme e as calotinha cromada. tô vendendo. um dos 126.319 fuscas fabricados em 1969 no país onde, de janeiro a maio deste ano, foram produzidos cerca de 980 mil veículos leves. a expectativa é a de que, até dezembro, mais 1 milhão de motos e algo em torno de 5 milhões de bicicletas também cheguem às ruas. não sei onde vamos parar. nem se tem espaço pra tudo isso.

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