O outro jogo - Jornal Plural
11 ago 2021 - 9h00

O outro jogo

Pouco a pouco a realidade se refaz e, esvaziados de excitação, retornamos à nossa dimensão prosaica

Estamos dentro do bar, mas fomos abduzidos pela tevê. Portugal está perdendo de um a zero para a Bélgica. Faltam poucos minutos para acabar o jogo. Um sujeito chamado Thorgan Hazard fez o gol deles, ao final do primeiro tempo, e nada mais significativo aconteceu. Oscilamos agora entre a decepção e um fio de esperança, ora com as mãos nos cabelos, ora abúlicos.

Quando um jogador de Portugal dá um chute fraco, que cai fácil nos braços do goleiro adversário, o homem ao meu lado, magro, com barba de mendigo, enfia as mãos cruzadas entre as pernas; depois, encosta a testa nos joelhos. Penso na cabeça de São João Batista, servida a uma Salomé fria, espectral.

Atrás do balcão, Albino levanta mecanicamente os olhos para alguém que esbraveja:

– Mais uma derrota! Sempre à defesa, sempre na retranca, continua a envergonhar-nos e vai continuar lá!

Braços apoiados na mochila quadrada que tem no colo, o rapaz negro do Uber divide a atenção entre o jogo e o celular. Não é o único que não está apreensivo, porque o velho de nariz roxo ignora a tevê. Olha para seu copo no balcão, diante do qual está sentado como se desse as costas para a tolice das emoções ilusórias. Às vezes dá um trago e pousa as mãos calejadas no tampo, feito dois remos abandonados.

Cristiano Ronaldo erra uma cabeçada; com ar calculado de sofrimento, examina de soslaio sua própria imagem na gigantesca tela do estádio. Sabe que é alvo de vários olhos da grande aranha eletrônica, de perto, de longe, de lado, de frente e até de cima. Deixa-se envolver pela teia invisível, joga enredado a ela.

Entramos na prorrogação. Os belgas passam a reter a bola na defesa, arrastam o jogo. Reclamamos de sua covardia, sabendo que faríamos o mesmo se estivéssemos vencendo.

O juiz ergue o braço, apita o final da partida.

Nos ajeitamos nas cadeiras, evitando olhar-nos. Fomos talhados para a derrota, parecem dizer as expressões ressentidas.

O sujeito rechonchudo que veste a camisa de Portugal declara que a carreira de Fernando Santos acabou.

Albino, que uns chamam de Dino, outros de Bino, leva uma imperial para o Alfredo, o careca de olhos esquivos, algo magoados. Alfredo faz parte do bar como a velha estante vergada sob o peso das garrafas e dos anos.

– Puta que pariu, pá! Que raio foi o Pote fazer nesta seleção?, diz Alfredo.

Albino abre os braços e as mãos como quem diz “pois”.

– Finalmente acabou a festa, suspira uma voz grave às minhas costas.

Pouco a pouco a realidade se refaz e, esvaziados de excitação, retornamos à nossa dimensão prosaica. O tempo agora é lento, pesado. Não estamos mais fora de nós e já não há evasão possível. Teremos que voltar para nossas casas, onde nos espera a moenda da família, a conta vencida, a dor no peito que pode ser o coração exaurido. Além disso, acordaremos cedo para ir ao trabalho, para este outro jogo em que a derrota é mais longa e não se pode fazer a edição das cenas, cortar o que é feio, dar close no que é belo.

Os homens começam a ir embora.

Albino entrega uma bifana num saco de papel para o Alfredo, que se despede do amigo de lado, sem olhá-lo. O rapaz do Uber veste a mochila e sai, muito mais leve e enérgico do que os outros.

De meu canto vejo-os partirem, almas penadas que vão deixando a luz solitária do bar para serem engolidas pela escuridão.

Peço mais uma imperial. Albino me diz que vai fechar em quinze minutos, por causa da pandemia. Acerto a conta. Fico vendo a propaganda de um carro futurista e penso que preciso economizar para comprar um, por mais velhinho que seja.

O rapaz do Uber volta. Está com um capacete apoiado sobre a nuca, assustado. Albino, sem dizer palavra, pega atrás do balcão o celular esquecido e entrega-o ao rapaz. Ele sai aliviado, examinando o aparelho que parece conter sua vida.

Vou ao banheiro e, quando volto, o velho de nariz roxo e Albino estão em silêncio, separados pelo balcão, unidos por algo triste que não pode, não precisa mais ser dito.

Saio para a rua. O vento fresco do rio renova-me a sensação agradável de amplitude, apesar de a cidade estar tão silenciosa que me pergunto se não foram todos engolidos pelo jogo.

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