Bestializados mais uma vez - Jornal Plural
12 ago 2021 - 9h00

Bestializados mais uma vez

Dois anos e meio após as eleições, Bolsonaro segue como se estivesse numa campanha eterna, vomitando disparates

A tela de 2,80 x 1,85m tem ares grandiosos: retrata, praticamente em tamanho real, o marechal Deodoro da Fonseca, montado em seu cavalo e envergando sua farda azul-marinho de oficial do Exército. Com a mão direita estendida, o militar segura o quepe, como se, imponente, acenasse a uma multidão. Pintada em 1892 por Henrique Bernardelli – um artista plástico chileno radicado no Rio de Janeiro –, a obra é uma das principais representações oficialescas do primeiro golpe militar ocorrido no Brasil e que passou para os livros de história como “Proclamação da República”. Pertence, hoje, ao acervo da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), no Rio. Trata-se de uma bela tentativa de dar contornos heroicos e magnânimos a acontecimentos que, na verdade, se sucederam de forma patética, beirando o pastelão – como é dado a acontecer na História do Brasil, principalmente quando envolve as Forças Armadas.

Como se sabe, Deodoro era amigo pessoal de Dom Pedro II e não tinha a mínima gana de pôr fim ao império. Dois meses antes do golpe, o marechal tinha declarado o que pensava sobre o movimento republicano, que ganhava adesão entre militares adeptos do Positivismo – aquela escola filosófica que já estava, então, em declínio na Europa (o Brasil, sempre embarcando atrasado…). “Os brasileiros estão muito mal-educados para a república. Ruim com a monarquia, pior sem ela”, resumiu o militar. Ocorre que os artífices da república – entre os quais, o tenente coronel Benjamin Constant e o jornalista Quintino Bocaiúva – convenceram Deodoro a conspirar, espalhando o boato de que o Império o prenderia.

No dia seguinte, deu-se o golpe. Os episódios de 15 de novembro de 1889, no entanto, estiveram bem distantes da epopeia que sugere o quadro de Bernardelli. Deodoro estava amuado na cama, sofrendo de dispneia, com dificuldades respiratórias. Ante a insistência de seus colegas, o marechal tirou o pijama, pôs a farda e, combalido, saiu da cama às seis da manhã. Cavalgou por 250 metros, até o Campo do Santana, onde ficava o Comando do Exército e o Senado. Ali, outros militares o aguardavam para a quartelada. Sem disparar nenhum tiro, o febril Deodoro e seus conspiradores depuseram o presidente do conselho de ministros (uma espécie de primeiro-ministro do Império), o Visconde de Ouro Preto. Naquele instante, contudo, o marechal não se sublevou contra Dom Pedro II. Tanto que um cabo que gritou “Viva a República” levou um tabefe de uma das mãos enfermas de Deodoro.

Depois desse mise em scène, Deodoro voltou para debaixo das cobertas, a fim de convalescer em paz. Não teve, no entanto, sossego por muito tempo. Na tentativa de avançar mais um grau no golpe, Constant e Bocaiúva foram até o marechal, com um novo ardil: mentiram que o imperador havia nomeado para ministro Gaspar Silveira Martins, notório desafeto de Deodoro. Só então o oficial concretizou o golpe, mas, ainda assim, de forma indireta: “Digam ao povo que a República está feita”, disse, voltando para a cama. Não ficaria bem para a posteridade uma representação pictórica de um velho marechal de pijama, conspirando em sua alcova. Aí, sobrou para o pintor Bernardelli tentar salvar a passagem, tingindo de imponência heróica uma cena que mais parecia uma maquinação de comadres. 

Mas o que mais me chama a atenção nessa novela rocambolesca toda é que o povo que assistiu à quartelada no literalmente pantanoso Campo de Santana não tinha puta ideia do que se passava. Por que marchavam, se não era data festiva? Estavam todos alheios, como se não lhes dissesse respeito. Quem melhor sintetizou o espírito da coisa foi o jornalista Aristides Lobo, em artigo publicado no Diário Popular: “O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada [militar]”. Sobre os acontecimentos que desembocaram na república, sugiro o livro Os Bestializados, de José Murilo de Carvalho.

Corta para 2021. Dois anos e meio após as eleições, Bolsonaro segue como se estivesse numa campanha eterna, vomitando disparates – como sempre fez ao longo de suas mais de duas décadas de vida pública. Ou, sei lá… talvez seu conceito de governar seja ficar acenando com aquela cara asquerosa para aglomerações idiotizadas, que compõem os 25% que ainda o apoiam, enquanto o país se esfacela e o Centrão (e os herdeiros da Arena) se locupletam. Como sabe que vai perder em 2022, Bolsonaro prepara terreno para o golpe. A cada dia, uma nova ameaça à democracia. Por mais avesso ao noticiário que você possa ser, certamente viu a mais recente ofensiva contra as urnas eletrônicas e o sistema eleitoral. “Ah, ele está blefando. No século XXI, não há espaço para aventuras golpistas”, ouve-se por aí. 

Quem duvida de que Bolsonaro vai levar suas bravatas às últimas consequências? Quem consegue imaginá-lo passando a faixa presidencial a seu sucessor? Quem acredita que alguém sem o menor apreço pela democracia vá, mesmo, respeitar o resultado de eleições democráticas? Enquanto o ignóbil continua a babar ameaças de ruptura, tanques avançam por Brasília. Quanto a nós, assistimos à marcha bélica mais uma vez atônitos, bestializados – desta vez, não por falta de informações (sabemos bem do que se trata e o que está em jogo), mas por pura inércia. Ao fundo, ecoam notas de repúdio. Resta saber como o momento será representado nos livros de história.

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