7 abr 2022 - 10h27

Cenas que eu gostaria de ter visto

Eu daria tudo naqueles dias para ter acompanhado esses momentos, que são preciosos para mostrar como as crianças veem o mundo

Quando meus filhos eram bem pequenos, dois ou três anos de idade, meu maior desejo irrealizável era ser um inseto ou uma criatura invisível, para passar algumas horas na sala deles na escola e acompanhar as conversas entre as crianças.

Penso que não existe nada mais sublime do que uma conversa entre crianças pequenas. Elas se entendem mesmo que não saibam dizer as palavras. Elas falam com os olhos, com as mãos. Prescindem de palavras, mas, quando as dizem, é de uma beleza imensa, ainda que a gente não entenda.

Às vezes perco um tempo que não tenho assistindo a vídeos de crianças na internet. Não passo um dia sem olhar no Instagram a página dos Quíntuplos do Paraná, um afago com que me presenteio no meio da correria e das preocupações.

Mas a vontade de perscrutar as conversas dos meus filhos pequenos no mundo da escola, no qual entraram bem cedo, essa ficou irrealizada. Lembro-me de uma vez em que o mais velho, então com 3 anos, entrou no carro depois da escola comentando que havia contado a um coleguinha sobre nossa ida a uma procissão de Sexta-Feira Santa. E contou assim: “Aquele dia que nós saímos passear com a missa”.

Tem como imaginar uma cena mais encantadora do que uma conversa dessas entre dois meninos de três anos?

Do mais novo, a professora um dia contou que estava programando um piquenique com a turma, e ele logo se animou, falando para os colegas: “Eu tenho um piconico pra fazer xixi!” Ah, que cena maravilhosa para se presenciar!

Eu daria tudo naqueles dias para ter acompanhado esses momentos, que são preciosos para mostrar como as crianças veem o mundo. Remediei essa impossibilidade seguindo a tradição da minha mãe e anotando num caderno as coisas engraçadas e curiosas que presenciei meus meninos dizerem quando pequenos (ou que alguém me contou), para que não se perdessem nos vãos da memória. De vez em quando pegamos os cadernos e nos divertimos relendo as histórias.

Se me fosse dado ser um pássaro, um anjo, algo assim com asas e capaz de voltar no tempo, eu também gostaria de ter voado para o momento em que algum grande inventor teve o estalo definitivo, a ideia final, a luz que deu ao mundo uma novidade capaz de mudar vidas.

Sei que as invenções não acontecem bem assim. Custam suor, estudo, sacrifícios, tempo. Não surgem de uma hora para outra. Mas deve sempre haver um momento especial. Quando a primeira roda rodou, por exemplo. Quando a primeira lâmpada acendeu, o primeiro telefone funcionou, o primeiro e-mail foi transmitido. Tenho para mim que foram instantes bons de serem vistos.

Também não recusaria, se me fosse permitido, ver alguma personalidade dessas quase inatingíveis em uma tarde de vida normal. A rainha Elizabeth, por exemplo. Madonna. Kim Jong-un. Pode parecer (e ser) meio fútil, mas é também curiosidade pela natureza humana. O que eles conversam na hora do almoço? Sabem o que os filhos andam fazendo? Dão bronca? Avisam quando estão indo tomar banho?

Outro tipo de cena que eu também gostaria de ter visto, escondida em algum canto, é bem feia. Sempre me intrigou pensar em como é que famílias metidas nesses casos escabrosos de corrupção tratam do assunto em casa. Como será que reagem os que não sabiam (se é que não sabiam)? E pior: como é que parentes envolvidos no mesmo esquema combinam o modus operandi?

Não é raro vermos irmãos, marido e mulher ou outros familiares juntos nas tramoias da política. Mas o que me deixa cismada mesmo é imaginar um pai (ou uma mãe), já escolado na corrupção, introduzindo o filho nas manhas da coisa. Sim, porque isso contraria tudo aquilo que uma sociedade civilizada concebe como dever moral e ético de um pai e de uma mãe.

Exemplos não faltam. A mãe desembargadora e o filho advogado. O pai deputado federal e a filha deputada estadual. O pai presidente e os filhos espalhados pela política. Esquemas que se sucedem e se completam.

Ainda que as coisas caminhem meio naturalmente e que a “cartilha” seja repassada de forma subliminar de uma geração para outra, deve haver momentos em que é preciso tocar no assunto. Talvez então o pai diga que política é assim mesmo, que se não forem eles serão outros, que campanha é uma coisa cara, que é preciso manter os compromissos. E que não tem outro jeito.

Suponho, apenas, já que a compreensão desse tipo de arranjo me escapa. Só vendo, mesmo, para tentar entender. Eu gostaria.

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