Instinto humano | Jornal Plural
20 mar 2019 - 19h52

Instinto humano

Para Fagner Zadra, comer ovo é o símbolo do instinto de sobrevivência humana, Assim como a pochete

O ser humano é um animal bastante previsível, até porque a maioria de suas ações, aprendeu por repetição. Acredito que o instinto é algo instaurado por repetição aos poucos no nosso subconsciente durante nossa breve história de evolução. É como comer ovo. Por instinto de sobrevivência, o mundo inteiro sempre comeu ovo.

Por instinto, a gente faz coisas no dia a dia e nem se dá conta que outras pessoas também fazem a mesma coisa, sem nem se conhecerem. Atitudes, ações ou coisas que mesmo com o passar dos anos não caem em “desuso”, tipo usar pochete. Usar pochete é instintivo e está sempre por aí, pois a pochete é uma mini-bag de sobrevivência.  Cabe um canivete, um isqueiro, uma barra de cereal e um ovo cozido. Com este kit básico a gente vai longe.

As festinhas na adolescência eram desafios, que nos obrigavam a lançar mão de nossos instintos e com isso escolhermos um líder, quando o líder não era você mesmo. Meninos ficavam perfilados de um lado e meninas do outro, se encarando até alguém tomar coragem, largar o refri e, num surto de valentia, talvez causado pelo açúcar do refri, ser o desbravador e tirar alguém para dançar, aí todo mundo fazia o mesmo. Instinto de procriação na época da Geração Coca-Cola.

Hoje não precisa mais disso. Hoje até a Coca-Cola vem com menos açúcar e é adoçada com stevia. Stevia não deixa ninguém valente. Hoje em dia nem precisa mais ser tão valente, pois as festinhas são na balada, num barulhão infernal e todo mundo fica misturado procurando o “crush” que geralmente e por causa das redes sociais, já está sabendo das intenções da outra pessoa, nem precisa de muito esforço, nem precisa de valentia!  Ninguém é herói de ninguém ali, e nem conseguiriam o ser, falta açúcar no sangue. E no meu tempo, “crush” era um refri, que inclusive tinha tanto açúcar que parecia que os dentes cairiam após o primeiro gole.

Muita coisa que o ser humano fazia antes não faz mais, mas tem coisas que a maioria das pessoas já fez pelo menos uma vez na vida, passando por gerações e acredito que vai continuar sendo assim por muito tempo.  Como, por exemplo, abrir a porta da geladeira, sem nem saber o que quer pegar lá. Sem fome, sem sede, a pessoa apenas abre a geladeira e entra automaticamente num limbo mental onde tudo é vácuo, como se estivesse em uma sessão de regressão assistida, mas o parapsicólogo é você mesmo. A luzinha de dentro e o barulho do motor ajudam dando a ambiência perfeita para o transe. Uma vez vi minha vida inteira passar diante dos meus olho e, quando percebi, estava olhando fixo para uma cebola na geladeira, que era a única coisa que tinha ali. Estudante é bicho quebrado. Eu nem tinha fogão para cozinhar a cebola. Nem sei por que eu tinha aquela cebola. Mas sei por que eu tinha a geladeira: era para refletir!

Às vezes eu pergunto a data para quem estiver ao meu redor, mesmo tendo acesso fácil a esta informação pelo celular, e mesmo não tendo absolutamente nenhum compromisso que justifique tal informação solicitada. Só pode ser aquele histórico gravado no subconsciente, do tempo em que não existia celular e o calendário na parede do borracheiro precisava ser consultado para se localizar no tempo.

Provavelmente naquela época as pessoas paravam no borracheiro só para perguntar qual era a data, ou para olhar a mulher pelada que tinha no calendário, e isso ficou gravado na mente das pessoas. Vai que do nada dá uma pane geral na tecnologia mundial, assim como os cientistas disseram que aconteceria em 2000, mas não aconteceu?  Vai que a gente precise voltar a usar calendários físicos. Se precisarmos, já sabemos onde encontrar, na parede de qualquer borracheiro tem um. Borracheiro que se preze, tem calendário de mulher pelada da parede e está sempre com o cofrinho à mostra. Borracheiro que se preze é gordinho e forte como um touro, até porque se alimenta basicamente de arroz, feijão, bife e ovo. Por instinto, borracheiro come ovo, pois dá sustância.

E como a gente sabe disso tudo? Gravamos no subconsciente para que, em algum momento de necessidade de sobrevivência, a gente consiga se virar, instintivamente, e não se perder no tempo.

O primeiro calendário e a primeira mulher pelada que vi na vida, foram na parede da borracharia do Nico, que era amigo do meu pai, lá em Planalto-RS, cidade onde nasci e cresci. Depois que fui no Nico pela primeira vez, voltei todos os dias para “encher o pneu da bicicleta”. Alguns até dizem que o calendário foi inventado pelo Nico, dentro da borracharia.

– Olha só este pôster desta mulher pelada aqui pessoal, vou pôr na parede.

Todos ficaram olhando para o pôster na parede e o Nico continuou.

– Ficou legal, mas acho que ta faltando alguma coisa.

– Tipo o que Nico, roupa?

– Não, números.

E assim foi criado o calendário que a gente conhece hoje. Uma vez vi um calendário que tinha a Hortência, e estou traumatizado até hoje.

Assim funciona também com as horas, que podem ser obtidas pelo celular, mas você pode estar com ele na mão, ou estar na frente do computador, ou até mesmo em frente àquele prédio do centro que tem um relógio do tamanho de um carro, que não adianta, basta alguém estar com o relógio no pulso, que você não consegue se segurar sem fazer a pergunta “por favor, que horas são”? Salvo os curitibanos, que não perguntam nada, nem a hora, mesmo se realmente precisarem ou estiverem atrasados.

Inclusive, curitibano é um bicho do mato que vive na cidade grande, mas que guardou bem alguns instintos do homem das cavernas, pois quase não interage nem com a própria espécie. Curitibano quando está no elevador já lança mão do celular, para não ter que dar bom dia, às vezes simula que está numa ligação, ou até mesmo simula um infarto.

Por falar em telefone, a gente tem o costume de fazer isso:

– Oi, cadê você?

– Oi, tô chegando. Aqui ó, to abanando pra ti!

–  Ah, beleza, tô te vendo, beijo, tchau.

– Beijo, tchau.

Pra que dar “beijo, tchau” se vai encontrar a outra pessoa trinta segundos depois? E porque a outra pessoa responde? Não sei, mas sempre fiz isso e tenho certeza que é o instinto, só não cheguei à conclusão do real motivo e finalidade.

Outra coisa que muita gente faz, e eu só não faço porque não ando mais, é dar aquela corridinha no instante seguinte que a gente tropeça na calçada da rua, tipo um “microcooper”, como se fosse iniciar uma corrida, mas desistiu por algum motivo. E isso não é nem subconsciente, é dissimulação mesmo , na cara dura para não passar a vergonha do “tropicão”. O que será que a gente pensa? Que os outros vão acreditar que na verdade não estamos indo trabalhar e tropeçamos, mas estamos apenas treinando para a próxima olimpíada executiva? Usando roupa social? Não né! Mas o instinto faz a gente “fakear” a corridinha. É inevitável.

E meu instinto diz uma coisa, que você deve estar se perguntando, onde diabos o ovo, do início do texto, entra nesta história? É que o fato de comer ovo, basicamente resume tudo isso aí em cima. Vamos lá, analise comigo.

O ser humano, desde o início, foi um grande comedor de ovos, pois instintivamente sabíamos que o ovo era algo nutritivo, bom de comer e mais fácil do que comer um mamute, que não era muito amistoso e não gostava de ser comido. O ovo nunca se importou tanto e a gente comia ele de boa.

Aí vieram cientistas entendidos em nutrição e disseram que ovo era o vilão da humanidade e, se continuássemos comendo ovos, todos morreríamos antes dos cinquenta, e quem tinha passado dos cinquenta já estava ferrado, condenado, morreria a qualquer momento com as veias entupidas de colesterol. Maldito ovo! Mas ninguém parou de comer ovos e, pelo que eu sei, ninguém morreu por causa do ovo. Não que eu tenha pesquisado o obituário da população inteira. Isso seria mórbido, trabalhoso e muito bizarro.

Veja, alguns anos atrás, cientistas da nutrição “descobriram” que o ovo faz bem, que é nutritivo e uns mais ousados até dizem que ele vai salvar a humanidade. Ou seja, por instinto, a gente já sabia deste negócio do ovo, até porque nosso instinto nunca falha.

E o ovo, que sempre ficou com aquela cara de ovo, carecão, na dele, na paz, paradão e calado, que nunca tirou ninguém para dançar nas festinhas de ovos, e que mesmo em tempos de redes sociais nunca se manifestou sobre as acusações, se falasse agora, provavelmente diria:

“Viu só? Na dúvida, siga o seu instinto!!! Siga o seu instinto!!!”

 

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