O Muro | Jornal Plural
Clube Kotter
30 jan 2019 - 0h00

O Muro

Há tempos sou um admirador da obra acima, Os embaixadores (1533), do pintor alemão Hans Holbein, o jovem. Como podemos ver, ela mostra dois sujeitos…

Há tempos sou um admirador da obra acima, Os embaixadores (1533), do pintor alemão Hans Holbein, o jovem. Como podemos ver, ela mostra dois sujeitos com roupas suntuosas em uma sala atapetada cheia de objetos representantes das artes e das ciências. Instrumentos musicais, globo terrestre, luneta, livros. E o visitante do museu – a obra está na National Gallery, em Londres – na posição mais manjada: em frente à tela, a um metro e meio de distância. No máximo uma torcida de pescoço pensativa, algo sempre de bom tom em museus. Somos espectadores na expectativa, e, extáticos, ficamos estáticos, com o perdão do jogo pedante de palavras.

Acontece que, ao nos propormos um deslocamento, ao sermos convidados – por nós mesmos e pela convocação silenciosa da obra – a sair do ponto de vista usual, vamos ver algo que parecia escondido, sem um sentido desvendável. Caminhando para a direita e olhando a tela de forma oblíqua, na diagonal – não consigo evitar a deliciosa expressão “de revesgueio” (conhecem essa?) –, damos de cara com um crânio nos sorrindo no tapete da sala. Ele não se deixava ver direito quando estávamos em posição cêntrica diante da pintura. Exigia uma atitude excêntrica, ou seja, de saída do centro.

Nunca li muito as interpretações especializadas (como curiosidade, a pintura está na capa do Seminário 11 de Jacques Lacan, nas edições francesa e brasileira). O que me fica da experiência de ver a obra de Holbein é: vamos inventando coisas, vamos realizando nossas fantasias em objetos desviados, vamos conquistando o mundo, dominando a natureza, mas. Mas ali no tapete a finitude nos espera, nós, as caveiras adiadas. O que me interessa nessa primeira coluna para o Plural é falar de deslocamento, comoção e abertura para os sentidos. Conseguimos a chave para abrir a obra de Holbein quando nos deslocamos, quando nos movemos junto com ela (nos co-movemos).

Muito bem. Saio de Londres e deixo os embaixadores ainda fazendo pose para um pintor que já se foi há quase cinco séculos (ars longa, vita breve, tá ligado?) – e pouso numa ciclovia que corta vários bairros de Curitiba. Sem roupa de visita a museu londrino, sigo pela ciclovia de tênis, camiseta, bermuda, um suor que ainda não escorre, só saiu pelos poros pra ver o movimento. Ali na frente, margeando a via, o muro alto, o muro extenso. O muro que já vi não sei quantas vezes, estivesse eu andando, correndo, de bicicleta, menos ou mais cansado.

O muro como objeto; e eu, sujeito. Que sentidos podem nascer desse diálogo mudo entre a objetividade do muro e a subjetividade de um lunático que resolveu falar com um objeto (de) concreto?  Entre sujeito e objeto: trajeto. E trajeto é sempre transitivo? Visto assim, de revesgueio (o Word estranha e grifa, mas o dicionário informal me confirma a existência da palavra), o muro só revela superfície homogênea, no máximo manchas não codificáveis à minha miopia. É um muro que, repito, já vi tantas vezes, numa cidade que vejo quase todos os dias desde que nasci. Os objetos à minha volta precisam mudar para que eu consiga ver alguma coisa diferente? Eu, sujeito, posso renovar o olhar vendo os mesmos objetos de sempre, fora de mim? Como ver (comover?) diferente o tantas vezes já visto? Que deslocamento é preciso, onde a surpresa do crânio de Holbein, onde se esconde o susto necessário a algum maravilhamento da rotina e da retina fatigadas?

Lentidão é palavra equivalente a palavrão no mundo contemporâneo. O esperto é veloz, ágil, cheio de opinião e iniciativa. Mas ali, no muro que se aproxima, parei de correr, de caminhar apressado. O suor se recolheu, desistido. O minuto necessário para percorrer a extensão de tijolo e chapisco virou dez, quinze minutos no tecido alongado do tempo. E carrego ainda o muro dentro de mim. É o muro que ofereço nessa primeira coluna, é ele que curto e compartilho. Foi ele que me comoveu, que exigiu de mim um deslocamento diferente, revelando-se no palmo a palmo. Espera: o muro revela, assim objeto? Eu o revelo, eu-sujeito? Eu me revelo nele, ele se revela em mim?

Nas próximas duas ou três colunas eu vou mostrar alguns instantes de encontro com o muro, o que ele, sem interesse pela resposta pobre ou terrível que eu lhe der (vai mais um drummondzinho aí?), pode me perguntar, o que ele, objeto, pode falar a esse sujeito aqui, de palavras poucas e embotadas.

Gente, o muro grita.

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